28 jan 2018

Depois de encantar Tiradentes, cineasta de Cordisburgo competirá em Berlim

Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, é famosa por ser a cidade natal de Guimarães Rosa. Falecido em 1967, o autor deixara um legado que talvez seja grande até demais. Até hoje os habitantes de Cordisburgo vivem às suas sombras. E os talentos contemporâneos que saem dali acabam entrando em uma disputa por atenção que não é nada razoável.

Um desses talentos é o Sr Manoel do Norte. O poeta, escritor, músico e compositor se transformou também em ator no ano passado. Quando seu amigo e conterrâneo, o cineasta Marco Antônio Pereira, o convidou para ser a estrela de seu curta “A retirada para um coração bruto”, vencedor do prêmio do Júri Popular na 21º Mostra de Cinema de Tiradentes.

O filme foi um dos mais bem recebidos na Mostra. Além dos calorosos aplausos no final, arrancou reações do público antes mesmo do fim da sessão. Para Marco Antônio e Sr Manoel, o reconhecimento foi um grande passo na luta contra a invisibilidade que parecia persegui-los.

 

 

O filme

Foi uma questão de minutos até que o publico estivesse completamente apaixonado pelo Sr Ozório (Manoel do Norte). Extremamente carismático, o artista multitalentoso era muito querido por todos na zona rural de Cordisburgo.

Para superar o luto pela morte de sua esposa, ele gostava de se dedicar à sua arte e passar tempo com os amigos. Acompanhamos sua jornada em busca de instrumentos para realizar seu sonho de montar uma banda de Rock.

Trata-se de um filme difícil de se categorizar. Comédia dramática com toques de ficção cientifica talvez seja o mais próximo do adequado. Através de uma narrativa surpreendente e um texto bem humorado, o filme aborda temas como luto e solidão com uma leveza fascinante.

 

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De Cordisburgo para o mundo

Natural de Cordisburgo, Marco Antonio Pereira mudou-se para Belo Horizonte aos 18 anos, para cursar jornalismo. Até então, seu contato com audiovisual se limitava à programação do único canal de TV disponível na época. “Entrei no cinema pela primeira vez aos 19 anos, e aquela experiência foi muito forte pra mim. Naquele dia, alguma coisa aqui dentro gritou: eu quero fazer isso aqui”, lembra ele.

A partir daí, iniciou-se uma trajetória de muito trabalho e aprendizado. Até a chegada do momento em que, finalmente, se sentiu pronto para buscar o sonho de ser um cineasta.  Além do desejo de agradar e entreter as pessoas, revela ter ambições de caráter revolucionário. “Eu quero construir um cinema que seja novo. Vou arriscar tudo para tentar quebrar esse paradigma. Quero que as pessoas assistam meus filmes e digam: eu nunca vi isso antes”.

Marco Antonio pretende fazer de “Coração Bruto” o primeiro de uma série de dez curtas, todos ambientados em sua cidade natal. “Quero mostrar que existe talento em Cordisburgo”, desabafa. Para ele, o céu é o limite. Após a emocionante vitória em Tiradentes, sua próxima parada é o Festival de Berlim. Seu segundo filme, “Alma Bandida” foi selecionado para a mostra Berlinale Shorts, e concorrerá ao Urso de Ouro em fevereiro.

Quanto à motivação, engana-se quem pensa que Marco Antonio é movido por premiações e reconhecimento. Seu interesse maior está na possibilidade de construir relações. “O cinema, para mim, é uma ferramenta para encontrar pessoas, tirar o melhor delas e fazê-las acreditarem em seus sonhos. Acredito que é o instrumento que Deus me deu para cumprir essa missão”.

*Viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

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