Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Marcos Veras traz “Vocês Foram Maravilhosos” a BH

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O ator Marcos Veras se apresenta neste final de semana na capital mineira, no palco do Grande Teatro do Sesc Palladium

Quando estreou “Falando a Veras”, há nada menos que 11 anos, o ator, humorista, apresentador e roteirista Marcos Veras, 43. não imaginava que a iniciativa seria um ponto de virada em sua carreira. “‘Falando a Veras’ praticamente mudou a minha vida, me apresentou para o mercado de uma forma muito potente”, conta ele, ao Culturadoria. Mesmo com o êxito, Veras já há algum tempo entendia que era preciso montar um novo espetáculo. O desejo se concretizou no início deste ano, com a estreia de “Vocês Foram Maravilhosos”, no Rio.

“Fizemos uma temporada curta, de dez apresentações, no Teatro XP, mas que foi excelente. Um ótimo start para o espetáculo”, brinda Veras, que neste final de semana chega à capital mineira, dentro do projeto Teatro em Movimento, para mostrar a performance – precisamente, neste sábado e domingo, dias 3 e 4 de junho, no palco do Sesc Palladium.

Marcos Veras, que chega a BH neste final de semana (foto Marcio Farias/Divulgação)
Marcos Veras, que chega a BH neste final de semana (foto Marcio Farias/Divulgação)

De pronto, Marcos Veras diz que “Vocês Foram Maravilhosos” é uma montagem que fala na perspectiva da primeira pessoa. “Então, de certa forma, é um espetáculo muito corajoso, já que, nele, abro a minha vida. Aliás, muita gente que vai assistir fala isso: ‘Caramba, cara! Que coragem’. Assim, chamo de uma terapia. Uma terapia coletiva mesmo, que acontece no palco”, confidencia.

Terapia coletiva

Ao fazer uso da expressão “terapia coletiva”, Marcos Veras acaba citando o que sempre foi uma diretriz para ele: que o novo espetáculo solo se comunicasse diretamente com a plateia. “Na verdade, inicialmente, o que me motivou foi o fato de ter acabado a pandemia (no dia 5 de maio, a Organização Mundial da Saúde anunciou a alteração no status da Covid-19, que deixou de ser classificada como emergência de saúde pública de interesse internacional). No meu entendimento, havia uma demanda reprimida de risos, de humor, de leveza. Assim, pensei em montar um espetáculo leve, no qual as pessoas pudessem sair do teatro mais otimistas”.

Mesmo porque, ressalta ele, “de tragédia, de más notícias, o mundo está cheio”. “Desta forma, o espetáculo é quase uma válvula de escape. Veja, eu falo de vida real, falo de coisas reais, falo do cotidiano. Porém, tudo de uma forma muito leve, para que a plateia saia dali e ache que a vida vale a pena, que é boa”.

Veras acrescenta que também sempre teve vontade de falar um pouco da família. “A minha família é muito engraçada. E ela é muito grande. Minha família é do Ceará. E família é um assunto que gera uma identificação imediata, porque todos nós temos as nossas: pequenas, grandes, sérias, engraçadas, problemáticas. Família é um assunto que comunica muito bem. Talvez tenha sido o ponto principal da minha motivação”, analisa o ator.

Perdas

Ao falar de família, Marcos Veras acaba abrindo, em “Vocês Foram Maravilhosos”, espaço para falar de duas perdas que impactaram enormemente sua vida: a da irmã, Jaqueline, de 33, vítima de aneurisma, e a do pai, José Arteiro, aos 58 anos. “Na verdade, sempre tive vontade de transformar essa dor em arte. Agora, esses acontecimentos já têm 13, 14 anos, então, hoje, consigo falar deles de uma maneira mais tranquila”.

Sim, a saudade ainda fala forte. “A dor, as lembranças… Mas, como falei, sempre tive vontade de falar sobre isso. Não sabia se em um livro ou se um espetáculo que não fosse de humor”. No entanto, conforme Marcos Veras foi escrevendo a peça, veio a compreensão que os dois acontecimentos se encaixavam ali.

