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Filme “O Lodo”, de Helvécio Ratton, estreia no circuito comercial brasileiro

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O longa-metragem “O Lodo” adapta o conto homônimo de Murilo Rubião e tem elenco encabeçado por Eduardo Moreira

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Depois de ter sido exibido na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes e na  44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2020, “O Lodo” (94 min.), mais recente longa-metragem do cineasta mineiro Helvécio Ratton, entrou em cartaz nos cinemas de todo o Brasil.

Eduardo Moreira e Inês Peixoto em cena de "O Lodo" (foto Bianca Aun)
Eduardo Moreira e Inês Peixoto em cena de "O Lodo" (foto Bianca Aun)

Concluído em 2019, o filme adapta o conto “O Lodo”, do escritor Murilo Rubião (1916 – 1991), com um elenco formado por atores mineiros (ou radicados em Minas), em particular, integrantes do Grupo Galpão.

Ao Culturadoria, Ratton conta que sempre foi fã de carteirinha “das histórias absurdas do autor”. “Anos atrás, quando comecei a estudar a obra dele mais a fundo, foi que descobri este conto, que não é dos mais conhecidos do mineiro”, conta o cineasta.

“Este psiquiatra, Dr. Pink, quer investigar o passado dele. Só que Manfredo tem algo em sua história que não deseja revelar, e abandona o tratamento. O Dr. Pink passa, então, a persegui-lo”.

Ratton enfatiza que “O Lodo” conta a história de um homem comum, Manfredo, funcionário de uma companhia de seguros, que, num certo momento da vida, se sente deprimido e procura um psiquiatra para buscar ajuda.

Até mesmo em pesadelos terríveis, o passado retorna. “E a vida deste homem vira um verdadeiro inferno”, relata o cineasta mineiro.

“O Lodo’ é uma história muito original e surpreendente, com um tom, assim, de suspense. De terror também. E um humor muito especial, que atravessa o conto inteiro, e isso me atraiu muito”, situa Ratton.
Manfredo é interpretado por Eduardo Moreira, enquanto Dr. Pink, por Renato Parara.

Roteiro a quatro mãos

Helvécio Ratton conta que o que mais o fisgou no conto “O Lodo” foi a naturalização com que o escritor coloca o absurdo na vida dos personagens. “Fiquei encantado e percebi que poderia render uma boa adaptação para o cinema”.

Fato: “O Lodo” é um conto pequeno. “Ao mesmo tempo, de muitas camadas, que possibilita várias leituras diferentes”. Decidido a fazer a transposição, Ratton convidou L. G. Bayão. “O Luiz é um roteirista que gosto muito, com quem já fiz ótimas parcerias. E também fã do Rubião”.

Neste roteiro escrito a quatro mãos, a trama foi desdobrada. “Fomos desenvolvendo alguns personagens, criando outros… Porque o conto ‘O Lodo’ permitia isso. Ele é muito condensado, muito denso, e a gente foi espichando  onde podia, puxando as pontas que a narrativa sugere. Acho que chegamos a um roteiro muito bem construído”.

Trabalho intenso antes das filmagens

Esta foi a primeira vez que Ratton trabalhou em um filme contando com um elenco formado apenas com atores de Minas (ou radicados aqui). “Ótimos atores, vários deles do Galpão. E o fato de serem daqui me permitiu fazer um trabalho intenso, antes das filmagens, para a gente encontrar o tom certo de interpretação desta história que é absurda e realista ao mesmo tempo”.

Também contou pontos o fato de muitos desses atores já terem uma afinidade estabelecida entre si, fora o fato de muitos deles já terem trabalhado com Ratton em outras produções. “Ao fim, acho que a gente atingiu um nível muito elevado de interpretação no filme”.

Para o cineasta, o elenco todo de “O Lodo” está muito bem. “Mas queria destacar o trabalho do Eduardo Moreira como protagonista. Ele passa por uma transformação mental e física ao longo do filme impressionante. Eduardo está impecável”.

Ratton também destaca o trabalho de Renato Parara (“constrói um Dr. Pink maravilhoso, um personagem muito original”) e Inês Peixoto (“que vive a irmã do protagonista, que chega no meio do filme e muda completamente o rumo da história”).

“Mas, como disse, todos os atores estão muito bem, compondo tipos riquíssimos, muito interessantes,  que dão a maior consistência para ‘O Lodo'”, conclui.

Escultura no teto do consultório

E quais seriam as cenas preferidas de Ratton? “No geral, acho que as cenas de ‘O Lodo’ estão muito bem realizadas. Mas gosto particularmente da passada no consultório do Dr. Pink, quando o protagonista vai consultar”, define.

O diretor lembra que trata-se de um consultório muito bem decorado. “E que tem, no teto, uma escultura muito interessante. Muita gente acha que parece uma orelha, um ouvido, outros já veem um labirinto. E agora já tem críticas falando que parece uma vagina. O fato é que a estrutura parece sugar o paciente para dentro dela”.

Aliás, Ratton diz ser esta a cena matriz do filme. “Outra que gosto muito é da chegada da irmã do protagonista na casa dele, junto a um menino muito estranho. É uma sequência que está debaixo de uma luz que pisca, uma luz barulhenta, que parece que vai queimar no corredor do prédio dele. Então, esse personagem chega assombrando o Manfredo, com esse garoto estranho. É uma cena muito forte, fortíssima, e que coloca mais mistério na história”.

Metáfora do lodo

Por fim, Helvécio Ratton diz ser difícil definir com precisão o gênero a que “O Lodo” se filia. “Ao mesmo tempo que é um thriller psicológico com toques de terror, também tem um humor muito especial, muito interessante, que atravessa o filme inteiro”.

No frigir dos ovos, Ratton aponta que “O Lodo” aborda temas extremamente contemporâneos. “Fala da saúde mental da gente através da psicologia deste homem comum, que, de repente, sente que o passado retorna virando a vida de pernas pra ar”.

Um filme que se remete às coisas que vão se acumulando em nós. “Daí a metáfora do ‘Lodo’. O psiquiatra fala com o protagonista que ele carrega um verdadeiro lodaçal dentro de si, e isso diz respeito a todos esses fatos, vivências, que a gente vai acumulando internamente, muitas vezes tentando soterrar”.

O problema é que, um dia, elas emergem. “E por algum lugar têm que sair. Sendo assim, o melhor é que sejam trabalhadas de alguma forma, não é mesmo? Então, é um filme que, acho, diverte e, ao mesmo tempo, faz pensar. Que  envolve o espectador do início ao fim em um clima muito surpreendente e original”.

No elenco de “O Lodo”, além dos atores já citados, estão Teuda Bara, Rodolfo Vaz e Fernanda Vianna. O filme apresenta Maria Clara Strambi e Cláudio Márcio. A música é de Paulo Santos. 

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