Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Trilogia “Três Peças Que Atravessam o Mar” aporta no CCBB BH

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Idealizado pelo premiado diretor e ator Leonardo Fernandes, o projeto se desdobra em duas peças teatrais (uma delas, um monólogo) e um espetáculo de dança

Patrícia Cassese | Editora Assistente

A partir desta semana, o Teatro II do CCBB BH recebe um projeto de pronto instigante: “Três Peças Que Atravessam o Mar”. Como o nome mesmo avisa, trata-se de uma trilogia – no entanto, composta por encenações de DNA distintos. O que as tornou factíveis de estarem abrigadas sob o mesmo guarda-chuva foi um denominador absolutamente relevante: a presença do mar nas três narrativas. Mas é preciso deixar claro: a apresentação neste formato – trilogia – não foi uma diretriz desde o início clara ao mentor da empreitada, o ator e diretor Leonardo Fernandes. “Na verdade, aconteceu um pouco por acaso”, conta ele, ao Culturadoria.

"Os Que Vêm com a Maré" está em cartaz no Teatro II do CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)
"Os Que Vêm com a Maré" está em cartaz no Teatro II do CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)

Embrião

O embrião desta história pode ser localizado quando Leonardo estava envolvido com o plano de encenar “Frankenstein – Fragmentos da Guerra”. Ali, ele já havia batido o martelo que este seria o seu próximo monólogo – lembrando que um dos pontos altos da carreira de Leonardo foi a montagem de “Cachorro Enterrado Vivo”, pela qual faturou o APCA 2016 na categoria Ator. “No entanto, ao mesmo tempo, eu estava pesquisando algum outro texto para dirigir”, comenta ele. Um dos fortes candidatos, naquele momento, já era “Os que Vêm com a Maré”, texto do dramaturgo Sergio Roveri, de 2012.

Só que, além do desejo de voltar aos palcos em um monólogo e, do mesmo modo, de atuar na direção de uma outra montagem, Leonardo Fernandes também acalentava um terceiro sonho: o de dirigir um espetáculo de dança. Precisamente, contando com a presença, no elenco, dos bailarinos Samuel Samways e Eliatrice Gischewsk, com os quais já dividia o plano. E foi neste compasso que, em dado momento, Leonardo se deu conta que os três prováveis textos sobre os quais trabalhava tinham este forte ponto de tangência, a presença do mar.

Agente transformador

Não só. Não pura e simplesmente a presença do mar. “Ao mesmo tempo, em todas as três, o mar atuava como um agente transformador para os personagens, porque, uma vez que por ele eram atravessados, a vida se modificava”, analisa. Impactado com o fato de tal convergência não ter sido programada, Leonardo teve, pois, a ideia de compor a trilogia. No entanto, o ator e diretor enfatiza um ponto importante, importantíssimo: “Tenho tomado bastante cuidado com o uso do termo ‘trilogia’ por um certo receio de que o público entenda que, para assistir a uma das peças, seja necessário ver a outra, sabe? E, na verdade, não, são montagens distintas”, estabelece. Ou seja, todas as três funcionam de forma independente.

A montagem de “Os que Vêm com a Maré”, por exemplo, conta com cinco pessoas no elenco – os atores Luciano Luppi, Ivana Andrés, Raquel Lauar e Vanessa Machado, bem como a harpista Cecília Pacheco. Integrante da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, ela performa ao vivo no curso da peça. Nos bastidores, Wladimir Medeiros assina a criação de luz, enquanto Rosina Lobosco, os figurinos. A peça dirigida por Leonardo, vale dizer, fica em cartaz de 27 de junho a 8 de julho de 2024, de quarta a segunda, às 21h.

Dança

Com texto escrito por Lucas Vasconcellos, o espetáculo de dança “A Grande Onda de Kanagawa” traz, no título, uma alusão clara à notória obra do japonês Katsushika Hokusai (1760 – 1849). A montagem, por seu turno, fica em cartaz até 8 de julho, com sessões de quarta a segunda, às 20h. Por último, mas não menos importante, “Frankenstein – Fragmentos da Guerra”, solo de Leonardo Fernandes, será encenada de 10 a 22 de julho de 2024, de quarta a segunda, às 20h.

