fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

‘O Destino de uma Nação’ e ‘Dunkirk’: os dois lados de uma mesma história

Por Carol Braga

07/02/2018 às 13:59

Publicidade - Portal UAI
Gary Oldman como Winston Churchill. Credit: Jack English / Focus Features

Juro que entrei no cinema para ver O Destino de uma nação pensando se tratar do tipo de produção orquestrada para que um ator demonstre toda sua capacidade. A história britânica é mestre em oferecer esse tipo de personagem. Hellen Mirren e Meryl Streep conquistaram algumas de suas estatuetas com longas desse perfil. Elas interpretaram, respectivamente, a própria rainha da Inglaterra e a ex-primeira ministra Margaret Thatcher.

Em certa medida O Destino de uma Nação é desse tipo. O que Gary Oldman faz no papel de Winston Churchill (1874-1965) é de deixar até o espectador mais distraído de queixo caído. É uma recriação tão impressionantemente perfeita que você sai do cinema e joga o nome do ator no Google Imagens para ver o quão diferente ele está. Chocante.

Mas é preciso reconhecer que o longa dirigido por Joe Wright consegue ir além da performance de Oldman.

 

Crédito: Focus Features

Dois lados da mesma moeda

 

O que mais me chamou atenção é o fato de dois longas que concorrem ao Oscar em 2018 contarem exatamente o mesmo episódio histórico. São pontos de vista diferentes sobre o resgate dos mais de 300 mil soldados britânicos feitos reféns em Dunquerque. A operação, batizada Dynamo, também é tema de outro longa concorrente.

Dunkirk, de Christopher Nolan, narra o fato a partir do ponto de vista de quem estava preso na praia entre os dias 25 de maio e 04 de junho de 1940. Rola uma ostentação cinematográfica na forma como ele registrou o resgate dos combatentes. O filme se divide em três perspectivas diferentes: céu, terra e mar.

Teve gente que reclamou dizendo que a narrativa é lenta. É arrastada mesmo mas acho que faz sentido com aquilo que ele escolheu contar. Acho Dunkirk propositalmente lento afinal de contas diz sobre espera. E mais: um monte de gente que não tem a mais vaga ideia se vai sobreviver.

 

 

Photograph by Warner Bros. Pictures / Everett

 

Político

 

O destino de uma nação podemos chamar de filme de gabinete. Assim como The Post: a Guerra Secreta, outro concorrente ao Oscar 2018, se concentra mais na rotina de quem toma as decisões. No caso, o primeiro ministro britânico da época Winston Churchill.  É um filme político, sobre política.

A figura de Churchill é controversa. Joe Wright consegue colocar isso no longa. Ao mesmo tempo que eu achava ele grosso, sem educação, na cena seguinte já conseguia entender as fraquezas e inseguranças daquele homem. Vale reforçar que o mérito aqui também é da composição de Gary Oldman.

Além da interpretação, O Destino de uma Nação tem outros pontos que merecem destaque. A paleta de cores da fotografia – dark para fazer um trocadilho como nome em inglês Darkest Hour – contribui para o clima tenso da obra. O mundo estava em Guerra, Hitler avançava Europa adentro e na Inglaterra o tom do debate político se mostrava tão pesado quanto o contexto da época. A cor do filme denota isso.

Churchill decidiu enfrentar Hitler, encarar a guerra. Sem spoilers, deixo aqui a informação de que uma das cenas prediletas se passa dentro do metrô de Londres. Guarda essa aí e depois me conta se concorda 😉.

Winston Churchill era um líder com escuta ativa. Essa é uma característica muito importante para pessoas como ele. Quem toma decisões que afetam diretamente a vida de muita gente.

 

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman como Clementine e Winston Churchill em O Destino de uma Nação
Credit: Jack English / Focus Features

Mulheres

Como se trata de um filme imerso em um contexto político de 1940, natural que as representantes do sexo feminino tivessem participação indireta nas decisões. O filme de Joe Wright mostra que não foi bem assim. Tanto a mulher dele, Clemmie (a ótima Kristin Scott Thomas) como a datilógrafa Elizabeth Layton (Lily James) foram decisivas.

Exagero em imagens de cima

É lindo que hoje em dia existam drones, mas não precisa abusar, né Wright! São vaaários planos de cima pra baixo que acrescentam pouco à narrativa. Sempre que vejo uma cena assim, fico refletindo sobre quais os sentidos e mensagens o diretor por ventura queria nos transmitir. Pensei bastante, não encontrei uma justificativa e acabo concluindo que são, portanto, cenas alegóricas. Ostentação técnica desnecessária.

Esse é um erro que Christopher Nolan não comete em Dunkirk. O filme dele foi feito para ser visto no cinema. Não em qualquer um: nas salas IMAX que proporcionam uma experiência mais intensa para o expectador. Ou seja, Dunkirk arrisca no formato e acerta.

O jogo de O destino de uma Nação é outro. Está mais presente nas sutilezas, nos trabalhos de interpretação, por exemplo.

 

 

Continua após a publicidade...

 

Confira outros textos publicados no Culturadoria sobre os filmes do Oscar 2018

‘Três anúncios para um crime’: o violento preço da passionalidade
O que os filmes ‘Lady Bird: A hora de voar’ e ‘Me chame pelo seu nome’ têm em comum?

 

photo

“Ara Pyau – A Primavera Guarani”: A resistência dos povos indígenas brasileiros

Os responsáveis pela construção da nossa civilização concentraram toda sua atenção na organização política e social. Mas se esqueceram de um detalhe importante: os povos que viviam no território anteriormente. Aos olhos dos governantes e líderes burgueses, os indígenas parecem não passar de um inconveniente, uma pedra no caminho para o progresso e o acumulo […]

LEIA MAIS
photo

Confira os vencedores do Globo de Ouro 2018

A noite do Globo de Ouro foi delas. Um protesto generalizado, uma alfinetada daqui, outra ali. Umas valorizando as outras. Os homens também e, inclusive, até mais tímidos, humildes do que no passado. A primeira grade festa da indústria do cinema mostrou que os tempos são de intolerância a abusos de todas as naturezas, luta […]

LEIA MAIS
photo

‘Robin Hood – a origem’: cheio de fórmula e pouco resultado

Por Ana C. A. Souza* O Robin Hood – A origem é uma aventura com cara de novidade. Mas, infelizmente, usa algumas formuletas para alcançar o efeito desejado. No entanto, o objetivo não é alcançado. Ao lado de histórias milenares como Rei Arthur e Peter Pan, o príncipe dos ladrões já esteve diversas vezes nas […]

LEIA MAIS