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Ingressos para festivais: por que os preços estão em alta?

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O setor cultural está lidando com um cenário sem precedentes e, consequentemente, o preço dos ingressos também foi afetado.

Por Caio Brandão | Repórter

Proporcionando, provavelmente, as experiências mais épicas envolvendo performances musicais ao vivo, os festivais se posicionam como um dos eventos mais aguardados mundo afora. Por geralmente reunirem vários artistas de diferentes estilos, algumas dessas iniciativas começam a mobilizar o público desde o dia marcado para o anúncio das atrações. Já a abertura da venda de ingressos dá início a um movimento gigantesco, atraindo milhares de pessoas de uma só vez, e, por vezes, congestionando a Internet.

O setor cultural está lidando com um cenário sem precedentes e, consequentemente, o preço dos ingressos também foi afetado.
Foto: Pixabay

Em meio a tudo isso, a evidente alta no preço dos ingressos – em particular, agora, neste período pós-pandemia – passou a pesar no bolso dos fãs interessados. Assim, o Culturadoria foi conversar com dois expoentes da área – Bell Magalhães, diretora d’A Macaco Indústria Criativa, responsável pelo festival Sarará, e Barral Lima, CEO do grupo UN Music – para tentar entender melhor os fatores que erguem essa inflação. 

As dívidas pandêmicas

O advento da pandemia da Covid-19, é incontestável, acabou remodelando a economia de todo o planeta. Desse modo, vários setores sofreram uma queda vertiginosa em sua renda média – e, claro, a cultura não ficou de fora deste cenário. Tanto artistas quanto produtores, assim como os outros elos envolvidos nesta indústria, foram forçados a se adequar ao novo panorama econômico que se instalou. 

“Foi um rombo imenso”, constata Barral. “Muitas empresas fecharam e muitas outras tiveram que se adaptar, buscando outras fontes de renda. Foram milhares empregos perdidos na área do entretenimento. Quem trabalhava com o formato 360°, no qual você tem vários tipos de negócios na música, ainda conseguiu sobreviver. Mas a grande maioria, os fornecedores de serviços principalmente, sofreu muito”, explica o CEO. 

Assim, instaurou-se uma aura de incerteza acerca dos processos de montagem de um festival. Logo, o susto foi grande para o setor cultural, gerando uma apreensão inicial diante das previsões horríveis em relação ao lado business da cultura, que ocorriam no auge da pandemia. No entanto, esforços estão sendo desprendidos na tentativa de estancar tais custos, bem como para adaptar essas logísticas de um modo que tirem proveito do novo contexto que se estabelece.

“A mão de obra, a infraestrutura e os cachês de artistas, por exemplo, estão muito mais altos”, pontua Bell, acrescentando que a inflação afetou diretamente os proponentes de festivais e, consequentemente, o valor dos ingressos. “Estamos trabalhando com uma nova realidade, novas tendências e nova forma de consumo. É o momento de entender isso tudo e estudar o público. Acredito que nós, do setor da cultura, ainda iremos sentir esse impacto por pelo menos mais dois ou três anos”, analisa.

Dados que ilustram os danos

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o setor cultural perdeu, em 2020, 11,2% dos postos de trabalho disponíveis em relação ao ano anterior, percentual maior do que o total da população ocupada no país, que foi de 8,7%. Em 2019, 5,5 milhões de pessoas trabalhavam na área de cultura, mas, em 2020, esse número caiu para 4,8 milhões, indo contra a indicação crescente que o setor possuía desde 2016.

Ainda em 2020, o número de trabalhadores informais na cultura era de 41,2%, aumentando ainda mais as consequências econômicas para quem atuava na área. Esse número é maior do que o percentual considerando trabalhadores informais de todas as áreas, que era de 38,8%. Nesse sentido, milhares de pessoas ficaram desamparadas, tendo em vista as implicações inerentes ao trabalho informal. 

Ademais, a massa salarial dos trabalhadores de cultura caiu 8%, passando de R$ 13,1 bilhões, em 2019, para R$ 12,1 bilhões em 2020, mesmo com o aumento do rendimento médio dos empregos relacionados à cultura. Ocorre que o aumento não foi suficiente para compensar os índices de desocupação na época.

Você pode conferir todos os dados dessa pesquisa pelo link.

Os efeitos colaterais na curadoria

Considerando o cenário que se impõe, todos os aspectos que compõem a realização de um grande evento apresentam um custo mais alto que o normal, e, dessa forma, a curadoria dos festivais também é afetada. Assim, algumas atrações que poderiam estar em um line-up inicial, acabam sendo cortadas.

Quando se trata de um festival, um dos principais fatores que influenciam o preço do ingresso é o line up, quais artistas estarão presentes nesse evento”, situa Barral. “Além disso, tem toda a infraestrutura e o leque de experiências que você quer oferecer ao público. Às vezes, com o cachê de um artista médio você paga três ou quatro artistas novos, emergentes. Acho que isso abre uma grande oportunidade para os novos artistas”, avalia Barral.

O orçamento, contudo, não é o único fator que pode alterar a lista de artistas presentes em um evento. Bell ressalva que a definição de um line up envolve muitos fatores. “No Sarará, por exemplo, a gente prioriza muito a diversidade de estilos musicais e de vivências de grupos e pessoas — de diferentes raças, sexualidades, identidades de gênero, regiões brasileiras etc”.

O que fazer daqui para frente?

Assim, estariam estabelecidas, portanto, as causas dos preços atuais. No entanto, o que pode ser feito para reverter o panorama? A realidade é que não existe uma fórmula para tal, tendo em vista que o cenário atual não possui precedentes. “Acho que não volta mais como era. São novos tempos, novos formatos e novos desafios. Para muitos, é começar de novo. Temos uma realidade nova sim, mas com uma economia complexa, que ainda não se ajustou como é necessário”, situa Barral.

Mesmo assim, alguns caminhos se apresentam rumo a um prognóstico positivo. “Se por um lado houve muitas perdas, acho que recomeçar pode ser uma forma de ter mais uma chance de fazer melhor. Assim, usar todo o aprendizado propiciado pela pandemia para ser mais colaborativo, fazer parcerias buscando um resultado coletivo”, refletiu Barral.

Aliás, ele confessa ter pensado muito em trabalhar dessa forma. “Quando você pensa em coletivo, você pensa grande. Nem sempre ganhar sozinho é a promessa de um bom negócio. Quando você divide, ao final, você soma, e, assim, consegue uma longevidade nos projetos”, completa. 

Os dois lados da moeda

Além disso, esforços estão sendo empreendidos na tentativa de estreitar ainda mais a relação do público com os festivais em si. Desse modo, seria possível alcançar um resultado que contemple o melhor cenário possível tanto para a organização do evento quanto para a plateia.

Bell Magalhães comenta: “A gente conhece os dois lados da moeda e sabe do crescimento absurdo dos custos. Por um lado, sabemos que é necessário um ajuste nos preços para que a conta feche e o proponente não tenha prejuízo com o festival. Mas, por outro, sabemos que a inflação também impactou o público. Durante a retomada de shows e eventos, o aumento do valor dos ingressos de fato assustou as pessoas”.

Nesse sentido, a diretora d’A Macaco Indústria Criativa considera que primeiramente é essencial estabelecer uma comunicação transparente entre o público e a organização do festival. “No Sarará, por exemplo, decidimos abrir a nossa realidade para, assim, termos conversas honestas. A gente, claro, sabe que o público é parte fundamental para (o êxito de) um festival, por isso, é essencial alcançar soluções que acabem sendo boas para as duas partes”, finaliza Bell.

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