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‘Praça Paris’: o olhar do trágico por dentro

Por Thiago Fonseca *

25/04/2018 às 11:26 | *Colaborador

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Foto: Thiago Theo / Divulgação.

‘Praça Paris’ é um filme que te deixa sem ar. Atualiza uma discussão que todo mundo precisa ter acesso: o racismo, o preconceito social, o colonialismo, a relação de poder, e a paranoia. É uma narrativa de imersão. Um suspense que é reafirmado pela trilha sonora, uso de enquadramentos fechados e de primeiríssimo plano. Uma premissa inovadora com diálogos que se conectam em todo o enredo.

O thriller retrata o conflito entre uma portuguesa, Camila, personagem de Joana de Verona, e Glória, papel de Grace Passô. Ela é paciente de Camila em um centro de terapia de uma universidade brasileira (UERJ). A atividade é parte do mestrado da psicóloga que veio ao Brasil para desenvolver uma pesquisa sobre violência. Glória é ascensorista de elevador na universidade e tem uma história muito difícil. Foi violentada pelo pai e tem a proteção apenas do irmão, Jonas (Alex Brasil), traficante do morro, que controla sua vida.

Dessa maneira, o filme mostra uma relação de transferência ao inverso, onde o medo do outro acaba dominando a trama e retrata a violência que voltou a explodir no Rio. Medo, traumas, e obsessão se mesclam em um jogo de prazer e culpa, loucura e sanidade, construção e desconstrução da cidade.

 

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A narrativa

O longa surgiu de um fato ocorrido há mais de 10 anos.  A diretora Lucia Murat ouviu de uma amiga sobre a paranoia que uma das alunas do mestrado de psicologia havia desenvolvido em função da relação com os pacientes envolvidos na violência do Rio. A narrativa caminha por aí. O fio condutor do longa é o consultório de Camila.

Ela é a protagonista. E acaba desenvolvendo uma paranoia por meio da história de Glória contada durante as sessões de psicologia. A escolha de uma personagem estrangeira, mulher branca e de alta classe ajuda a exacerbar a questão do colonialismo. Dessa forma, ainda reforça o sentimento de não pertencimento e deslocamento cultural da personagem. Que é bem visível no longa.

Glória mesmo não sendo a principal, de fato, rouba a cena e deixa o público sem saber o que quer. Por mais que seja vista como a vítima da história, tira de si o vitimismo. Personalidade foi construída por Grace, já que a atriz teve autonomia na formação da personagem. Glória tem sua vida controlada pelo irmão, que está preso, e carrega marcas do seu passado. Assim, precisa de ajuda. Dessa maneira, foi em Camila que encontrou refúgio, mas não pode contar com ela por muito tempo.

 

Cena de “Praça Paris’ – Foto: Thiago Theo / Divulgação.

História necessária e urgente

Por mais que o longa fale sobre violência, há poucas cenas que a demonstra. Dessa forma, ‘Praça Paris’ não exacerba e nem estimula o comportamento, apenas gera discussão. A história é fácil de ser entendida. Os efeitos sonoros e visuais estimulam a uma imersão, de tal forma que cria um certo medo. A princípio o uso excessivo de enquadramentos fechados e de primeiríssimo plano causam um estranhamento. Entretanto, ajudam na construção da narrativa e das sensações.

Um elemento utilizado pela diretora que dá certo é a mescla de documentário com ficção. Por exemplo, durante algumas cenas são inseridos vídeos que mostram a violência nas favelas do Rio de Janeiro. Como resultado, o longa fica mais realista e choca. A religião evangélica também está bem presente no thriller. Tanto na relação da personagem Glória, como com elementos que são inseridos para criar suspense. Muitas das cenas foram feitas em sets reais. O pastor de Glória (Babu Santana) é quem divide com Camila as aflições e angústias da personagem.

Muitos devem se perguntar porque o filme se chama ‘Praça Paris’. O ponto turístico está presente no filme nas cenas de romance entre Camila e o namorado. É metaforicamente o que o longa trata: a imposição de fora e o reflexo do progresso. Sobretudo, a loucura da colonização e a inserção de uma praça nos moldes europeus no Rio.

Sem duvidas, ‘Praça Paris’ chega como um filme reflexivo e que nos dá um soco na boca do estômago. É preciso refletir e digerir a mensagem. Até quando vamos sofrer a imposição do outro e o preconceito? O longa entra em cartaz no dia 26 de abril.

Prêmios

O filme participou da Première Brasil do Festival do Rio e levou os prêmios de Melhor Atriz para a protagonista Grace Passô e Melhor Direção para Lucia Murat.  Também em 2017, recebeu o Prêmio Dom Quixote de Melhor Filme no Festival de Havana, e foi selecionado para a Mostra Competitiva do Festival Internacional de Chicago e para o Festival de Talin (Estônia) Black Nights. Em 2018, Praça Paris’ participou do FEStin em Lisboa, onde a atriz Grace Passô ganhou o prêmio de Melhor Atriz.

