Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Makely Ka lança o disco-fecho da Trilogia dos Sertões

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O músico Makely Ka apresenta o álbum “Triste Entrópico”, composto por 12 faixas

Patrícia Cassese | Editora Assistente

E assim se passaram dez anos. Foi lá atrás, no ano de 2014, que, com o lançamento do disco “Cavalo Motor”, o cantor e compositor Makely Ka dava início à Trilogia dos Sertões, planejada para abarcar trabalhos inspirados tanto nos livros “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, e “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, quanto nas andanças do artista Brasil afora.

Assim, “Rio Aberto”, o segundo volume da empreitada, veio à tona há três anos. Neste 2024, precisamente no mês em que Makely Oliveira Soares Gomes, ou simplesmente Makely Ka, aniversaria (no último dia 26, ele chegou aos 49 anos), “Triste Entrópico” (Kuarup), o fecho de todo este processo aterrissa nas plataformas, com 12 faixas.

Makely Ka, que acaba de lançar o disco "Triste Entrópico" (Rosa Antuña/Divulgação)
Makely Ka, que acaba de lançar o disco "Triste Entrópico" (Rosa Antuña/Divulgação)

Brasil afora

Não que, neste espaço de tempo, a trilogia tenha monopolizado a atenção do artista. “Estou fechando o círculo de um trabalho que vai completar 10 anos ao mesmo tempo em que venho atuando na intersecção com outros círculos também”, explica Makely, ao Culturadoria. De todo modo, como o foco da conversa era mesmo “Triste Entrópico”, ele assente que, sim, o percurso, do primeiro disco ao atual, foi um pouco mais longo do que imaginava a princípio.

E com rumos inesperados também. “Ao fim, o processo me levou a outras regiões e países (que não os previamente pensados), como a Grécia, a Turquia, o México, a Dinamarca… Mas, sobretudo, me levou cada vez mais para o interior do Brasil, tanto no sentido geográfico quanto no sentido histórico”, situa. À reportagem, Makely pontua: “Nosso país é muito complexo, tem uma formação muito peculiar. Aqui foi fermentado um caldo de cultura muito específico, que gerou muitos conflitos, mas também possibilitou muitas conquistas”.

Desdobramentos

Não por outro motivo, ele analisa que os três álbuns (que, rememora, vieram intermeados com exposições fotográficas, documentários, aulas-espetáculos) foram (têm sido) uma experiência merecedora do adjetivo incrível. “E, embora esteja sendo finalizado, também está se desdobrando em outras ações”.

O processo

Makely Ka conta que, no curso do processo da trilogia, quase tudo fugiu ao que foi planejado. “O que permaneceu foi a ideia de mergulhar no território e depois contar essa história da forma mais interessante possível”. Para ele, os momentos mais difíceis não foram o trabalho em si, “que sempre fiz com muito prazer”. “Mesmo os momentos de perrengue durante as viagens, quando fiquei perdido, quando a bicicleta quebrou, quando enfrentei algum perigo real na estrada, tudo foi aprendizado”. avalia. (abaixo, foto de Makely feito por Daniel Kersys/Divulgação)

Pedra no sapato

Tanto que, para julho, ele se propôs a fazer uma caminhada de alguns dias pela região de Canudos, no sertão baiano. “A dificuldade de caminhar pela caatinga debaixo do sol escaldante é recompensada pela beleza do cenário, pelos encontros, pela possibilidade de vislumbrar a vida daqueles habitantes que fizeram um enclave ali naquela região em pleno século XIX”. Makely admite que o cronograma complica mesmo é na hora de viabilizar o projeto. Ou seja, aprovar em editais, conseguir patrocínio, vender o show. “Essa é a grande dificuldade que todos nós, artistas que atuam fora dos holofotes da grande mídia, enfrentamos. Estou falando daqueles que não produzem música de consumo rápido, que não fazem concessões ao mercado”.

Diálogos com os outros dois discos

Desafiado a falar dos aspectos que aproximam o novo disco aos dois anteriores, bem como sobre os que o distanciam, Makely entende que “Triste Entrópico” é o álbum mais bem acabado no sentido de arranjos e composições. “É o que levou mais tempo para ser concluído. Portanto, foi mais burilado, durante esses cinco anos de produção. Ele tem um vínculo direto com o primeiro porque é igualmente um disco de canções. Mas se relaciona também com o segundo, instrumental, pelo fato de trazer composições mais elaboradas do ponto de vista harmônico-melódico”, localiza.

