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Literatura nacional: olhares sobre o Brasil em três lançamentos

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O processo de “uberização” do mercado de trabalho, os conflitos do campo e um cenário apocalíptico causado por uma pandemia letal são destaques em três trabalhos recém lançados na literatura nacional

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Erva brava, de Paulliny Tort

Buriti Pequeno é uma cidadezinha incrustada no interior de Goiás. Por este campo, caminham uma multiplicidade de personagens que ganham vida na prosa de Paulliny Tort. Buriti Pequeno não existe no mapa do Brasil. É uma cidade fictícia criada pela autora brasiliense no volume de contos, “Erva brava”. Mas poderia, perfeitamente, existir. O lugar inventado é como um espelho do interior profundo brasileiro, com dores, conflitos, tradições e resistência.

Sendo assim, a cidade é a verdadeira protagonista do novo livro de Paulliny. Nas doze narrativas que compõem o trabalho, a escritora desenvolve enredos múltiplos. Lida com diversos aspectos da vida no campo, da religiosidade à violência contra populações indígenas, do patriarcado à especulação imobiliária, tendo Buriti Pequeno como palco para seus acontecimentos. Encontramos aqui as transformações do campo e as relações conflituosas entre a tradição e o suposto progresso. Ou seja, conflitos irremediáveis no texto e na vida real. 

Em um dos contos, a autora descreve uma pequena porção de terra onde nada vinga. Maria reclama com Lourival, que insiste naquele solo improdutivo: “Não sei por que você teima”. Talvez teimem todos os personagens de Paulliny Tort em “Erva Brava”. Teimam em existir e resistir, em seguir vivendo apesar das forças contrárias, apesar de tudo.

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Capa do livro Erva Brava. Créditos: Fósforo Editora
Capa do livro Erva Brava. Créditos: Fósforo Editora

De cada quinhentos uma alma, de Ana Paula Maia

No novo livro, “De cada quinhentos uma alma”, Ana Paula Maia retoma personagens conhecidos. Assim, Edgar Wilson, Bronco Gil e Tomás aparecem em um contexto em que a barbárie toma conta do cotidiano. Estamos em um Brasil colapsado pela epidemia de uma doença misteriosa. Além disso, vivencia a falência do sistema de saúde e a escassez de alimentos. Assim, a violência se torna regra e a sobrevivência uma luta desigual, onde poucos têm chances de êxito. No texto, Ana expõe os mais tortuosos e assombrosos comportamentos do indivíduo e do coletivo.

Esse é um daqueles livros para ler numa sentada. A escrita é ágil e ritmada. Desde que você tenha estômago. Ana Paula cria um trabalho bem cinematográfico. Por vezes lembra até mesmo um roteiro de filme. Ou seja, a frequente repetição dos nomes dos personagens, posicionamentos deles em cena, gestos e ações bem demarcados. Outra aproximação com o cinema são as descrições gráficas dos horrores sofridos e perpetrados, a autora não nos poupa do sangue. É interessante observar como, muitas vezes, a literatura consegue ir mais além que o audiovisual na representação da violência, por demandar do leitor um gesto mais ativo na construção e imaginação dessas imagens. 

“De cada quinhentos uma alma” é um livro desesperançoso. No fim, parece não haver salvação. Caímos vertiginosamente em um abismo. “No princípio, havia a escuridão. Talvez, no fim, também haja somente isso.”

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Capa do livro De cada quinhentos uma alma. Créditos: Companhia das letras
Capa do livro De cada quinhentos uma alma. Créditos: Companhia das letras

O filósofo no porta-luvas, de Juliano Garcia Pessanha

Frederico, o protagonista de “O filósofo no porta-luvas”, este breve romance-filosófico de Juliano Garcia Pessanha, era um rapaz massacrado. Deslocado no mundo, na universidade e na relação com aqueles ao redor, ele encontra na figura de um “terapeuta-guru-mago-holy-man” a salvação. Assim, o jovem se descobre singular e especial.  Com a singularidade, não deveria se preocupar com questões materiais e financeiras, isso viria com o tempo. Ele era um candidato a futuro “holy man”, seguindo os passos do mestre. Enquanto isso, seguia vivendo como um aposentado prematuro, dependendo financeiramente da mãe.

Perpassam pelo texto uma série de autores e pensamentos filosóficos que pensam e questionam o mundo e seu funcionamento. Dessa maneira, numa construção de enredo muito engenhosa, encontramos, inclusive, o próprio Juliano-personagem, espécie de duplo com mais sorte de seu protagonista. 

O autor narra a ascensão e a queda de seu personagem. Agora, um homem de meia-idade, Frederico sofre um processo de uberização. Nada do que foi prometido pelo guru se concretizou e ele se torna motorista de aplicativo. Em resumo, Juliano Garcia Pessanha trata com muito humor e um quê de melancolia esta jornada de Frederico. É difícil não se comover com o choque de realidade do protagonista. A queda é alta e machuca.

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Capa do livro O Filósofo no porta luvas. Créditos: Todavia Livros
Capa do livro O Filósofo no porta luvas. Créditos: Todavia Livros

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro. Seu Instagram é @tgpgabriel (https://www.instagram.com/tgpgabriel/)

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