Praça Paris”, ainda levou os prêmios de Melhor Longa Iberoamericano e Melhor filme Iberoamericano pelo júri FIPRESCI no 36º Festival Cinematográfico Internacional del Uruguay este ano. O longa é o décimo terceiro longa-metragem da diretora Lucia Murat, premiada diretora, com participações nos festivais nacionais e internacionais.

 

Lucia Murat, diretora de Praça Paris – Foto: Thiago Theo / Divulgação.

ENTREVISTA COM LUCIA MURAT, DIRETORA DE ‘PRAÇA PARIS’

 

Lúcia, de onde surgiu a ideia da história de filme?

Esse filme começou há uns 10 anos. ‘Praça Paris’ surge quando uma psicanalista, amiga minha, comentou sobre os problemas que estavam acontecendo com os jovens de classe média num centro de terapia para carente no Rio. Nesse momento, antes das UPPS e a violência estava explodindo na cidade e uma das jovens que era psicóloga estava vivenciando uma certa paranoia em relação a violência a ponto de ter que parar o tratamento.

Achei o tema incrível e disse para minha amiga que a história poderia virar thriller fantástico. Ela me chamou de louca e eu segui com a ideia de fazer o filme. Guardei o tema e quando vieram as UPPS, a sociedade viu que os problemas das comunidades não foram resolvidos e a violência estava explodindo, falei: agora é hora de desenvolver esse filme. Chamei o Raphael Montes para trabalhar comigo no roteiro, pois queria alguém com experiência em suspense que pudesse fazer um filme que passasse um medo nas pessoas e ao mesmo tempo debater a discursão social. Pesquisamos e colocamos em prática, dessa forma nasceu o filme.

Quais foram os desafios na produção do filme?

A situação de violência no morro nos impediu de muita coisa. Quando começamos as pesquisas nós não pudemos subir no morro e fazer a entrevista com as ONGs. A gente se quer conseguiu gravar no Morro da Providência. Tivemos que filmar fora e fazer nosso set de gravações em uma favela menor.

Como foi o processo de escolha da Grace Passô como protagonista do filme?

Conheci a Grace quando fui convidada para dar uma palestra em um grupo de teatro que estava desenvolvendo uma peça que ela era dramaturga. A discussão e o contato foram muito bons. Na ocasião, eu já estava pensando em fazer o filme, mas estava longe de começar. Não conhecia o trabalho da Grace e me disseram que além de dramaturga, era atriz. Fui ver algumas peças com ela e gostei. Queria uma pessoa que não fosse clichê e que pudesse dar uma densidade no personagem. Quando fomos escalar o elenco, junto com o produtor, ela era a primeira opção. E deu certo e está sendo muito elogiada. Qualquer lugar do mundo em que levo o filme, a primeira coisa que falam é da Grace.

Este é o 13º filme da sua carreira. É considerada uma das maiores cineastas do Brasil. Como você vê sua trajetória e como é chegar aqui hoje com tantos longas?

Outro dia estava fazendo uma conferência no Sesc e apresentei os trailers de todos os 13 filmes e fiquei até cansada. Você olha e fala: meu Deus do céu! Eu lembro de todos, porque partiram de vivências. É uma alegria imensa. Espero continuar. É muito triste parar.

A Ancine anunciou um novo sistema de cotas de gênero e raça em um edital que destinará R$ 100 milhões a projetos de produção de longa-metragem. De acordo com os novos parâmetros, ao menos 35% desse valor deverá financiar filmes dirigidos por mulheres cisgênero, transexuais ou travestis. Outros 10% são assegurados para projetos com direção de pessoas negras ou indígenas. Como você enxerga essa medida?

Essa decisão da Ancine vem de uma luta muito grande de várias associações de cineastas, que vem lutando no sentido que é importante termos essas cotas. Essas questões identitárias são muito importantes hoje e esses segmentos não estavam conseguindo fazer filmes. Os últimos dados apontam que basicamente quem fazia filme no país era homem branco. Os dados de 2016 ainda apontam apenas 2,1% dos filmes lançados naquele ano por homens negros e nenhum por mulheres negras. A decisão é fruto de uma luta muito grande da gente. Mas acho que muito mais ainda tem que ser feito.

Há uma discussão muito grande Hollywood e no cinema brasileiro a igualdade de gênero e o papel da mulher no cinema. Como você enxerga esse cenário onde as mulheres estão lutando por um espaço maior?

Hoje você tem um movimento feminista muito grande. Diferente daquele movimento que vivi nos anos 60, que foi subjugado pela luta contra a ditadura. Hoje não, a questão identitária e os movimentos são de vanguarda, onde as questões principais estão sendo discutidas. Isso é importante e tem que ser discutido.

Você já sofreu preconceito por ser uma mulher cineasta?

Tenho experiência de vida muito particular. Quando fui fazer cinema já tinha uma história. As pessoas tinham medo de mim, então me respeitam. A diferença é que hoje em dia a equipe de Praça Paris é composta, em sua maioria, por mulheres. É prazeroso e fortalece. Assim, não precisa bancar tanto a forte quando se tem uma equipe masculina.

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