Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

[PONTO DE VISTA] O Topo da Montanha é simples e potente

Por Carol Braga

17/10/2016 às 09:05

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14716664_1706824796303670_4356786607127265280_nA frase de Lázaro Ramos sobre O Topo da Montanha ser “teatro no mais puro dos sentidos” me perseguiu ao longo do fim de semana. De uma forma geral, me parece que as montagens teatrais tem se distanciado disso – do mais puro, daquilo que faz teatro ser teatro e nada mais. Seria mais uma? Por isso minha curiosidade redobrou para ver o que Lázaro Ramos e Tais Araújo levaram para o Palácio das Artes.

Meu arrepio no fim da sessão não deixou dúvidas. O Topo da Montanha é um espetáculo muito simples. Essa é a questão. Se apoia na tríade essencial: texto, ator e direção. Teatro bom não precisa mais do que isso. É “o teatro no mais puro dos sentidos”.

O texto da dramaturga norte-americana Katori Hall reconstrói ficcionalmente a última noite de Martin Luther King. Com frases rápidas, diretas, sem pieguice, mas com peso histórico, ela mistura humor a temas como racismo, feminismo, luta de classes, religião e até vaidade. A atualidade do espetáculo está na costura destas causas.

Na prática, O Topo da Montanha diz sobre o contexto do final dos anos 1940, quando Luther King defendia o amor como saída para os conflitos da época. Na noite anterior ao assassinato deste ícone da luta negra, ele recebe no quarto do hotel a espevitada camareira Camae. Ela provoca, questiona e desafia.

A forma como as informações – sejam os fatos históricos ou mesmo as defesas sociais de Luther King – nos são reveladas no decorrer do espetáculo. Nada é datado. A luta continua. E, sim, ainda tem a quem incomodar.

É uma peça que oferece a seus intérpretes a possibilidade de um jogo dinâmico nem um pouco rasteiro. Intimidade é o que não falta a Lázaro Ramos e TaÍs Araújo. Confesso que ela me surpreendeu mais, talvez por não conhecer tanto a trajetória dela nos palcos. Ambos acertam o tempo dos seus personagens. É uma peça de muitas nuances e viradas de clima intensas. Por causa disso, o riso não fica gratuito e nem o drama pesado.

Lázaro Ramos assina a direção. Fez escolhas que ressaltaram o protagonismo da palavra.  Por isso o jogo dos atores se mostra tão importante.  Por vezes, o entra e sai do banheiro ou a estrutura que demarca o território do quarto do hotel oferece ao cenário protagonismo desnecessário. Apenas um detalhe em uma montagem de inúmeros acertos.

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