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Perda de gato leva escritora norte-americana Mary Gaitskill a refletir sobre a própria história

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“O gato perdido” caminha entre o livro de memória e o ensaio, abordando questões com o luto, a perda e as relações interpessoais

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

“No ano passado, perdi meu gato. Gattino era muito novo, apenas um adolescente de sete meses. Provavelmente está morto, mas não tenho certeza”. É assim que a romancista norte-americana Mary Gaitskill inicia o relato de “O gato perdido”, trabalho que caminha entre um breve livro de memórias e um ensaio acerca de temas como a perda, o luto e os relacionamentos interpessoais. Publicado originalmente na revista Granta, em 2009, o texto ganha edição em português pela Todavia Livros, com tradução de Izalco Sardenberg.

Mary Gatskill olha para trás, em direção á câmera. Ela é branca, de cabelos grisalhos. Usa blusa preta e tem expressão séria.
Mary Gaitskill. Foto Tabitha Soren

Gattino foi resgatado por Mary Gaitskill na Itália, na Toscana, durante uma viagem. Foi quase uma armadilha, para que ela visitasse um grupo de gatos esquálidos semi selvagens, alimentados por duas senhoras. Entre os animais, um se destacou. Era menor, com os ossos mais a mostra que os outros. Um gato malhado cego de um olho. Ao encontrá-lo, ela observa: “ele exibia um olhar delicado e quase humano, de uma dignidade confusa refletida em seu olho funcional”.

Os dias de internação e o longo processo de recuperação resultaram na criação de laços com o bichano, que, ao fim da viagem, parte da Itália para os Estados Unidos, na companhia da escritora e do companheiro. “Falei com meu marido sobre a possibilidade de levar Gattino para nossa casa. Disse que tinha me apaixonado pelo gato e que temia que a exposição ao amor humano tivesse despertado nele uma necessidade que não era natural.”

Mergulho no próprio passado

O sumiço do gato é a ponte para que Mary Gaitskill mergulhe no próprio passado e intimidade, analisando outras relações de encontro e perda em sua história pessoal. Como a relação da autora com duas crianças, os irmãos Caesar e Natalia. Ela conhece primeiramente o garoto, integrando um projeto social que selecionava crianças de áreas urbanas vulneráveis – quase todas negras ou hispânicas – para passar temporadas com famílias americanas – quase todas brancas. “A entidade tem uma aura edificante de esperança, mas seu projeto é difícil e, francamente, exala sofrimento”. Gaitskill revela os percalços no relacionamento e nos laços criados com os jovens ao longo dos anos.

De uma sinceridade, por vezes, brutal, temas como empatia, racismo e maternidade – tanto a maternidade não-alcançada por ela, quanto o frágil ambiente familiar do casal de irmãos na relação com a mãe biológica – borbulham nas reflexões da escritora. “Naquele momento não entendi, mas chorava, entre outras coisas, por causa das crianças que uma vez imaginei que me pertenciam”.

Capa do livro “O gato perdido”. Editora Todavia

Relação paterna

Outro ponto delicado que Gaitskill analisa no texto é a relação com seu próprio pai. Um relacionamento permeado por ranhuras, ausências e mágoas. “Se tivesse telefonado, teria descoberto no mesmo instante que ele estava morrendo. Mas não telefonei. Ele era difícil e nenhuma das filhas ligava para ele com frequência”. O pai, órfão aos dez anos de idade, viu o trauma da perda refletir na construção de sua própria família no futuro. “A perda simbólica dos ‘meus’ filhos e a perda do meu gato eram menores quando comparadas às perdas sofridas por meu pai. (…) Mas a maior verdade era a seguinte: ele era forte, muito mais forte do que sou. Se eu tivesse a experiência que ele teve aos dez anos, teria desmoronado muitas vezes”. Gaitskill propõe, assim, um bonito e sincero apaziguamento com a memória do falecido pai. Um gesto de perdoar e entender as fraquezas do outro.

O universal no íntimo

“O gato perdido” é um daqueles casos de obras que trazem muito mais do que suas breves páginas parecem comportar. Em pouco mais de 70 páginas, Mary Gaitskill parte da perda do seu bichano, para observar como esse sentimento se relaciona com diferentes acontecimentos em sua vida pessoal. É um gesto sempre corajoso, esse olhar para si e expor ao leitor a própria intimidade. Nesse ato, percebemos o quanto há de universal no que é íntimo, o quanto podemos nos identificar com as experiências pessoais de outrem.

Encontre “O gato perdido” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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