Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Por que Vanusa precisa ser revisitada em pleno século XXI?

A cantora Vanusa, que completaria 74 anos em setembro de 2021, deixou um legado de 20 álbuns e uma potente mensagem de empoderamento feminino
Cantora Vanusa. Foto: Gabriela Pilo/Estadão Conteúdo

Em junho de 2021, a Amazon Prime Video lançou no Brasil e em mais de 200 países a série original Manhãs de setembro. Conta a história de Cassandra, uma mulher trans, motorista de aplicativo, que trabalha durante o dia com entregas. Durante a noite, se realiza cantando – com voz extraordinária – em boate de travesti, no submundo de São Paulo. Cassadra, interpretada pela talentosíssima Liniker, tem a cantora Vanusa como a musa inspiradora. Cassandra é uma mulher livre, destemida e independente.

E qual a relação dessa história com a cantora brasileira, Vanusa? Tudo.

Em setembro de 1947, veio ao mundo Vanusa Santos Flores. Ela nasceu na Cidade de Cruzeiro (SP), porém viveu toda a sua infância em Minas, na Cidade de Uberaba.

Com voz marcante, coragem e autenticidade, iniciou a carreira artística em 1967, com a gravação de Pra nunca mais chorar. O ápice da carreira de Vanusa, tanto em termos artísticos quanto comerciais, aconteceu na década de 70. Os álbuns mais lembrados foram cinco LP´s lançados entre 1973 e 1979.

Manhãs de Setembro

A música Manhãs de Setembro, tema da série, foi o primeiro grande sucesso. A música, composta por Vanusa com participação de Mario Campanha, diz sobre o profundo estado psíquico de completa solidão auto infligida, o que retrata, com maestria, a vida de Cassandra, a protagonista.

No clímax da canção, a cantora afirma querer sair desse estado psíquico de isolamento. Deseja voltar a ver as flores, o que há de mais óbvio na primavera. Na série, a protagonista abandona seu completo isolamento, para aceitar o amor de um filho que nunca havia conhecido. Ambas, Vanusa e Cassandra, movimentam-se em busca de um profundo resgate de si. Daí a completa afinação entre realidade e ficção.

A faixa Manhãs de setembro fez sucesso em várias rádios do país, evidenciando a potência da música composta por Vanusa. Como compositora, sempre buscou trazer as dores que lhe afligiam para a letra das canções, o que sempre lhe rendeu duras críticas. Como mulher corajosa e independente, não abriu mão da luta feminista por direitos, pela liberdade do corpo e do desejo.

É de Vanusa, inclusive, a letra da música Mudanças, lançada em 1979, em que ela afirma que irá mudar, “por na balança a coragem, me entregar no que acredito, pra ser o que sou sem medo”. E arrematada dizendo:

Porque sou mulher como qualquer uma. Com dúvidas e soluções. Com erros e acertos. Amor e desamor. Suave como a gaivota. E ferina como a leoa. Tranquila e pacificadora, mas ao mesmo tempo irreverente e revolucionária. Feliz e infeliz. Realista e sonhadora, submissa por condição, mas independente por opinião. Porque sou mulher com todas as incoerências. Que fazem de nós um forte sexo fraco”.

Letra de Mudanças, de vanusa, 1979

Hino de libertação

Chega a ser alarmante como, em pleno século XXI, a música de Vanusa continua tão atual e revolucionária. Ela convoca todas as mulheres para o grito de independência. O aumento do feminicídio, principalmente durante a pandemia, nos impele a concluir que Vanusa é mais que necessária atualmente. Sua canção é atual. Seu hino de libertação é pulsante.

Vanusa ainda gravou em 1981 a canção Eu sobrevivo, versão em português de I will survive de Freddie Perren e Dino Fekaris. Essa canção foi, na verdade, seu último sucesso em evidencia.  Depois a cantora acabou se afastando dos palcos e vivendo da fama que alcançou na década de 1970.

Vanusa também foi pioneira ao falar sobre a violência doméstica na música S.O.S mulher, no álbum Vanusa (1981), uma composição de sua autoria. Toda essa temática, abordada em suas canções, só veio demonstrar a atualidade da artista. Sempre foi antenada com a luta de gênero e cumpridora do seu dever de levar, por meio da arte, a discussão sobre violência contra mulher, sonho, desejo e pulsões do corpo feminino.   

Ascensão e queda

A cantara Vanusa deixou um grande legado. Em resumo: mais de 20 discos lançados ao longo da carreira. Ao todo, atingiu a marca de três milhões de cópias vendidas. Tinha uma voz afinada e encorpada, sendo uma intérprete dramática, o que fez dela uma grande artista. Foi a única artista mulher a marcar com sua voz, a música de abertura do Fantástico, em 1973.

Vanusa foi internada várias vezes para tratamento contra a dependência química em calmantes. Eram usados, muitas vezes, como anestesia para essa vida tão crua. Segundo ela, “você começa a achar que não é digna de estar viva.” Porém, sempre usava a arte como porta de saída do submundo da dor. Tanto que em 2015, depois de longo período sem criação, lançou novo álbum, produzido por Zeca Baleiro e que traz no título o seu nome de batismo. Segundo ela, o disco era um “renascimento”.

A cantora Vanusa faleceu na manhã de um domingo, 08 de novembro de 2020, em uma casa de repouso em Santos, no litoral de São Paulo. Morreu por insuficiência respiratória, quando definitivamente lhe faltou o ar.

Por Karina Braga | Culturadora

@karinalibraga, mineira de Ouro Preto, interessada em humanidades, advogada por formação e estudiosa de filosofia, zen budismo e psicanálise. Gosta de discussões políticas e é uma crítica fervorosa do neoliberalismo, com seus instrumentos de manejo de corpos e mentes.

Cantora Vanusa. Foto: Gabriela Pilo/Estadão Conteúdo

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