Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

O amor e as mortes cotidianas no livro ‘Primeiro eu tive que morrer’

O romance de estreia da cearense Lorena Portela se passa em Jericoacoara e conta a história de uma publicitária que escapa de um colapso
Primeiro eu tive que morrer, trabalho de @viqueart. Foto: reprodução autorizada @viqueart
Primeiro eu tive que morrer, trabalho de @viqueart. Foto: reprodução autorizada @viqueart

O primeiro pensamento que veio assim que terminei a leitura de Primeiro eu tive que morrer foi: que bom, as pessoas precisam mesmo entender que amor é amor. E ponto. Sendo a arte espelho da sociedade, nunca entendi as razões das histórias com temática LGBT serem, na maior parte, dramas. Detalhe: com sofrimento. Quando o personagem descobre que está apaixonado por outra pessoa do mesmo sexo, o mundo cai. Isso precisa mudar. 

Acredito que à medida que mais casais LGBTs aparecem com naturalidade em filmes, livros e afins mais próximos estarão na realidade. Ou seja, (vale repetir!) amor é amor e ponto. Foi exatamente isso que me bateu mais forte na leitura de Primeiro eu tive que morrer, de Lorena Portela. No caso, a morte aqui não é literal. A autora de Fortaleza radicada em Londres fala sobre as pequenas mortes cotidianas que fazem parte da nossa vida. De todo mundo, inclusive da sua.

Lorena Portela é jornalista, mas trabalhou durante muito tempo com publicidade. Sendo assim, conhece bem o ambiente das agências. Embora afirme que não se trata de uma narrativa autobiográfica, nota-se conhecimento de causa. A autora é bastante sagaz ao descrever o comportamento de quem trabalha nessa área e as respectivas pressões de quem se dedica à comunicação.

Trama

Primeiro eu tive que morrer conta a história de uma publicitária em colapso. Ela se entrega tanto ao trabalho que a antiga paixão pelo ofício vai perdendo o sentido. Quem nunca passou por isso no trabalho? Sabe quando você vai no piloto automático? É bem parecido com uma morte, né?

À beira de um burnout, a protagonista é “obrigada” a tirar umas férias. Para tal, escolhe passar 60 dias em Jericoacoara, no Ceará. Ela tem um casal de amigas que administra uma pousada e, sendo assim, se oferece para ajudar na empreitada. 

Romance em Primeiro eu tive que morrer

Em uma passagem bem típica dos filmes de romance água com açúcar, antes da viagem ela recebe o e-mail de Glória, a única mulher com quem esboçou um relacionamento lésbico. Pronto, elas combinam de se encontrar na praia paradisíaca e é melhor parar por aqui para evitar spoilers. Fato: não tem drama. São duas mulheres abertas a viver o que o presente oferece.

Embora o que acontece entre elas seja algo forte no livro, Primeiro eu tive que morrer não foca somente na história de amor. Lorena Portela fala, em uma linguagem tão coloquial que dá para perceber até o delicioso sotaque dos cearenses na leitura, também sobre a força das mulheres, sobre o poder e o respeito que precisamos ter em relação à ancestralidade, sobre intuição e por aí vai. 

A reflexão que fica é que, realmente, para poder viver certas experiências transformadoras, primeiro é preciso deixar morrer o que não vinga mais. Sem drama e com muito amor principalmente por si.

Participação de Lorena Portela no podcast Bom dia, Obvious, de Marcela Ceribelli.

Em tempo

A foto de destaque deste post é um trabalho da artista Viqueart (vale muito conhecer o trabalho dela no Instagram @viqueart). A leitura de Primeiro eu tive que morrer inspirou esta arte. Inclusive, ela tem se dedicado a uma série de desenhos a partir de frases dos livros que tem lido. O primeiro, por exemplo, foi Matéria Escura, de de Blake Crouch.

Primeiro eu tive que morrer. Foto: Carol Braga/Culturadoria
Primeiro eu tive que morrer. Foto: Carol Braga/Culturadoria

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