Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Maria Esther Maciel fala do novo livro, “Essa Coisa Viva”

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Chancelado pela Todavia, o novo livro da mineira Maria Esther Maciel esmiúça a relação de uma botânica com a mãe, já falecida

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Depois do elogiado “Pequena Enciclopédia de Seres Comuns” (2021) e “Animalidades: Zooliteratura e os Limites do Humano” (2023), a ficcionista, poeta, editora e ensaísta mineira Maria Esther Maciel volta às estantes de lançamentos de livros com “Essa Coisa Viva”. No material enviado pela casa editorial que chancela a iniciativa – a Todavia – à imprensa, a narrativa é apresentada como “um romance tocante e poderoso”, no qual a autora parte das “coisas” — plantas, objetos, insetos — para, assim, reconstruir o passado da protagonista.

Maria Esther Maciel, que acaba de lançar o livro "Essa Coisa Viva", pela Todavia (Inês Rabelo/Divulgação)
Maria Esther Maciel, que acaba de lançar o livro "Essa Coisa Viva", pela Todavia (Inês Rabelo/Divulgação)

O texto da Todavia prossegue: “Entre a crônica familiar e a meditação sobre os laços emocionais que muitas vezes são construídos por meio da violência (real ou simbólica), ‘Essa Coisa Viva’ faz o inventário de duas vidas unidas para além das questões emocionais e que são permanentemente assombradas pelos eventos decisivos que as afastariam para sempre”. As duas vidas a que essa apresentação faz menção são a da protagonista, Ana Luiza, uma botânica de renome internacional, e a de Matilde, a mãe dela, cuja morte, situa a narrativa, aconteceu há um ano e meio.

Acerto de contas

Ao Culturadoria, Maria Esther avalia que a obra pode ser vista tanto como um romance de formação quanto como uma espécie de acerto de contas com o passado. “Nesse sentido, alia memória e reconstrução emocional. O enredo se resume nisto: após a morte da mãe, uma botânica profissional e renomada escreve uma longa carta para a falecida, externando tudo o que não pôde lhe dizer em vida. Faz, com isso, uma mistura de trabalho de luto, acerto de contas e superação de traumas”.

A capa do livro, editado pela Todavia (Todavia/Divulgação)
A capa do livro, editado pela Todavia (Todavia/Divulgação)

A estratégia narrativa, prossegue Maria Esther Maciel, foi contar a história da filha e da mãe (com incursões em outras figuras da família), mas sem deixar de se valer das coisas, “no sentido amplo dessa palavra”. Daí os títulos das partes da obra se referirem a “coisas da fazenda”, “coisas do quintal”, “sapatos e sapatilhas”, “dentes e dentaduras”, “bicicleta”, “chás”, “álbum de retratos” etc. “O mundo natural também tem uma presença incisiva no livro, por conta da formação da narradora e, tal qual, da tia/mentora Zenóbia no campo da Botânica. Assim, as plantas, os insetos, os animais domésticos e rurais têm um papel importante na constituição da história”.

Tabu

As personagens do livro, lembra a autora, viveram, em sua maioria, no interior de Minas. “Isso, numa época em que a educação das crianças incluía surras e castigos sem que essas práticas fossem consideradas atos de abuso e violência”, pontua. Nesse sentido, Maria Esther quis retratar essa triste realidade familiar com ênfase nas práticas de violência de mãe contra filha. “Algo que sempre existiu, mas que, acredito, não tenha sido suficientemente tratado na literatura, por ser considerado um tabu”.

Para Maria Esther Maciel, a sociedade sempre idealizou muito a ideia de maternidade. “Como se ela fosse intocável. Na contramão dessa ideia, procurei mostrar, na obra, que existem diferentes mães. Ou seja, as amorosas e as cruéis, as que cuidam dos filhos e as que os negligenciam. São muitos matizes dessa experiência da maternidade”.

No radar

Maria Esther Maciel também conta que a história sempre esteve no seu radar. Isso, por conta de casos que presenciou ou de relatos que ouviu em tempos remotos. “Na verdade, ela já tinha se insinuado, por vias mais oblíquas, em dois dos meus livros anteriores. No caso, ‘O Livro de Zenóbia’ (2004) e ‘O Livro dos Nomes’ (2008). Assim, minha ideia era compor o romance entre 2011 e 2012. Entretanto, em decorrência de alguns inesperados reveses de ordem médica e familiar, acabei por adiar o projeto por tempo indeterminado”, situa.

Assim, só durante a pandemia – precisamente quando ela diz ter saído de um entorpecimento criativo “e voltei a escrever textos de poesia e ficção” -, a mineira conseguiu efetivamente se dedicar ao livro e, daí, concluí-lo. “Dessa forma, ele acabou por ganhar uma nova configuração”, admite Maria Esther Maciel. Ou seja, de acordo com a autora, desviou-se radicalmente do que ela tinha imaginado anos antes. “Acho que os dias de isolamento foram fundamentais para que ele finalmente se tornasse possível”.

Feição de carta

A escritora também comenta que, lá atrás, quando a história começou a se delinear na mente dela, a obra levaria o nome de “O Livro das Coisas”. À época, contaria a história de uma personagem de “O Livro dos Nomes”, a partir de um inventário de coisas que fizeram parte da vida dela. “Nesse sentido, ele teria uma estrutura semelhante ao do livro anterior. Mas, ao retomá-lo, descartei praticamente tudo o que tinha esboçado e, assim, comecei do zero”. O processo de escrita durou oito meses. Desse modo, em vez de um romance mais experimental, o livro se tornou uma narrativa contínua, com idas e vindas temporais, assumindo uma feição de carta. “O tema tornou-se mais explícito, o enredo ficou mais espinhoso”.

A autora mineira admite: não foi fácil enfrentar a empreitada. “Conheci algumas histórias terríveis sobre mães e filhas, e sempre quis trazê-las para a ficção, mesmo sabendo que a dessacralização da ideia de maternidade é algo complexo e pouco aceito em nossa sociedade. Digo que minha maior dificuldade foi conferir, ao enredo, um caráter paradoxal e, assim, criar personagens com sentimentos ambíguos e contraditórios”, conclui

Serviço

“Essa Coisa Viva” – Maria Esther Maciel

Editora Todavia, 128 páginas, R$ 59,90 (livro físico) ou R$ 39,90 (ebook)

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