Gary Oldman como Winston Churchill. Credit: Jack English / Focus Features
07 fev 2018

‘O Destino de uma Nação’ e ‘Dunkirk’: os dois lados de uma mesma história

Juro que entrei no cinema para ver O Destino de uma nação pensando se tratar do tipo de produção orquestrada para que um ator demonstre toda sua capacidade. A história britânica é mestre em oferecer esse tipo de personagem. Hellen Mirren e Meryl Streep conquistaram algumas de suas estatuetas com longas desse perfil. Elas interpretaram, respectivamente, a própria rainha da Inglaterra e a ex-primeira ministra Margaret Thatcher.

Em certa medida O Destino de uma Nação é desse tipo. O que Gary Oldman faz no papel de Winston Churchill (1874-1965) é de deixar até o espectador mais distraído de queixo caído. É uma recriação tão impressionantemente perfeita que você sai do cinema e joga o nome do ator no Google Imagens para ver o quão diferente ele está. Chocante.

Mas é preciso reconhecer que o longa dirigido por Joe Wright consegue ir além da performance de Oldman.

 

Crédito: Focus Features

Dois lados da mesma moeda

 

O que mais me chamou atenção é o fato de dois longas que concorrem ao Oscar em 2018 contarem exatamente o mesmo episódio histórico. São pontos de vista diferentes sobre o resgate dos mais de 300 mil soldados britânicos feitos reféns em Dunquerque. A operação, batizada Dynamo, também é tema de outro longa concorrente.

Dunkirk, de Christopher Nolan, narra o fato a partir do ponto de vista de quem estava preso na praia entre os dias 25 de maio e 04 de junho de 1940. Rola uma ostentação cinematográfica na forma como ele registrou o resgate dos combatentes. O filme se divide em três perspectivas diferentes: céu, terra e mar.

Teve gente que reclamou dizendo que a narrativa é lenta. É arrastada mesmo mas acho que faz sentido com aquilo que ele escolheu contar. Acho Dunkirk propositalmente lento afinal de contas diz sobre espera. E mais: um monte de gente que não tem a mais vaga ideia se vai sobreviver.

 

 

Photograph by Warner Bros. Pictures / Everett

 

Político

 

O destino de uma nação podemos chamar de filme de gabinete. Assim como The Post: a Guerra Secreta, outro concorrente ao Oscar 2018, se concentra mais na rotina de quem toma as decisões. No caso, o primeiro ministro britânico da época Winston Churchill.  É um filme político, sobre política.

A figura de Churchill é controversa. Joe Wright consegue colocar isso no longa. Ao mesmo tempo que eu achava ele grosso, sem educação, na cena seguinte já conseguia entender as fraquezas e inseguranças daquele homem. Vale reforçar que o mérito aqui também é da composição de Gary Oldman.

Além da interpretação, O Destino de uma Nação tem outros pontos que merecem destaque. A paleta de cores da fotografia – dark para fazer um trocadilho como nome em inglês Darkest Hour – contribui para o clima tenso da obra. O mundo estava em Guerra, Hitler avançava Europa adentro e na Inglaterra o tom do debate político se mostrava tão pesado quanto o contexto da época. A cor do filme denota isso.

Churchill decidiu enfrentar Hitler, encarar a guerra. Sem spoilers, deixo aqui a informação de que uma das cenas prediletas se passa dentro do metrô de Londres. Guarda essa aí e depois me conta se concorda 😉.

Winston Churchill era um líder com escuta ativa. Essa é uma característica muito importante para pessoas como ele. Quem toma decisões que afetam diretamente a vida de muita gente.

 

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman como Clementine e Winston Churchill em O Destino de uma Nação
Credit: Jack English / Focus Features

Mulheres

Como se trata de um filme imerso em um contexto político de 1940, natural que as representantes do sexo feminino tivessem participação indireta nas decisões. O filme de Joe Wright mostra que não foi bem assim. Tanto a mulher dele, Clemmie (a ótima Kristin Scott Thomas) como a datilógrafa Elizabeth Layton (Lily James) foram decisivas.

Exagero em imagens de cima

É lindo que hoje em dia existam drones, mas não precisa abusar, né Wright! São vaaários planos de cima pra baixo que acrescentam pouco à narrativa. Sempre que vejo uma cena assim, fico refletindo sobre quais os sentidos e mensagens o diretor por ventura queria nos transmitir. Pensei bastante, não encontrei uma justificativa e acabo concluindo que são, portanto, cenas alegóricas. Ostentação técnica desnecessária.

Esse é um erro que Christopher Nolan não comete em Dunkirk. O filme dele foi feito para ser visto no cinema. Não em qualquer um: nas salas IMAX que proporcionam uma experiência mais intensa para o expectador. Ou seja, Dunkirk arrisca no formato e acerta.

O jogo de O destino de uma Nação é outro. Está mais presente nas sutilezas, nos trabalhos de interpretação, por exemplo.

 

 

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