07 maio 2018

Ópera pelo avesso: nos bastidores de ‘La Traviata’

Ao terceiro sinal todos os 11 solistas e 140 músicos da Orquestra Sinfônica e do Coral Lírico de Minas Gerais  estão a postos. Se distribuem entre palco e foço. O abrir da cortina mostra o quão grandiosa é a produção. É o avesso dela que nos interessa revelar.

Além dos solistas, músicos e do coral ainda participam da produção 14 bailarinos da Cia. de Dança e mais de 60 profissionais entre técnicos de palco, assistentes, contra-regras, maquiadores e cabeleireiros. É gente a perder de vista. O Culturadoria visitou as coxias do palco do Grande Teatro do Palácio das Artes Durante uma das apresentações da ‘La Traviata’, de Giuseppe Verdi, que esteve em cartaz em abril.

Antes de subir ao palco

Diferente do que se imagina, nos bastidores da ópera tudo é muito tranquilo e organizado. ‘La Traviata’ estava marcada para começar às 20h30. Às 17h os primeiros artistas já enchiam os camarins do Palácio das Artes. Uns chegaram às 17h30, outra parte às 18h00. Tudo pensado para otimizar a caracterização. Os mais de 150 integrantes foram divididos em quatro salas onde trocavam de figurino.

Em cada um dos camarins, os artistas tinham a ajuda de dois profissionais. Algumas saias chegavam a pesar 10 quilos. Além dos vestidos terem muitos botões e fechos. Era difícil trocar de roupa sem a ajuda de alguém. Durante o espetáculo os artistas tiveram que trocar de figurino pelo menos duas vezes. Todos eles haviam o nome do artistas escrito no interior.

Os mais de 300 figurinos de ‘La Traviata’ foram assinados pelo paulista Cássio Brasil. Eles foram criados com o objetivo de resgatar a tradição e o glamour das vestimentas parisienses do século XIX. Dessa forma, evidencia a opressão, o conservadorismo e o preconceito daquela sociedade. As peças foram confeccionadas sob medida para os artistas e costuradas num ateliê improvisado no pequeno estúdio do Palácio das Artes.

 

Maquiagem dos artistas e do ballet durante a ópera – Foto: Thiago Fonseca.

Carcaterização

O cabelo e a maquiagem eram feitos em outros dois espaços por nove profissionais. Para agilizar o tempo, a maioria era perucas ou apliques que já estavam montados. Era só encaixar. Cada um tinha seu saquinho de peruca e adereço com nome e foto. Nas paredes estavam colados os modelos das maquiagens. Foram cinco dias de treinamento para os profissionais da caracterização pegarem o jeito.

Diferente do grupo, a solista Jaquelina Livieri, que interpretou Violetta Valéry tinha um exclusivo. O tenor Fernando Portari, interpretando Alfredo Germont, o solista Paulo Szot (Giorgio Germont) e o maestro Silvio Viegas dividiam outro. O camarim dos quatro era separado dos demais e ficavam bem ao lado do palco, enquanto os outros se localizavam no andar de baixo. Cada um tinha uma camareira e um maquiador. Além de comidas a gosto do artista.

 

 

Nos bastidores durante o espetáculo

A maior parte das cenas é composta apenas pelos solistas. Enquanto isso, o componentes do coro e os dançarinos ficam nos camarins e corredores esperando a próxima entrada. Ninguém nas coxias. Lá somente da diretora de palco Malu Gurgel e os assistentes de cenário e palco.

Nos bastidores, enquanto a peça acontece, os artistas conversam, brincam, sorriem, tiram foto e comem. Uns retocam a maquiagem, outros tiram fotos e aproveitam para vestir o próximo figurino. Nada de tensão e estresse.  Segundo Letícia Bertelli tudo acontece de maneira muito bem marcada e ensaiada. Não há como errar.

 

Troca de cenário entre o primeiro e o segundo ato – Foto: Thiago Fonseca.

Troca de cenário

É no intervalo de 15 minutos que rola a troca de cenário. Tudo acontece muito rápido e envolve muita gente. Desce cabo de aço, coloca cadeira, tira parede e assim por diante. Essa foi a hora mais agitada. Um deslize pode atrapalhar toda a apresentação. Intervalo findado, todos novamente no palco.

No foço, tudo seguiu normalmente. O interessante é que os músicos não vêem o que esta acontecendo em cena. Os atores tem por referência o maestro. Ele fica no foço, que esta a baixo do palco, mas em um tablado alto. Os bailarinos da Cia. de Dança participam da ópera trazendo uma proposta coreográfica que mistura a dança flamenca, o ballet clássico e a dança contemporânea. Eles surgem no segundo ato.

Após a aparição no espetáculo, os artistas do coro podem trocar de roupa e sobem para uma participação na coxia, já no fim do espetáculo. Antes mesmo do fim da ópera eles vão embora. Entre uma cena e outra foi possível ver um dos componente técnicos fazendo uma massagem vocal em um dos solistas. No final, todos os solistas se apresentam e recebem os aplausos. Na coxia só restam choros e sorrisos de felicidade.

Preparativos semanas antes

Esta foi a quinta vez que ‘La Traviata’ foi produzida pelo Palácio das Artes. A composição de Verdi deu início à veia operística da instituição, em 1971. Novas versões foram montadas em 1988, 1998 e 2010. A deste ano foi planejada no ano passado. Mas foi somente 26 dias antes de entrar em cartaz que começou ser ensaiada.

Foi Claudia Malta, diretora de produção artística da Fundação, quem escolheu o tema. Depois foi a vez de escolher todo o corpo do espetáculo. Junto com o maestro Silvio Viegas também selecionou os solistas. Nomes de renome nacional e internacional. Após toda a escolha, cada artista recebe o texto e decora. Os primeiros ensaios são em uma sala do Palácio das Artes. No palco eles acontecem somente uma semana e meia antes.

Primeiro ato de ‘La Traviata’ – Foto: Paulo Lacerda / Divulgação.

A ópera

Encenada em dois atos, a montagem transporta o público para uma Paris do século XIX, onde o Demi-Monde, o mundo do meio, entre a alta sociedade e o bas-fonds da pobreza e da prostituição, e a Família, estrutura inabalável em que os valores burgueses e religiosos ditam as regras, servem de cenário para o conturbado romance entre Alfredo (Fernando Portari) e Violetta (Jaquelina Livieri). Com libreto de Francesco Maria Piave, foi baseada em A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas Filho.

A ópera contou com direção musical e regência de Silvio Viegas e concepção e direção cênica de Jorge Takla. Ainda  com a participação da Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais e a Cia. de Dança Palácio das Artes. Protagonizando a história, a soprano argentina Jaquelina Livieri, no papel de Violetta Valéry; e o tenor Fernando Portari, interpretando Alfredo Germont.

No elenco também estavam os solistas Paulo Szot (Giorgio Germont), Juliana Taino (Flora Bervoix), Fabíola Protzner (Annina); Thiago Soares (Gastone), Pedro Vianna (Barão Douphol), Cristiano Rocha (Marquês d’Obigny), Mauro Chantal (Dottore Grenvil) Lucas Damasceno (Giuseppe) e Thiago Roussin (Mordomo de Flora e Mensageiro).

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