fbpx
Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Madrigal para um poeta vivo”: encontro com o existencialismo mediado pelo cinema

Por matheusbongiovani

23/01/2018 às 20:28

Publicidade - Portal UAI

O paulista Francisco Pinto Campos Neto atingiu um novo patamar de notoriedade recentemente quando foi personagem em uma matéria de televisão sobre o fato de ser escritor e coveiro. A participação no programa fora apenas uma tentativa de divulgar “As Núpcias do Escorpião”, seu livro de contos lançado em 2013.

A verdade é que Tico – como era mais conhecido – nunca gostou muito da ideia de ser conhecido com escritor-coveiro. Apesar de reconhecer o valor da profissão, a atividade exercida no cemitério era um ganha-pão de caráter passageiro. Era na literatura que se encontrava sua verdadeira essência.

A trajetória de Tico foi conturbada. Lutou contra o alcoolismo, morou na rua, foi internado mais de 20 vezes, e teve um final amargo. Suicidou-se em 2015 antes mesmo de ter a oportunidade de ver o documentário dos jovens diretores Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho sobre sua vida. Madrigal para um poeta vivo foi o primeiro concorrente da Mostra Aurora a ser exibido na Mostra de Cinema de Tiradentes.

No debate realizado após a exibição do longa os diretores contaram que o interesse pela a realização do filme nasceu do contato com as obras de Tico. A intenção era valorizar seu legado e memória. “O homem vai, a obra fica”, afirmou Bruno.

O filme

É impactante ver o depoimento de um suicida sobre o suicídio. “O filme tem sua potência justamente pela morte dele. Se estivesse vivo seria outra coisa”, comentou Adriana.

Em determinado momento, Tico afirma que pensava no suicídio como uma forma de autoeutanásia. Uma vez que sua alma e seu espírito já partiram, a morte de fato seria apenas uma formalidade.

As reflexões sobre a vida presentes no filme são fascinantes. “Ele era um ótimo discursador, te conquistava em um minuto”, lembrou Adriana. É um verdadeiro privilégio ouvir sua justificativa sobre o orgulho que sente de seus tempos de alcoólatra, por exemplo.

Ao contrário do que todos recomendavam, Tico se recusava a abandonar os amigos feitos nas mesas dos bares. Os botecos, aliás, são considerados por ele como um espaço singular, que pode servir como confessionário ou até mesmo terapia.

O capitalismo também é alvo constante das críticas do escritor. Ele chamava atenção para a forma com que o domingo é roubado dos trabalhadores. Uma vez que eles deixam de aproveitar um dia por já estarem preocupados demais com o próximo. Considerava o sofrimento por antecipação como um dos grandes inimigos da qualidade de vida.

O diferencial

Quem embarcar nessa experiência audiovisual esperando uma biografia convencional vai se decepcionar. Apesar de se definir como documentário, podem ser encontradas características de várias linguagens diferentes. Além de depoimentos de Tico, seus familiares e amigos próximos, há também a aparição dos próprios cineastas e encenações, gerando um certo híbrido de realidade com ficção.

A forma de “Madrigal para um poeta vivo” gerou controvérsia entre os críticos. A variedade de linguagens empregadas tornou a compreensão e a absorção do conteúdo difícil para alguns. Mas Bruno e Adriana devem ser aplaudidos pela ousadia de inovar, e pela nobre intenção de eternizar um artista consideravelmente subestimado.

*Viajou a convite da Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Continua após a publicidade...

 

photo

‘Pitanga’ comove público na praça de Tiradentes

Pode ser uma questão de safra ou apenas uma flexibilidade maior da curadoria. Fato é que a Mostra de Cinema de Tiradentes fez as pazes com filmes com viés mais popular. O que é ótimo. A sessão do documentário Pitanga no Cine Praça, confirmou isso. Uma das novidades desta edição é a realização de um […]

LEIA MAIS
photo

As apostas para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2019

A Mostra de Cinema de Tiradentes tem – inclusive de forma bastante clara – um compromisso com a produção nacional contemporânea. Isso, na prática, significa que se você vai até a cidade do Campo das Vertentes, para a edição que vai do dia 18 a 26 de janeiro, desista de encontrar nomes consagrados ou mesmo […]

LEIA MAIS
photo

Protagonismo da mulher no cinema é tema de mostra feminista em BH

Até o dia 16 de março o cinema do Sesc Palladium recebe a 4ª Mostra de Cinema Feminista. Serão exibidos gratuitamente 69 filmes de todo o Brasil e de outros 11 países. O festival ainda conta com roda de conversa com diretoras convidadas. O objetivo é dar visibilidade às produções cinematográficas realizadas por mulheres e […]

LEIA MAIS