Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“O Último Ônibus” ressalta o talento de Timothy Spall

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Filme, que estreou dia 1º, evidencia o carisma do britânico Timothy Spall, conhecido pelo público da saga Harry Potter
Patrícia Cassese | Editora Assistente

Na chamada vida real, o ator Timothy Spall tem 66 anos, mas por meio do personagem que interpreta no filme “O Último Ônibus” (“The Last Bus”), de Gillies MacKinnon, em cartaz na cidade, o britânico já de pronto dá uma prova cabal de sua versatilidade e talento. Isso porque, na tela, seu personagem, Tom, já teria passado dos 90 anos – cálculo feito a partir de acontecimentos citados na trama, como o de ter presenciado a Segunda Guerra Mundial (entre outros).

No geral, o filme entrou em cartaz na última quinta-feira, dia 1º, com bons chamarizes, além da já citada presença de Timothy Spall: tanto que, de acordo com a assessoria de comunicação da Pandora Filmes, neste fim de semana de estreia, “O Último Ônibus” ocupou o segundo lugar na média de público por sala.

O ator britânico Timothy Spall em cena do filme "O Último Ônibus", em cartaz em BH (Pandora Filmes/Divulgação)
O ator britânico Timothy Spall em cena do filme "O Último Ônibus", em cartaz em BH (Pandora Filmes/Divulgação)

E isso mesmo enfrentando a concorrência de blockbusters como “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”. A produção do Reino Unido superou, assim, outras estreias da mesma data, como o terror “Boogeyman: Seu Medo é Real”.

“O Rabicho”, de Harry Potter

Timothy Spall, frise-se, é um rosto conhecido do público cinéfilo brasileiro, e não só por ter participado da saga Harry Potter, onde deu vida ao “Rabicho”.

Na saga Harry Potter, Timothy Spall deu vida a Rabicho (Warner/Divulgação)

Também apareceu em filmes que fizeram sucesso por aqui, como “Encantada” (2007), da Disney. Nele, seu personagem atazanava a vida de Gíselle (Amy Adams), que, por sua vez, saia do mundo encantado para aterrissar na Nova York dos dias atuais.

Em “Encantada”, atormentando a vida de Gíselle (Amy Adams) – Foto: Disney/Divulgação

Bem, mas o assunto, aqui, é “O Último Ônibus”. O filme é um drama sobre um homem (Tom, o personagem de Timothy) que, ao perder subitamente a mulher com a qual compartilhou a vida, resolve empreender uma viagem para um lugar a quase 1.300 quilômetros de distância de sua casa para realizar o que considera ser uma obrigação para com a esposa.

O personagem de Timothy, com a inseparável maleta em mãos, e, no caso, um curativo na testa (Pandora/Divulgação)

Para tal, ele não leva sequer uma mala de roupas consigo – apenas uma valise de mão e, no bolso das calças, na carteira, o seu passe de idoso.

Road movie

É muito difícil adentrar mais na trama sem dar spoiler, o que certamente minaria a surpresa de quem ainda vai assistir. No entanto, é possível dizer que, neste road movie, Tom vai encontrar toda a sorte de dificuldade. São obstáculos que, verdade seja dita, poderiam estar no caminho de qualquer pessoa que se atrevesse a percorrer tal distância de ônibus, mas que, no caso de um nonagenário, ganham outra dimensão.

Nesta jornada, tudo pode acontecer ao personagem Tom (Timothy Spall) – Foto Pandora/Divulgação

Obviamente, o preconceito aos idosos é um deles. Para alguns que cruzam o caminho de Tom, ele é praticamente transparente, invisível. Assim, quando se interpõe em alguma situação, mesmo que no afã de ajudar, é desdenhado, como se uma pessoa de sua idade já não pudesse atuar em mais nada que pudesse fazer diferença. Já outras pessoas têm sua atenção atraída justamente pelo fator velhice, reforçado pela estupefação por Tom estar viajando – afinal, no geral, certamente pensam esses, um homem de tal idade deveria estar recluso em casa, tomando uma sopa quente, e aquecendo o corpo com uma manta, sentado na poltrona.

Palavra empenhada

Claro, há os que querem ajudar. E há aqueles que, diante da fragilidade que exala da figura de um homem idoso, que mal consegue se equilibrar, vêm, ali, a oportunidade perfeita para colocar para fora toda a agressividade represada. Sem dó nem piedade. No caso, o trajeto se dá da Escócia à Inglaterra, mas o cerne das dificuldades por Tom encontradas poderia seguramente se localizar em qualquer lugar do mundo.

Timothy Spall com a atriz Phyllis Logan, a quem voltou a reencontrar num set (Pandora Filmes)

Talvez, para os mais jovens que porventura tenham o interesse de assistir a “O Último Ônibus”, a figura de Tom possa soar como a de um tolo. Na verdade, mesmo para os que estão numa faixa etária intermediária, também. Afinal, por que se arriscar tanto, em um mundo tão hostil? Não bastasse, com a saúde assim, tão fragilizada?

Mas enquanto uma pessoa que nasceu entre os anos 1920/1930, Tom se norteia por outros códigos, outros princípios. A palavra empenhada, mesmo que seja consigo, tem valor de ouro.

Ciclo da vida

Nesta derradeira jornada – quando, por ironia, por meio das redes sociais, acaba se tornando uma lenda, na contramão da discrição que tanto aprecia -, Tom direciona o seu olhar para o novo com serenidade, cônscio de que o ciclo da vida é este mesmo. Assim, à jovem que pretende ser bem sucedida no canto, ao menino que lhe fez caretas no ônibus ou à criança que acolhe com entusiasmo o singelo sapinho que ele fez de papel, Tom dedica seu olhar plácido, terno, conformado e afetuoso.

Na foto, os atores Natalie Mitson e Ben Ewing, que interpreta o casal quando jovem (Pandora Filmes)

Seu tempo está se esvaindo, ele bem sabe. E sua pressa se concentra em outro ponto. Logo, ele cruzará a esquina e desaparecerá do campo de visão de todos, enquanto, na calçada oposta, um jovem casal estará indo na direção contrária, dando início à sua jornada com as mesmas expectativas e anseios de um Tom de 70 anos atrás.

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