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Mar Aberto, de Caleb Azumah Nelson, é romance lírico sobre o amor e a subjetividade negra

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Lançamento da editora Morro Branco, Mar Aberto traz uma voz poética e original em segunda pessoa

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Dois jovens artistas negros se conhecem num pub londrino. Ele é fotógrafo, ela, dançarina. Cada um busca em seu campo de atuação uma maneira de se expressar, de se comunicar, tentando construir algo sólido. Se, primeiramente, a arte os aproxima, existem muitos outros pontos em comum que, pouco a pouco, os dois vão tateando e descobrindo. Há algo novo acontecendo entre estes personagens, um sentimento distinto e intenso, um mergulho nas águas profundas de um mar aberto. “Você sabia no que estava se metendo. Você sabe que amar é tanto nadar quanto se afogar”. Romance de estreia de Caleb Azumah Nelson, “Mar aberto” é um lançamento da Morro Branco, com tradução de Camila von Holdefer.

Caleb Azumah Nelson (Foto Adama Jalloh)

A construção do amor numa realidade hostil

Um livro sobre o amor. Na superfície, essa poderia ser uma boa definição do romance de Caleb Azumah Nelson. “Mar aberto” narra os encontros e desencontros de um amor que é construído apesar de. Apesar de muita maré contrária. “Vocês sentem que nunca foram estranhos. Não querem se despedir, porque se despedir é fazer com que a coisa morra na forma atual, e tem algo rolando, tem algo rolando aqui e nenhum dos dois  está disposto a abrir mão”. 

Enquanto tenta entender um interior preenchido por esse turbilhão de sentimentos que não sabe como nomear – amor? amizade? afeto? tudo isso? ou o que? – ele, o protagonista, lida com um exterior hostil à sua existência, que insiste incessantemente em lembrá-lo o quão vulnerável é este seu ato de existir. Como resiste o amor numa realidade marcada pela violência contra os corpos e as subjetividades negras? “Que vida estranha que você e outras pessoas negras levam, eternamente visíveis e não vistos, eternamente ouvidos e silenciados. E que estranha uma vida é para ter que conquistar pequenas liberdades, ter de dizer a si mesmo que pode respirar”. 

Caleb Azumah Nelson constrói aqui cenas difíceis e dolorosas de violência policial que extrapolam o campo ficcional, encontrando um eco contundente na realidade.

“Você olhou nos olhos de um deles e viu a imagem do Diabo. Ele tinha um dedo indicador prendendo o gatilho, como se estivesse segurando um cabo de segurança. (…) Você se encaixa no perfil. Você se encaixa na descrição. Você não cabe na caixa, mas ele o espremeu lá dentro”.

Voz original 

Numa original e poética voz em segunda pessoa, o narrador de “Mar aberto” não fala sobre o seu protagonista, mas para e com o seu protagonista. Mais do que descrever seus gestos, atitudes e pensamentos, esse narrador é profundamente reflexivo acerca das tomadas de decisão do personagem, daquilo o que ele escolher fazer ou dizer e daquilo o que ele escolhe desistir. “Mas você está apavorado. Você não admitiu isso para ninguém, talvez essa seja a primeira vez que admite isso para si mesmo”.

Arte negra contemporânea

Um romance intenso e lírico sobre o amor e sobre a subjetividade negra numa sociedade marcadamente racista, “Mar aberto” é também uma reflexão sobre a arte negra contemporânea e das fissuras que essa arte encontra na superfície para existir e resistir. Uma série de referências da música, do cinema, da literatura, das artes plásticas e do pensamento negro são apresentadas ao longo do texto, como peças na construção de seu complexo protagonista. 

Encontre “Mar aberto” aqui

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel)

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