Ou seja, poeticamente, Makely entente que “Triste Entrópico” se relaciona diretamente com “Cavalo Motor”. “No entanto, musicalmente, talvez tenha essa elaboração maior que o aproxima do disco ‘Rio Aberto’, o instrumental de violas”.

Repertório

Makely Ka conta que, na verdade, vem compondo para este álbum desde quando terminou “Cavalo Motor”, em 2015. “Então, foi um processo artesanal de desenvolvimento dessa linguagem, com o meu violão, que é muito particular e não se vincula diretamente a uma escola. Mesmo porque, sou autodidata, embora tenha uma referência clara na viola de 10 cordas com a influência harmônica do Clube da Esquina, mas também dos violões do Guinga e do Elomar. Isso misturado com a rítmica nordestina, os elementos da cultura popular brasileira e da música do mundo”.

Participações

“Triste Entrópico” traz a participação de nomes como Ná Ozzetti e Toninho Ferragutti, sobre os quais Makely falou ao Culturadoria. “Ná Ozzetti é uma parceira de longa data. Já havíamos feito colaborações no palco e ela gravou uma parceria nossa no álbum ‘Meu Quintal’, chamada ‘Onde a Vista Alcança’. Também registrou uma parceria minha com o Dante Ozzetti, irmão dela, no disco ‘Embalar’. Mas é a primeira vez que ela canta num álbum meu, por isso foi tão especial”.

Já Ferragutti, conta, é um parceiro mais recente. “Fizemos uma canção juntos, quando coloquei letra numa música dele que adoro, ‘Sanfonema’. Então, chamei-o para colocar um acordeon nessa canção, batizada de ‘Regresso ao Agreste’. Tabajara Belo e Antônio Loureiro, que também estão no disco, são igualmente parceiros antigos, com quem venho trabalhando há muitos anos de forma eventual. Eles já tocaram em vários discos meus, já dividimos o palco diversas vezes”.

Easylistening? Não, e está tudo bem

Sobre “Triste Entrópico”, Makely assume: “Eu sei que não fiz um disco fácil de ouvir”. E complementa: “Não significa que seja melhor ou pior, mesmo porque, isso não sou eu quem vai dizer. Mas definitivamente não é um easylistening. São camadas e camadas sobrepostas de som e sentido. Veja, não sou do sertanejo nem do trap. (Tal qual) não sou do funk nem do pop. A princípio, não tenho nada contra quem trabalha esses estilos, embora tenha críticas à forma como alguns artistas e empresários desses e de outros gêneros atuam no mercado fonográfico. Assim, basicamente, a música que eu faço não existe hoje em escala industrial”.

Nesta linha de raciocínio, Makely ressalta: “Não faço dancinhas e sequer tenho perfil no TikTok. Isso, nos dias atuais, significa que estou numa espécie de limbo. Ou seja, um nicho muito especializado. Assim, faço música para um público muito específico”. Não é necessariamente elitizado nem inacessível, analisa. “Só não é uma música de consumo rápido, não é música ‘comprimida’ nem de ‘compreensão’ imediata. Exige algum esforço mental”.

Fruição

Claro, brinca Makely, não chega a ser um quiz. “Mas tem uma harmonia mais intrincada. Tem umas dissonâncias, a melodia não é tão banal. Às vezes, o ritmo é meio quebrado, nem sempre é um 4×4 convencional. As letras têm umas figuras de linguagem como metáforas, metonímias, ironias, citações e aliterações. Enquanto isso, a instrumentação traz alguns timbres diferentes. Os arranjos sugerem outros ambientes, há contrapontos melódicos, há camadas de sons sobrepostos, paisagens sonoras”.

Às vezes, algum experimentalismo, alguma ousadia na forma, adiciona. “Tudo isso são coisas que você vai descobrindo à medida que vai ouvindo. Ou seja, dificilmente vai perceber tudo na primeira audição ou nos primeiros 15 segundos da música”. Por tudo isso, ele diz não ter a menor ilusão de atingir um grande público. “E por esse mesmo motivo não vou ficar seguindo manual de coach musical, regra de empresa de marketing digital, cartilha de bom comportamento em rede social como dia e horário de postagem, pré-save e agendamento de lançamento, vídeo semanal e todas essas bobagens da indústria musical que não me interessam e não me tomam nem um segundo”.

