Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Mónica Ojeda: entre o real e o horror

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Entrevistamos a autora equatoriana Mónica Ojeda, que já teve dois romances traduzidos para o português pela editora Autêntica

Carolina Cassese | Especial para o Culturadoria

A escritora e poeta equatoriana (radicada em Madri, na Espanha) Mónica Ojeda carrega consigo uma certeza: “A literatura e a arte em geral nos tornam sensíveis”. O motivo, ela explica, a seguir: “Elas nos revivem: restabelecem o olhar, a escuta e o toque nesta terra. Convidam-nos a mudar a gramática do nosso pensamento quando este se tornou obsoleto e violento, insensível e indolente. A arte faz tudo isso e muito mais: lembra-nos que estamos vivos e que a vida não é útil, simplesmente é. E que já existe um valor intrínseco nela”.

Monica Ojeda, que esteve no Brasil ano passado, na Flip (Isabel Wagerman/Penguin/Divulgação)
Monica Ojeda, que esteve no Brasil ano passado, na Flip (Isabel Wagerman/Penguin/Divulgação)

Autora de “Mandíbula” e “Voladoras”, ambos publicados no Brasil pela Editora Autêntica, Mónica Ojeda, apesar de jovem (nasceu em 1988, em Guayaquil), já tem uma trajetória marcada por momentos memoráveis. A começar por ter tido, em 2017, o nome incluído na lista Bogotá39, do Hay Festival of Literature & Arts. No caso, entre os 39 melhores escritores de ficção latino-americanos com menos de 40 anos. Lembrando que, naquele ano, duas brasileiras também compuseram o rol: Natália Borges Polesso e Mariana Torres. O Hay Festival acontece no País de Gales.

Flip

Em 2019, Ojeda recebeu o prêmio Prince Claus Next Generation, na Holanda. Já em 2021, a revista Granta a indicou como uma das melhores autoras hispânicas com menos de 35 anos. No ano passado, foi uma das atrações internacional da Festa Literária de Paraty, realizada em novembro. Recentemente, publicou “Chamanes eléctricos en la fiesta del sol”, ainda sem previsão de chegar ao Brasil.

Voladoras

“Voladoras” foi o mais recente título dela que chegou às prateleiras daqui, do país. Trata-se de uma publicação que abarca oito contos, curtos. Na apresentação da obra, na orelha da edição da Autêntica, explicita-se que as histórias partem da geografia avassaladora dos Andes equatorianos. “(Ojeda) Aborda, impiedosamente, questões que passam pelas relações de amizade, de vizinhança e familiares em geral”, diz o texto. No caso, atravessadas por elementos como a sexualidade, a violência, a dor, a vida e a morte.

Acima, Mónica Ojeda na Festa Literária de Paraty, no ano passado (FLIP/Divulgação)

Voladoras, vale pontuar, são seres sobrenaturais do imaginário andino. Têm apenas um olho, como os ciclopes. Não só. Possuem cabelos negros e vivem nas montanhas. Não espere, do conto homônimo, que abre o livro, uma leitura fácil, porque este não é o caminho escolhido por Ojeda, que conversou com a jornalista Carolina Cassese (Especial para o Culturadoria). Confira, a seguir, trechos da entrevista

O fantástico

Sabemos que na América Latina existe uma forte tradição de literatura e narrativas fantásticas que trabalham com elementos sobrenaturais. Algum autor latino-americano em particular (ou autora) serve de inspiração para o seu trabalho?

Mónica Ojeda. São muitos, muitos autores que trabalharam nessas arestas e que de alguma forma são referências inegáveis para mim. Citaria, por exemplo, Felisberto Hernández (Uruguai, 1902 – 1964), Macedonio Fernández (Argentina, 1874 – 1952) , Marosa di Giorgio (Uruguai, 1932 – 2004), Horacio Quiroga (Uruguai, 1878 – 1937), Elena Garro (México, 1916 – 1998) e Roque Larraquy (Argentino, hoje com 49 anos), entre outros.

Território emocional

Numa entrevista ao periódico “El País”, você pontuou que a geografia determina a forma de contar o mundo. Sendo assim, como o fato de ter nascido no Equador, e vivido a maior parte de sua vida lá, influencia a sua maneira de contar histórias?

Ojeda. Na escrita, o território emocional é importante. Não só o geográfico, mas o mental. A escrita é um corpo territorial e com as palavras fazemos território. Todo mundo tem determinados espaços por onde transita sua escrita, um dos meus é o Equador. Não no sentido mimético ou costumeiro, mas em termos de poder evocativo, símbolo e ferida original. Como diz (a escritora, performer e atriz uruguaia) Marosa di Giorgio (falecida em 2004): “O jardim nativo está pegando fogo”. Ou seja, o jardim nativo está sempre queimando, mas esse fogo nos chama.

Inspiração

A história “Cabeça voadora” é sobre uma mulher que foi violentamente assassinada por um membro da própria família. Em determinado trecho, o narrador ainda menciona os feminicídios que ocorrem nas classes média e alta. Li que teve a ideia dessa história quando abriu um portal e se deparou com uma notícia afim. Você poderia me contar mais sobre seu processo criativo?

Sim, na verdade, ali, eu estava pesquisando sobre as bruxas andinas chamadas “Umas”, que conseguem separar a cabeça do corpo à vontade. Assim, à noite, são cabeças que voam pelas florestas e pelas montanhas falando a língua dos animais. Neste dia, em outra aba, me deparei com a reportagem sobre um feminicídio no qual a vítima havia justamente sido decapitada. Aquela tensão entre a imaginação de uma bruxa capaz de separar a cabeça do corpo e a violência de um assassinato no qual alguém cortou a cabeça de uma mulher me fez pensar muito. Por exemplo, em como em nossas histórias às vezes procuramos uma maneira de conseguir algum tipo de poder sobre o terror. É um ato de rebelião diante do medo e da dor, diante do desamparo.

Serviço

Livro “Voladoras” – Mónica Ojeda
Publicado no Brasil pela Editora Autêntica, 136 páginas, R$ 69,80 (preço máximo, podendo ser encontrado em promoções a valores menores)

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