“Assim, quis trazer à tona esses dois acontecimentos que poucas pessoas sabem, essas perdas, e tratá-las com naturalidade. Deste modo, a peça não vira um drama em determinado momento. Ao contrário. Claro, há uma reação da plateia, como a dizer: ‘Caramba, ele agora está contando algo muito sério da vida dele'”.

Mas Veras garante que até neste momento, o humor (dentro do possível) é mantido. “Certo, as pessoas, além de rir, também se emocionam. E a cada dia, penso que falar deles, ali, é uma grande homenagem. Uma catarse. Uma análise, uma terapia. Me faz muito bem e o que venho sentindo do público é que faz muito bem às pessoas também”.

No palco, no divã

No entanto, o momento que ele elegeu como o que mais “curte” do espetáculo é aquele no qual convoca alguém da plateia para uma terapia. “Porque é o momento mais vivo. Um momento no qual tudo pode acontecer – e tudo acontece. E vem acontecendo coisas lindas, engraçadas, emocionantes”, deleita-se.

Que fique claro: ninguém sobe ao palco obrigado. “Em dado momento, eu pergunto: ‘Alguém se habilita a subir ao palco para uma rápida conversa comigo?’. As pessoas levantam a mão e, aí, eu escolho”, relata. Outro ponto importante: “Eu não escolho ninguém por cor, peso, idade”, afiança Veras.

Sobre sua relação com o público, ele diz: “Veja, eu sempre trato a plateia como minha parceira. Eu nunca a colocaria no lugar do constrangimento, do bullying, para fazer o humor. Porque o microfone é muito poderoso. E qualquer coisa que eu diga, a plateia vai ficar do meu lado (por ser o protagonista). Assim, não gosto de usar o outro para fazer humor”.

Fator surpresa

Neste momento, diz Veras, é como se ele deixasse o protagonismo da peça e a pessoa que subiu ao palco o assumisse. “Então, é ela que fala, é ela que se abre. Claro, estou ali para provocar, para ajudar”. Um fato curioso é que o ator garante que, não raro, acontece de as pessoas deitarem no divã, olharem para cima e… entrarem em outro universo.

“E isso mesmo que tenham 400, 500 pessoas assistindo. Então, as pessoas falam, por exemplo, das suas perdas: de pai, de mãe, de irmã. Dos relacionamentos que terminaram. Da relação com a mãe, que não é boa. Ou com o ex. E também do emprego, ou do desemprego”.

Medo de Natalie Portman

No processo, ele também faz algumas perguntas. “Essas, talvez sejam as mesmas a cada sessão. Nem sempre, mas a maioria. Mas as respostas são sempre diferentes, porque as pessoas são diferentes. Então vem acontecendo coisas lindas”, sustenta Marcos Veras.

“Faço perguntas como: você sempre quis fazer isso da vida? Ou já quis fazer outra coisa, mas a vida não te proporcionou? Então, neste processo, a pessoa vai falando também de suas frustrações, de seus medos. Porque a verdade é que todos nós temos um medo. E falamos de sonhos: todos nós temos um também. Exemplo: onde ela se imagina daqui a dez anos”.

Evidentemente, o próprio Marcos se surpreende com as respostas. Certa vez, ao pergunta o maior sonho a um voluntário, a resposta que ouviu foi: “Trabalhar no ar condicionado”. Já houve um que confessou ter medo da atriz Natalie Portman. “Tem de um tudo, então, a plateia ri e a plateia se emociona. É um momento que dura seis, sete minutos no máximo, mas que é muito rico e muito bonito”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista

O poder do humor

Marcos Veras pondera: “O humor é muito poderoso. O humor gera reflexão, gera riso. O humor incomoda, o humor acomoda”. Perguntado sobre os limites do humor, diante de uma discussão recente, ele não se furta a opinar. “Então, eu acho ruim quando a gente trata o amor como despretensioso. Como se eu pudesse falar: ‘Ah, gente, é só humor’. Não, a piada é muito poderosa”.