Escuta interna

Na verdade, Makely já há algum tempo entendeu a importância da escuta interna, de se aliar de pressões e receitas. “Eu trabalho no meu ritmo, lanço quando acho conveniente. Publico quando entendo que tenho o que dizer. Ou seja, faço as coisas no tempo em que elas acontecem na minha vida. Então é isso, esse é um disco de música brasileira, um disco de nicho. Desse modo, provavelmente não vai ter muitos ouvintes, não vai ter uma grande acolhida do público. Mas, ao mesmo tempo, espero que não tenha feito um álbum descartável. Tem discos que eu ouço há 30 anos e pretendo continuar ouvindo até o fim. Então, eu fiz esses álbuns com a melhor música que eu consegui criar e produzir. E espero que as pessoas que ouvirem esses trabalhos agora continuem a ouvi-los ainda por muitos anos”.

Faixas

Três canções que Makely destacou, do álbum, a pedido do Culturadoria, são “Vento Vivo”, “Suburbiando” e “Os Sertões”. Confira!

“Vento Vivo”

Makely conta que essa canção surgiu durante uma tempestade. “Eu brinco com o imaginário sobre os ventos e cito mitos relacionados ao tema de diversas culturas. Assim, ela fala do sopro, da respiração, do ar, bem como das mitologias onde o vento é protagonista”. Ou seja, prossegue, desde Ruah, o sopro divino em hebraico, ao hálito sagrado de Olorum na tradição Yorubá. “Ao Deus egípcio Amun, das correntes de ar que varrem grandes extensões como o Minuano e o Mistral, a música, em 6/8 é uma celebração daquele que está em todos os lugares e ninguém vê”.

Ele acrescenta que há uma homenagem implícita a “Vento Bravo”, de Edu Lobo e Paulo César Pinheiro, bem como um arranjo de sopros que remete aos filmes do James Bond. Não só. Também um instrumental que dialoga com o afrobeat de Fela Kuti. “E as intervenções do Chico Neves, que sugerem um clima de ficção científica dos anos 70. Essa é dedicada a Edu Lobo e Paulo Ce?sar Pinheiro”.

“Suburbiando”

A canção, conta o artista, surgiu a partir de uma melodia para a qual Guinga lhe pediu para colocar uma letra. “Mas ela foi recusada. Então, eu fiz minha própria melodia para o personagem que perambula pelo subúrbio de dez capitais brasileiras, sempre em subempregos. Ou seja, invariavelmente em caráter provisório e de forma precária, equilibrando uma vida errática de amores, desilusões e inconstância religiosa”.

A canção, aponta Makely Ka, dialoga com “Bye, Bye Brasil”, parceria de Chico Buarque e Roberto Menescal para o filme homônimo de Cacá Diegues. “E também com ‘A Violeira’, de Tom Jobim e Chico Buarque, feita para o filme ‘Pra viver um grande amor’, de Miguel Faria Junior. Agora estamos à procura de um diretor para esse filme! Dedicada a Chico Buarque”.

“Os Sertões”

A música, diz Makely, é o resultado do mergulho que fez na obra euclidiana e nas repercussões de Canudos que encontrou na literatura, no cinema, na imprensa e na cultura popular. “É uma pequena contribuição para o imenso oceano de referências a Canudos”. O episódio conhecido como Guerra de Canudos é o evento que inaugura – “com a violência que nos é característica” – o período republicano no Brasil, reflete Makely. “Ocorre que não foi propriamente uma guerra. Aquilo foi um massacre, uma chacina. Com centenas de homens degolados pelas forças do governo, mesmo depois de rendidos”.

Desse modo, prossegue, mulheres, crianças e idosos tratados como párias e criminosos. “Uma população miserável, desamparada pelo estado, castigada pela seca, que encontrou acolhimento em Belo Monte e ouviu, nas prédicas e sermões de um homem chamado por eles de Bom Jesus Conselheiro, um alento, um bálsamo para as dores”. Na verdade, Makely reconhece que muito já se disse sobre Canudos. “É um evento incontornável de nossa história. Há dezenas de livros, filmes, canções, peças teatrais, cordéis etc”.

Geografia euclidiana/toponímica roseana

Ele, particularmente, estuda o tema já há alguns anos. “Curioso é que cheguei aos sertões baianos de Euclides da Cunha após atravessar o sertão mineiro de Guimarães Rosa. Um me levou ao outro, por contiguidade e semelhança, me trazendo de volta nesse eterno retorno para dentro do Brasil. Rosa se inspirou em Euclides deliberadamente. Estudando a estrutura geológica da região – um dos cursos que abandonei na universidade foi geologia -, descobri que há uma formação rochosa, a mais antiga do planeta, que liga a geografia euclidiana à toponímica roseana”.

