Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Luana Vitra em dois tempos: no Inhotim e na Bienal de São Paulo

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A artista mineira Luana Vitra tem obra comissionada no Inhotim, ao mesmo tempo que expõe obra potente na mostra em cartaz no Parque do Ibirapuera

Aos 28 anos, a artista plástica, dançarina e performer mineira Luana Vitra já ostenta uma trajetória pontuada por feitos memoráveis, alguns dos quais acrescentados no currículo dela justamente neste ano. Para começar, em junho, o nome de Luana foi anunciado como um dos quatro vencedores do concorrido Prêmio Pipa 2023 – no caso, junto a Glicéria Tupinambá (BA), Helô Sanvoy (GO) e Iagor Peres (RJ). Além do prêmio em dinheiro, o certame também rendeu, a Luana e demais artistas vencedores, uma exposição no Paço Imperial, no Rio de Janeiro, encerrada em 12 de novembro.

A representação dos canários mortos na obra de Luana Vitra, na Bienal de SP (Patrícia Cassese)
A representação dos canários mortos na obra de Luana Vitra, na Bienal de SP (Patrícia Cassese)

Já em setembro, a abertura da 35ª Bienal de São Paulo – Coreografias do Impossível descortinou, ao público, a impactante instalação “Pulmão da Mina”. Não bastasse, no dia 11 de novembro, o Instituto Inhotim inaugurou, na Galeria Marcenaria (que passou por um processo de reforma), a instalação temporária “Giro”, da artista crescida em Contagem. A previsão é que a obra (comissionada) fique exposta por dois anos. Já a Bienal de São Paulo, vale lembrar, fica em cartaz até o próximo dia 10 de dezembro.

Nome em alta no universo das artes: Luana Vitra (Ícaro Moreno/Divulgação)
Nome em alta no universo das artes: Luana Vitra (Ícaro Moreno/Divulgação)

“Giro”

Foi no dia 10 de novembro que, na apresentação à imprensa do Quarto Ato da Mostra Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra, parceria do Inhotim com o Ipeafro, jornalistas de todo o país, convidados pelo Instituto, também visitaram “Giro”. No evento, a própria Luana Vitra esteve presente, tendo conversado com os jornalistas sobre as escolhas que fez para a composição obra. Ao lado dela, estava o curador assistente do Inhotim, Deri Andrade.

Luana Vitra, entre Julia Rebouças, diretora artística do Inhotim, e Deri Andrade, curador assistente (Foto: Patrícia Cassese)
Luana Vitra, entre Julia Rebouças, diretora artística do Inhotim, e Deri Andrade, curador assistente (Foto: Patrícia Cassese)

Torno

Assim, Luana contou que, quando recebeu o convite do Inhotim para ter um trabalho instalado exatamente na galeria Marcenaria (foto abaixo), de pronto pensou em desenvolver a obra em colaboração com o pai, Jorge da Costa, pelo fato de ele ser marceneiro. “No entanto, com o tempo, senti que não seria exatamente possível”, disse ela, não sem explicitar uma prática do genitor que ficou tatuada na memória. “Uma das coisas que mais me encantava, dentro do processo de crescer ao lado do meu pai, era observar o processo de trabalho dele. Ele é marceneiro, mas trabalha especificamente com o torno. E me encantava acompanhar essa forma que é dada pelo giro”.

Luana explica que, neste processo, coloca-se a madeira quadrada no torno e, à medida que ela vai sendo girada, vai se transformando, adquirindo outras formas. “Sempre fiquei maravilhada com aquilo. Aqui (na instalação do Inhotim), o meu desejo foi no sentido de pensar o giro como um lugar do transe da matéria. Então, como disse, a princípio, iria trabalhar tanto com o meu pai, com o giro na madeira, quanto também com a cerâmica, com o giro com o barro. E também o repuxo, que seria o giro do metal. Ou seja, essas formas produzidas a partir do giro”.

Comunicação da matéria

Porém, a artista conta que, num momento posterior, entendeu que seriam precisos três momentos. “Assim, esse, agora, corresponde ao primeiro momento. Futuramente, quero fazer uma exposição com o giro da madeira e outra com o giro com metais. De uma maneira geral, como o (curador) Deri Andrade disse, os meus trabalhos estão sempre ligados a uma comunicação da matéria. O que a matéria me diz, a princípio. E o que eu faço é adicionar uma outra camada de voz junto à que a matéria já vem pronunciando”.

