Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Por que Parasita mereceu ganhar o Oscar?

Filme dirigido por Bong Joon Ho faturou quatro prêmios no Oscar, entre eles, o mais cobiçado de todos, a estatueta de melhor filme

“Estou sem palavras. Nós nunca imaginamos que isso acontecesse”, disse a produtora Kwak Sin Ae assim que recebeu o Oscar por Parasita. Pois é, Kwak, nem vocês e nem o mundo esperava por este resultado. E como foi bom, né?

Mais que surpreendente, a estatueta de melhor filme para o longa sul-coreano é representativa. Foram quatro prêmios dos seis aos quais concorria. Só categoria fina. Melhor roteiro original, filme internacional, diretor para Bong Joon Ho e filme. “Sinto que um momento muito oportuno da história está acontecendo agora”, continuou Kwak Sin Ae. Alguém discorda? Eu não.

Talvez seja cedo para dizer se a mudança que Parasita representa reflete mesmo um novo perfil da Academia ou se será algo pontual, um momento fora da curva. De toda forma, é um fato interessante a se analisar. E é preciso dizer mais, Bong, Kwak e toda a equipe será que vocês têm ideia de tudo o que Parasita representa neste momento?

Bong Joon Ho recebe o Oscar de melhor filme de 2020. Foto: Blaine Ohigashi/AMPAS/Divulgação

 

Produtora Kwak Sin Ae recebe o Oscar de melhor filme de 2020. Foto: Blaine Ohigashi/AMPAS/Divulgação

 

Vitória do estrangeiro

Concordo com quem disse que Parasita é mais importante para o Oscar do que o Oscar para Parasita. Mesmo sendo algo inédito na história da Coréia do Sul. É a vitória de um estrangeiro. E, diga-se de passagem, um forasteiro que nem fez tanta força assim para ser “aceito”. A cara de surpresa de Bong a cada anúncio revelou isso. O longa é todo no idioma local e vale lembrar que americano não é, ou pelo menos não era, familiarizado assim com legendas. Pelo contrário. Tomara que isso seja um sinal positivo para o cinema do resto do mundo. O brasileiro, inclusive.

Tema universal

O longa dirigido por Bong Joon Ho também venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2019. Isso leva a crer que a mensagem que o filme carrega é tão relevante que, de fato, ultrapassou até mesmo estilos de premiações tão distintas como Cannes e o Oscar. Se o primeiro é um festival competitivo, muito ligado a estética e autoralidade nas criações, o segundo é um prêmio da indústria. Ou seja, a ausência de barreiras na trajetória de Parasita, é um sinal da urgência desse filme.

Crítica contundente ao capitalismo

O longa de Bong Joon Ho pode ser analisado a partir de inúmeros pontos de vista. Para quem não viu, a sinopse básica é: uma família desempregada vai pouco a pouco se infiltrando para trabalhar para uma família de ricos.

Em primeira instância, Parasita fala sobre a desigualdade social como uma chaga do capitalismo. Chega a ser curioso como o diretor nos estimula até a imaginar um cheiro, sem perder o fio da meada sobre o que isso também diz sobre diferença de classes. É profundo e muito – muito mesmo – surpreendente.

Crise de confiança

Embora a desigualdade, a crítica ao capitalismo, sejam camadas mais explícitas de Parasita, sempre pensei nesse filme também como um alerta sobre como estamos construindo as relações. Parasita fala sobre uma crise de confiança. Dessa maneira, o faz como uma constatação e não como um julgamento. Abusar da confiança da família rica é tudo o que resta a quem não tem um lugar digno para morar, o que comer e por aí vai.  É mais um retrato da eterna tensão entre ricos e pobres. Em resumo: isso existe na Coreia do Sul, no Brasil, na França, nos Estados Unidos.

A conclusão que Bong nos apresenta é desanimadora. A desigualdade já se instalou de tal forma no mundo, contamina as relações de tal maneira, que não há qualquer possibilidade de solução.  Sendo assim, é uma desesperança completa.

Aldeia

Ao pensar em toda a trajetória de prêmios de Parasita, é inevitável não pensar na máxima de Tolstoi: “Fale de sua aldeia e falará para o mundo”. Talvez o escritor russo não seja referência para Bong. Ou melhor, depois do discurso de agradecimento no Oscar é certeza que não mesmo. Foi, na verdade, com Martin Scorcese que o sul-coreano aprendeu algo similar. “Quando eu era jovem e estudava cinema, havia um ditado que eu esculpia profundamente em meu coração, que é ‘o mais pessoal é o mais criativo’.”

Viva Parasita!

 

Bong Joon Ho recebe o Oscar de melhor filme de 2020. Foto: Blaine Ohigashi/AMPAS/Divulgação

 

Sendo assim,

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