Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Assassinos da Lua das Flores”, de Martin Scorsese, estreia no Brasil

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Ao focar um episódio dos povos originários norte-americanos, “Assassinos da Lua das Flores” toca em questões ainda prementes

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Com Leonardo DiCaprio, Robert de Niro e a maravilhosa Lily Gladstone à frente do elenco, “Assassinos da Lua das Flores”, nova investida de Martin Scorsese no cinema, estreia agora no Brasil já figurando como um forte candidato a obter várias indicações ao Oscar 2024. “Assassinos da Lua das Flores” (“Killers of the Flower Moon”) se envereda por um tema em alta: a ação danosa e genocida do homem branco sobre os povos originários. Aliás, Tantoo Cardinal, uma das atrizes do elenco, marcou presença na recente série “Three Pines”, produção canadense-britânica que também abarcava esta questão no escopo. Isso, a partir do desaparecimento de uma jovem indígena. Mas Tantoo já era conhecida do grande público (pelo menos, dos cinéfilos mais maduros) por ter atuado em “Dança com Lobos”, filme de Kevin Costner, de 1990.

Leonardo DiCaprio e Lily Gladstone em "Assassinos da Lua das Flores" (Paramount Pictures/Divulgação)
Leonardo DiCaprio e Lily Gladstone em "Assassinos da Lua das Flores" (Paramount Pictures/Divulgação)

No caso, Martin Scorsese (que também assina roteiro adaptado, junto a Eric Roth) optou por transpor, para a tela, o livro “Assassinos da Lua das Flores: Petróleo, Morte e a Origem do FBI”, de David Grann. Em tempo: a obra foi lançada no Brasil em 2018, pela editora Companhia das Letras. O livro-reportagem foi inspirado naquela que se tornou conhecida como a primeira grande investigação de homicídios do Federal Bureau of Investigation, o FBI. É tudo tão absurdo que, para o interessado em se inteirar sobre o caso antes de assistir ao longa, vale muito a pena procurar a matéria publicada no “El País” sobre o livro.

Ouro negro

O povo indígena em foco é o Osage, de Fairfax, estado de Oklahoma, EUA. Nos anos 1920, os Osage respondiam pela maior renda per capita do planeta. Isso por conta do petróleo encontrado nas terras para as quais foram deslocados, já que, antes, haviam sido obrigados a sair do território que até então ocupavam, no Kansas. Assim, como o próprio material brasileiro de apresentação do livro o qual o filme adapta lembra, graças ao petróleo, o ouro negro, os nativos Osage passaram a andar “de Cadillac, com motorista”. Do mesmo modo, “construíam mansões, mandavam os filhos estudar na Europa”.

Naturalmente, como sói acontecer em situações assim, pessoas de toda a parte do território norte-americano começaram a se dirigir rapidamente para a região – a maioria, querendo apenas trabalhar (também logo no início, há uma cena que mostra recrutadores de mão de obra). Já outras, totalmente destituídas de boas intenções. Portanto, e reiterando o já dito, choca, muito, saber que o caso de Mollie Burkhart, epicentro de “Assassinos da Lua das Flores”, é real. Não só. Foi, por um considerável período, apagado no próprio território onde se desenrolou.

Trama

Assim, após este longo, mas necessário, preâmbulo, adentramos o filme de Scorsese. O longa se inicia com a chegada de Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio) à região, convocado pelo tio, William Hale (Robert De Niro), que possui terras na região – para o infortúnio dele, porém, desprovidas de petróleo. Logo, as intenções de Hale ficam bem claras: ele quer Ernest se case com Molly (Lily Gladstone) e tenha herdeiros, de modo que o dinheiro da nativa fique com a família deles.

O “problema” é que Molly não é filha única. Assim, para que efetivamente herde o dinheiro, as irmãs dela, como Minnie e Anna, teriam que morrer. E é justamente isso que vai acontecendo em “Assassinos da Lua das Flores”, graças à mão “invisível” de Hale, não sem o apoio crucial de Ernest. Hale, vale dizer, se apresenta cinicamente como um grande apoiador dos povos originários da região. Um sólido ombro amigo, alguém com o qual eles podem sempre contar para o que der e vier.

FBI

Ressalte-se que os Osage também eram vítimas de outras manobras interesseiras dos brancos. Inclusive, por serem considerados incapazes de movimentar o patrimônio, eram tutelados – ou seja, precisavam do aval de pessoas nomeadas pelas autoridade para movimentar o próprio dinheiro. Some-se a tudo isso o fato de, não raro, serem induzidos ao vício (como em bebidas) e a baixa expectativa de vida – no caso das mulheres, 50 anos.

Evidentemente, no caso dos homicídios – escabrosos -, não apenas o núcleo de Molly era alvo na região naqueles 1920. Portanto, em determinado ponto, diante do volume de casos que se sucedem (assassinatos a tiros, por envenenamento etc), um grupo de nativos, ciente de que as autoridades locais não estão nem um pouco empenhadas em aprofundar as investigações, para, assim, elucidar as mortes, se dirige a Washington DC – lembrando que o FBI foi criado apenas em 1908, ou seja, à época em que a ação se passa, a iniciativa era recentíssima.