O Cráton, explica Makely, forma, no Brasil, um mapa que abarca justamente a peregrinação de Antônio Conselheiro até se instalar em Belo Monte e os caminhos percorridos por Ribaldo Tatarana no “Grande: Sertão Veredas”. “Ficção e realidade se imbricando, personagens históricos e inventados misturando nossas concepções de bom e mal, de Deus e do Diabo. Tomei algumas liberdades poéticas para falar da nossa Babilônia sertaneja”, coloca.

Citações e paralelos

Desse modo, e para citar um exemplo, Makely diz comparar os jagunços aos vietcongs, pelo uso dos recursos de que dispunham – a guerra de guerrilha – para enfrentar os inimigos. “Inimigos estes que estavam em vantagem tanto numérica quanto em poderio militar. Primeiramente, pelo domínio do território, que conheciam como a palma da mão, muitos deles rastreadores que conseguiam, por exemplo, identificar o número de cavalos a quilômetros de distância apenas colocando o ouvido no solo”.

Tal qual, prossegue Makely, também usavam, como os orientais, as camuflagens mais inusitadas. “Transformando-se ora em arbustos, outras imergindo sob a terra ou mesmo dentro de carcaças de animais mortos. Desse modo, atacavam sorrateiramente as tropas republicanas em marcha, muitas vezes em cima delas, sem chance de fuga ou de reação. Cito ainda o cerco de Stalingrado, talvez a batalha mais sangrenta da história recente da humanidade. Nela, as baixas – tanto do lado russo quanto do alemão – foram tão grandes que deu outro sentido à famosa expressão “vitória de Pirro”. Dedicada a José Celso Martinês Correa e Elomar Figueira Melo”.

Shows

Um outro ponto que Makely avalia, sobre o novo disco, é que se trata de um trabalho difícil de levar para o palco da forma como ele gostaria. “Ou seja, com octeto de sopros, quinteto de cordas, além da banda base, percussões de cerâmica etc. Mas estou fazendo formações reduzidas com um quinteto, ou, ainda, o núcleo básico de dois violões. Aguardo o resultado de alguns editais e a resposta de propostas que enviamos para o Sesc São Paulo e outros contratantes para fazer o show com a formação ideal”.

Acima, Makely Ka em foto de Rosa Antuña (Divulgação)

Outros projetos

No momento, além de divulgar o novo disco, Makely Ka está montando um show inédito, inspirado em fotos do Flávio Souza Cruz. O projeto o une ao grupo Amaranto e a Tabajara Belo. “Também estou trabalhando num álbum que deve sair em breve, com as trilhas que compus nos últimos anos para dança, teatro e cinema”. Makely lembra que assinou uma dúzia de trilhas nos últimos anos, sendo que algumas delas foram premiadas ou indicadas a premiações importantes. “Então vou reunir um pouco desse material nesse novo álbum”.

Peça e filme

Inclusive, recentemente ele recebeu a encomenda para compor a trilha para mais um espetáculo do Grupontapé de Teatro de Uberlândia, com o qual já trabalhou. A peça em questão se chama “As Centenárias”. “Curiosamente, estou também desenvolvendo o roteiro de um filme com a cineasta Paula Gaitan sobre o meu avô, que é centenário. Ele vai fazer 104 anos em outubro e vive no sertão do Piauí”.

E tem mais. Makely também está com uma trilha encomendada pelo Balé Jovem de Minas Gerais, com coreografia da Rosa Antuña, que vai se chamar “Floresta Invertida”. Não bastasse, está produzindo o EP de uma cantora estreante, Luísa Penido, que deve ser lançado no próximo semestre por um selo europeu. “Eu e a Maísa Moura também vamos celebrar, em show, a nossa parceria musical de mais de 20 anos. E com a participação de nosso filho, o Moreno, que está hoje com 17 anos e toca muito bem”.

Manual do Pequeno Produtor de Música Orgânica

Não fosse já muito, Makely ainda acrescenta que vem escrevendo (“e pretendo finalizar esse semestre”) o livro “Manual do Pequeno Produtor de Música Orgânica”. Trata-se de uma espécie de guia comentado sobre a própria experiência do artista de gerenciamento de carreira. “Ele traz conversas com outros músicos, dicas e orientações para quem está começando ou para quem já tem uma trajetória na música e está querendo dar uma guinada na carreira”.

Novo disco

Por fim, Makely Ka começou a gravar para um novo álbum de canções, no formato voz e violões. “Ele vai ter faixas inéditas e algumas das minhas parcerias com Lô Borges, Guinga, Chico César, Toninho Ferragutti, Mário Séve e Benji Kaplan, entre outros parceiros. Mas esse é um projeto que deve vir à tona somente em 2025”.

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