Composição

A instalação “Giro” traz peças em cobre (produzidas por Aitam Camilo, do ArteTude) e ferro, bem como peças em cerâmica (produzidas em parceria com os artistas locais Benedikt Wiertz, do Ateliê Xakra, e Alex Santana, da Cerâmica Santana), pedras, barro e pinturas de um profundo azul anil e do branca. No caso dos metais, há, por exemplo, setas e pregos. “O prego é um objeto que já utilizo há algum tempo. E era um pouco (a ideia) de trazer o relevo daqui, de trazer esta materialidade que é própria dessa região. Porque a gente está pisando sobre uma terra de ferro, e este é um aspecto que sempre me orientou. Eu me sinto ancorada por esta presença, pelo transe do ferro. As pedras, são daqui também. São pedras de minério de ferro. Então, é nesses dois elementos que a presença do ferro vem”.

Cobre

Ela também explica a escolha do cobre. “É uma matéria que utilizo por uma dimensão de condutividade. O cobre, como se sabe, é o segundo metal mais condutivo (após a prata). Então, quando eu trago essa matéria, é no sentido de gerar a condução da energia do trabalho. Da mesma forma, o fato de todas as flechas – ou setas – estarem, aqui, direcionadas para cima é um pouco um gesto para dizer sobre o vetor de energia que o trabalho tem operado. No meu trabalho anterior, também havia a presença de flechas, mas algumas apontadas para cima, outras para baixo, porque a obra estava falando da morte dentro da relação com os metais”, pontua Luana.

A artista também esclarece que cada material que está presente na instalação que apresenta na Galeria Marcenaria é um campo de discurso. “Ou seja, nada está aqui (lá) por acaso, por um aspecto meramente estético. É sempre por uma comunicação da matéria mesmo. O meu trabalho está muito ligado a isso, ao que as coisas estão dizendo”, situa Luana Vitra.

Espiritualidade

Perguntada de que forma a relação a espiritualidade que a norteia está presente na obra no Inhotim, Luana comenta que essa se dá numa dimensão de existência. “Assim, não necessariamente estou pensando sobre isso a todo momento. Em alguns momentos sim, em outros, não. Sou mais próxima de Ogum, Oxóssi e Exu, são os orixás com os quais tenho mais relação. Então, a presença deles está aqui, mas, pessoalmente, eu associaria essa instalação a outras energias, que não necessariamente são desses orixás. Enfim, eu nem me sinto exatamente apta a falar muito disso. Porque, na verdade, é algo que movimento na minha vida em um lugar muito, muito mais íntimo”.

Porém, prossegue ela, a presença do barro na obra se dá como em um pedido de permissão. “Na verdade, ligado a Nanã (orixá feminino relacionado com a origem do homem na Terra). Assim como o cobre, ligado a Iansã. Mas, veja, eu não estou falando sobre isso neste trabalho. É mais um lugar de respeito a essas energias. De pedir permissão para que esse trabalho aconteça. Desse modo, eu, que sou mais próxima ao ferro, para me aproximar do barro realmente preciso ir com cuidado. E foi com cuidado que esse trabalho foi feito. Mas novamente reforçando: não é sobre isso. Na verdade, o que estou trazendo em termos de poética, de sentido, nesta obra, está ligado a outras coisas. A relação com a espiritualidade é a maneira com a qual estou no mundo. Então, naturalmente isso vai estar, em alguma medida, imantado”.

Na Bienal

Na Bienal de São Paulo, a obra “Pulmão da Mina”, de Luana Vitra, recupera os canários que serviam como uma espécie-sentinela para pessoas escravizadas nas minas. Assim, quando paravam de cantar, os pássaros acabam alertando para a presença de gases tóxicos no ambiente. Desse modo, era preciso sair dali às pressas. De acordo com o material da Bienal, um dos pontos de destaque da obra são as flechas-patuás preparadas para o desbloqueio de caminhos. “Feitas de ferro, atuam como condutores e apontam para zonas de desvio e liberdade”.

Detalhe da instalação de Luana Vitra na Bienal de São Paulo (Foto: Patrícia Cassese)
Acima, detalhes da instalação de Luana Vitra na Bienal de São Paulo (Foto: Patrícia Cassese)

Em tempo: “Giro”, de Luana Vitra, tem o Patrocínio Prata da Construtora Barbosa Mello, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

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