Elenco

Em “Assassinos da Lua das Flores”, a entrada em cena dos agentes federais também introduz um grande ator na trama. Estamos falando de Jesse Plemons (“Ataque dos Cães”, “Judas e o Messias Negro”, “Estou Pensando em Acabar com Tudo”), que conduz as investigações. Plemons (na foto abaixo, com De Niro), aliás, já havia trabalhado com Scorsese em “O Irlandês” (2019). Mais adiante, também entra em cena Brendan Fraser, mas, no caso, não como agente do FBI, e, sim, como o advogado de Hale.

Naturalmente, boa parte do elenco tem ascendência indígena – e nem poderia ser diferente nos tempos atuais. Já citada aqui, a maravilhosa Tantoo Cardinal interpreta Lizzie Q, a mãe de Mollie. Aos 73 anos, ela é canadense de ascendência Cree e Métis. De acordo com a biografia da atriz, em 2009, foi nomeada membro da Ordem do Canadá pelas “contribuições para o crescimento e desenvolvimento das artes cênicas aborígenes no Canadá”. No caso, tanto como atriz de tela e teatro quanto, tal qual, membro fundadora da Saskatchewan Native Theatre Company. Do mesmo modo, temos a já citada Lily Gladstone, que tem ascendência nativa, entre outros vários – e maravilhosos – atores.

Na ordem do dia

Vale ressaltar, ainda, a preocupação de Martin Scorsese em relação ao não lugar de fala dele. Assim, fez questão de ter a consultoria de Osages na preparação do filme. Do mesmo modo, De Niro, Lily e DiCaprio aprenderam falas em Osage para a produção. Ainda assim, houve quem fizesse reparos, apontando, por exemplo, que a personagem Mollie deveria ser a narradora, a voz principal.

De todo modo, cumpre apontar que, mesmo tendo feito a opção por um filme de narrativa tradicional (a inovação, neste quesito, fica mais para o desenlace, que, aliás, tem a presença do diretor, algo habitual na trajetória dele), Scorsese entrega, em “Assassinos da Lua das Flores”, um filme necessário, pertinente. E, mesmo sem o lugar de fala, não dá para não relevar a importância de um diretor do naipe dele, que já conta com um público cativo e trânsito na indústria, usar este poderio em prol de uma causa como esta.

Basta lembrar que, há poucos dias, os aborígenes australianos sofreram um revés. A população daquele país rejeitou a emenda à Constituição que pretendia reconhecê-los como habitantes originais do território. Assim, criar um órgão consultivo para assessorar o parlamento sobre políticas que viessem a afetá-los. Mas nem precisamos ir longe: o Brasil vive as discussões alusivas ao Marco Temporal para demarcação das terras indígenas.

Questões

Como bem disse, ao “Hollywood Reporter”, Christopher Cote, um dos consultores indígena Osage de “Assassinos da Lua das Flores: “Acho que, no final, a questão que resta é: por quanto tempo você será complacente com o racismo? Por quanto tempo você concordará com algo e não dirá nada, não falará. Por quanto tempo será complacente?”. Com o adicional de “Assassinos da Lua das Flores” contar com um extraordinário elenco. Os de maior fama, ressalte-se, não estão apenas ancorados nela, mas nitidamente se empenhando para dar o melhor de si.

A longa duração

Recentemente, o escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva listou, em uma coluna, e de maneira bem humorada, coisas que, a seu ver, afugentam pessoas com mais de 60 anos (ele, hoje, tem 64). Uma delas seriam os filmes com mais de três horas de duração. É fato: grandes produções – para citar um exemplo recente, “Oppenheimer” – alcançam fácil este marco, mesmo em tempos de “speed watching”. Aliás, vale dizer que o fenômeno de assistir a filmes em velocidade acelerada (claro, no streaming), na verdade, atinge muito mais as novas gerações do propriamente a do autor de “Feliz Ano Velho”.

Não por outro motivo, um dos primeiros aspectos a chamar a atenção em “Assassinos da Lua das Flores” foi a duração: 3h26. A boa notícia é que não há momentos demasiadamente arrastados no longa de Scorsese. Assim, pode acreditar, a exibição mantém acesa a chama da atenção do espectador a todo tempo, mesmo mediante a já citada longa duração.

O título (*)

“Lua das Flores” é uma expressão dada pelos povos originários norte-americanos à lua cheia de maio, período no qual, no hemisfério norte, a primavera adentra a cena. No entanto, um fenômeno acontece nas pradarias e colinas: é que as flores mais altas acabam bloqueando a passagem de luz para as menores, mais rentes ao solo. Tal qual, absorvem mais a água. Não raro, isso provoca a morte das tiny flowers. O título, pois, faz uso dessa metáfora de como o poderio branco sufocou os povos originários.

(*essa explicação para o título foi fornecida por um vídeo do site CineRanter)

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