Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Márcia Tiburi: força feminina no país da delicadeza perdida

Por Carol Braga

29/06/2018 às 12:07

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Marcia Tiburi não é uma mulher dócil. Aliás, nenhuma deveria ser. Cuidado para não confundir docilidade com delicadeza, elegância, educação. “Como você vai ser dócil sendo o machismo a coisa mais tosca, grossa, ogra que existe no mundo. Como ser meiga, delicada? É uma ironia, né, gente!”, disse. A cada fala, um pensamento, uma provocação.

Marcia Tiburi é uma mulher curiosa. É justo essa curiosidade que a impulsiona para encarar um grande desafio: a candidatura ao governo do Rio de Janeiro pelo PT. “Sou louca, né? Pois é”. Não foi para falar sobre política que a filósofa esteve no Fliaraxá. Participou  da mesa O país da delicadeza perdida, com Nilton Bonder e Leila Ferreira.

 

Autores e leitores

 

Também encarou o Mastigando Autores, uma experiência nova promovida pelo Festival de Literatura em que os escritores se encontram com os leitores sem mediadores ou pautas definidas. Foi nesse momento mais íntimo que ela contou como a ideia da primeira candidatura apareceu.

Por causa dos temas que publica no blog, já há algum tempo recebeu um telefonema de Lula. Conversaram durante meses e, finalmente, surgiu a ideia de disputar o pleito de outubro de 2018. A filósofa e professora achou ousado e assustador. Foi neste momento que se lembrou do trecho de um livro que adora. “Diz assim: Vai na direção em que o teu medo cresce. Aí eu fui porque fiquei com tanto medo”, confessa.

Vale lembrar: Márcia Tiburi é filósofa, ou seja, pensa, pensa e pensa. Toda vez que conta um caso, vem junto a frase, ‘aí eu pensei’. “Como a gente atravessa os momentos de medo? Com curiosidade. É a maior arma contra o medo. Curiosidade não admite preguiça. Você precisa ter uma puta atenção, um estado de alerta. Aí passou a angústia”.

 

 

Pessimismo

 

Tiburi não esconde a preocupação com o rumo das coisas no país, da democracia. Fala, sem meias palavras, em matança para descrever o que acontece no Rio de Janeiro. Por isso, acredita ter chegado o momento de transformar em ação frase conhecida de Karl Marx. “Os filósofos até agora se ocuparam de interpretar o mundo. Cabe transformá-lo”.

Ela diz que tenta fazer uma filosofia da cultura brasileira, ou seja, pensar o acontecimento de uma maneira filosófica. É por isso que os exemplos que escolhe para contextualizar a fala são todos contemporâneos. Tiburi cita os casos de Marcos Vinícios e Marielle, assassinados no Rio de Janeiro com o alerta de que a coisa está muito pior do que a gente pensa. Fala também sobre o lamentável episódio de machismo na Rússia. Todo fato acompanhado de reflexão.

 

Feminismo em comum

 

O machismo, inclusive, tem sido tema ainda mais frequente para ela. Publicou este ano o livro Feminismo em comum: para todas, todes e todos, em que disseca o patriarcado numa construção – até didática – sobre o que é o feminismo e como deveria operar na sociedade contemporânea.

 

O livro segue a mesma linha do anterior, Como conversar com um fascista. É uma literatura que cumpre uma função social de alerta ou, em outras palavras, são tentativas legítimas de abrir o olho da população, formar um pensamento mais crítico com uma linguagem mais acessível para a construção de pensamentos autônomos. Marcia defende a ideia de que toda pessoa deve ter uma atitude sociopolítica.

 

No caso da candidatura, diz que não tem nada a perder. Garante que o barato com a vida está mais ligado à uma experiência espiritual do que com o poder. Espera estabelecer algum tipo de troca. “Poder olhar para o outro sem medo. O medo é o que nos é transmitido por uma tradição. Vivemos um momento perturbador”.

 

 

Delicadeza

 

Para ela, é muito importante que consigamos produzir meios de desmontagem da máquina vigente. Em metáforas, “puxar a carta que está embaixo desse castelo”. Quando falou sobre a perda da delicadeza no Fliaraxá, Tiburi destaca a necessidade de se restaurar a atenção nas coisas.

 

“No meu ponto de vista, a atenção é uma virtude que tem a ver com a disponibilidade para o outro, seja ele uma pessoa, a natureza, o lugar, o espaço, a cultura, uma linguagem”, explica.  Para ela, em tempos tão conturbados, uma tarefa que parece estar sendo difícil é enxergar o outro “Devemos pensar onde eu encontro com o outro? Encontrar para além dos confrontos. Tudo está à flor da pele e na ponta da faca”, sintetiza.

 

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