“Humor de ofensa”

Dentro deste raciocínio, ele diz que uma torta na cara, por exemplo, é uma coisa. “Já uma piada sobre pedofilia é algo de um péssimo gosto”. Marcos Veras enfatiza ser uma característica sua (“mas aí eu falo muito de um lugar individual”) a de nunca, em momento algum da carreira, ter escolhido o que chama de “humor da ofensa”. “Um humor que considero de mau gosto. Mas é uma avaliação minha e, claro, os comediantes são plurais”.

“Agora, quando você faz uma piada sobre racismo, ela já se define como crime. Então, não tem a ver com mudar o controle remoto, trocar de canal. Porque há aquele caso de ‘não vou ao show de determinado comediante porque não gosto daquele conteúdo’. Isso acontece, ok, no caso de piadas mais pesadas, mais ácidas”, explana Veras.

Limites

No entanto, prossegue ele, há limites. “Quando você resvala num lugar onde ainda se temos casos de pessoas escravizadas… Eu acho grave, acho ruim. Assim, tratar sempre, ou às vezes, essa situação como ‘ah, gente, não leva tão a sério’. Acho que o humor tem que ser levado a sério e, reitero, ele é muito poderoso”.

Ócio criativo

Marcos Veras diz que o embrião de “Vocês Foram Maravilhosos” começou no período da quarentena. “Quando pude ficar mais em casa. Tive o privilégio de poder ficar em casa, acompanhar a gestação da minha esposa (a atriz Rosanne Mulholland, com que tem Davi). Então, aquele velho conhecido, o ócio criativo, fui usando a meu favor, a favor do humor, do espetáculo, da arte”.

Assim, Veras conta que foi escrevendo aos poucos – e bem pouco. “Procrastinando bastante, deixando para amanhã. Mesmo porque, eu achava que a pandemia ia durar pouco. Que logo as coisas iam voltar ao normal”.

Conforme o tempo foi passando, Marcos se deu conta que o novo coronavírus ia ficar um bom tempo entre a humanidade. Desta forma, passou a elaborar mais o texto. “Então, poderia chutar entre um ano, um ano e meio de processo de amadurecimento de escrita”, situa. E aí, uma vez decidido a estrear o que havia escrito no teatro, precisou de apenas um mês de ensaio. “Porque, como era um texto meu, tinha um certo domínio”.

Projetos

Atualmente, Marcos Veras está no ar na novela “Vai na Fé”, da Globo, interpretando o dono de bar Simas.

Marcos Veras, em cena da novela “Vai na Fé”, na qual interpreta Simas (Globo/Divulgação)

O ator revela, ainda, que, neste momento, está em processo de ensaios para “Alguma Coisa Podre”. Na peça, ele interpreta Nick do Rêgo Soutto, personagem que está passando por um bloqueio criativo no exato momento em que ele, junto ao irmão, Nigel, se vê às voltas com o desafio de criar uma dramaturgia com potencial para rivalizar com o bardo William Shakespeare (vivido por George Sauma).

De azul, em foto de divulgação de “Alguma Coisa Podre”, que estreia em breve (Caio Gallucci/Divulgação)

Trata-se da versão brasileira da comédia da Broadway “Something Rotten!”, e que estreia agora em junho, no Teatro Porto, em São Paulo. A peça original tem dramaturgia de Karey Kirkpatrick e John O’Farrell, com músicas de Karey e Wayne Korkpatrick. O espetáculo estreou na Broadway em 2015 e, desde então, já recebeu mais de 10 indicações ao Tony Awards, considerado o Oscar do teatro norte-americano. O elenco traz, ainda, Laila Garin, Leo Bahia e Wendell Bendelack.

Serviço

“Vocês Foram Maravilhosos” com Marcos Veras

Direção de Leandro Muniz. Produção da Bem Legal Produções, dentro do Projeto Teatro em Movimento.

No Grande Teatro Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1046, Centro)

Neste sábado, dia 3 de junho, às 21h, e no domingo, 4, às 19h.

Ingressos: Plateia 1- R$90 (inteira) e R$45 (meia)/ Plateia 2 – R$70 (inteira) e R$35 (meia), à venda no Sympla ou na bilheteria do Teatro.

Duração: 90 minutos

Classificação indicativa: 12 anos

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