Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Nelson Freire e Boa Esperança: raiz, afeto, amor e orgulho

Gostou? Compartilhe!

Pianista Nelson Freire morreu aos 77 anos deixando uma história de muito amor e afeto pela cidade de Boa Esperança, no Sul de Minas

Por Carol Braga | Editora

É difícil falar sobre Nelson Freire de um lugar distanciado do afeto. Não que o conhecesse. Tive algumas poucas oportunidades de estar com ele. Sabe aquele cumprimento rápido de camarim pós concerto? Pois é! Em todas as vezes, bastava falar “sou de Boa Esperança” que logo um sorriso doce iluminava o rosto do tímido mineiro reconhecido no mundo inteiro. É essa imagem que se eterniza em minha lembrança.

O pianista Nelson Freire com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Foto: Rafael Motta/Divulgação
O pianista Nelson Freire com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Foto: Bruna Brandão/Divulgação

Não nasci em Boa Esperança, mas toda a família de minha mãe é da cidade. Ou seja, fui criada lá. Também na Praça Coronel Neves, onde Nelson Freire nasceu em 18 de outubro de 1944. Desde a minha infância, ao passar pelo “sobrado dos Freire”, ou em frente à farmácia que sempre foi da família dele, minha saudosa avó Maria Sousa mencionava o grande pianista da cidade. 

Aí começava a listar os fatos da biografia dele. Que ele aprendeu piano aos cinco anos, que era reconhecido como um dos maiores do mundo, que uma tragédia se abateu na família dele com um acidente no viaduto das Almas, na BR-040 e por aí vai. 

Sobre os discos, gravações ou demais feitos no universo erudito ela não dava muita notícia. Mas precisava? Em resumo: ele era um dos maiores pianistas do mundo e isso já era o bastante.

Recíproca

Já mais velha, sempre achei curiosa a imensa relação de afeto, respeito e orgulho que tanto os cidadãos de Boa Esperança sempre tiveram pelo filho ilustre quanto ele também para com a cidade. Nelson saiu de lá aos 5 anos de idade. Foi justamente quando começou a tocar piano e os familiares se deram conta de que para o desenvolvimento do pianista, o melhor seria a mudança para um grande centro. Assim, foram para o Rio de Janeiro e, de lá, a arte dele apareceu para o mundo.

Mas parece que a boa memória de infância em Boa Esperança nunca saiu dele. Sendo assim, fazia visitas frequentes, marcava presença em festas familiares nas fazendas e, vez ou outra, também se apresentava no Radium Clube Dorense. Deste modo, também se apresentou com renda totalmente revertida à instituições de caridade da cidade. Era sempre um acontecimento. 

Em 2015, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais deu um presente gigantesco para Boa Esperança e para Nelson. Realizou um concerto ao ar livre com a presença dele como solista. Visivelmente emocionado, resumiu tudo o que estava sentindo em uma palavra: “Indescritível”.

“A raiz mineira não te solta. Nem que queira. Mas a gente não quer. A alma mineira, como dizia Carlos Drummond de Andrade, é algo para toda vida”

Nelson Freire

Emoções

Foi mesmo difícil descrever. Sobretudo para mim que não sabia se estava mais emocionada por ver Nelson Freire em Boa Esperança ou se, para além disso, pelo fato de vivenciar esse momento acompanhada das minhas avós Souza e Té. Elas estavam tão orgulhosas disso. Guardo esse dia com muito carinho na minha memória. 

O sucesso de Nelson Freire cultivou nos cidadãos de Boa Esperança uma espécie de pertencimento internacional. E isso é muito bonito. 

Nelson Freire morreu exatamente no dia em que minha Vó Sousa faria 92 anos. É um dia emocionante para mim. É um dia triste para o mundo da música. Boa Esperança decretou luto de três dias. Obrigada, Nelson.

Nelson Freire e a Orquestra Filarmônica. Foto: Rafael Motta/Divulgação
Nelson Freire e a Orquestra Filarmônica. Foto: Rafael Motta/Divulgação

Gostou? Compartilhe!

[ COMENTÁRIOS ]

[ NEWSLETTER ]

Fique por dentro de tudo que acontece no cinema, teatro, tv, música e streaming!

[ RECOMENDADOS ]