Cena de "A Grande Onda de Kanagawa", também em cartaz no CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)
Cena de “A Grande Onda de Kanagawa”, também em cartaz no CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)

Detalhe: após constatar que, como já assinalado, as três tinham o atravessamento do mar em comum, Leonardo Fernandes decidiu partilhar outros elementos. Assim, veio a ideia de cada uma das encenações ter um músico no palco, tocando ao vivo. “Além disso, em cada uma das montagens o espectador vai ver uma parte do cenário de outra. Desse modo, de alguma forma, as coisas estão ali, casadas”.

“Os que Vêm com a Maré”

O texto escritor pelo jornalista e dramaturgo Sérgio Roveri foi encenado em 2012, e de um modo bastante peculiar: à época, ao espectador foi dada a oportunidade de assistir a três versões distintas do mesmo texto, montadas concomitantemente. Entretanto, Leonardo Fernandes não chegou a ter a oportunidade de conferi-las.

De todo modo, ele conta que um dos aspectos que o fisgou na dramaturgia foi a atmosfera enigmática que nela detectou. “O texto, ele não revela muita coisa. E o fato de (a narrativa) não ser linear também me pareceu muito interessante. Do mesmo modo, os personagens me chamaram muito a atenção”, situa. Na verdade, a montagem anterior na qual Leonardo havia se incumbido da direção também teve a dramaturgia assinada por Roveri: “Enquanto Estamos Aqui”. “Acho que ele tem uma habilidade ímpar no que tange à construção de personagens”, diz o ator e diretor mineiro, sobre o autor paulista, nascido em Jundiaí, em 1960.

Cena de "Os Que Vêm com a Maré", em cartaz no CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)
Cena de “Os Que Vêm com a Maré”, em cartaz no CCBB BH (Tati Motta/Divulgação)

“Neste caso (ou seja, Leonardo referindo-se à peça “Os Que Vêm com a Maré”), são pessoas simples, que moram à beira mar, vivendo uma vida na qual os sonhos não foram realizados. Assim, elas estão ali, naquele pequeno mundo de onde até eventualmente gostariam de ter saído, mas, por um motivo ou outro, não conseguiram. Isso me chamou muito a atenção. Na verdade, eu gosto muito desses personagens ‘simples’, cujas vidas não têm, digamos assim um grande ápice. Os personagens de ‘Os Que Vêm com a Maré’ não têm, ou tiveram, um grande momento na vida deles. Aliás, talvez o grande momento seja aquele ali, mostrado na peça, que nada mais é do que uma travessia”.

Uma harpa em cena

Uma característica bastante particular de “Os Que Vêm com a Maré” é a presença, em cena, de uma harpista, Cecília Pacheco. Como já dito, executando a música ao vivo. Leonardo conta que conheceu a musicista quando atuou na montagem da ópera “Matraga”, da Fundação Clóvis Salgado (FCS). A montagem, levada aos palcos do Palácio das Artes no ano passado, foi, claro, baseada no conto “A Hora e Vez de Augusto Matraga”, de Guimarães Rosa, com adaptação de Rufo Herrera. E contava com a presença da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

A harpista em cena: "Os Que Vêm com a Maré" (Tati Motta/Divulgação)
A harpista Cecília Pacheco em cena: “Os Que Vêm com a Maré” (Tati Motta/Divulgação)

Acontece que a belo-horizontina Cecília é uma das integrantes da OSMG. “Logo depois, no mês seguinte (ao encerramento das récitas de “Matraga”), comecei os trabalhos de direção de ‘Os Que Vêm com a Maré’. E, ali, senti que seria interessante ter uma musicista isolada, na ilha (onde a trama transcorre). Uma só figura, que tocasse um instrumento. E a harpa me pareceu se encaixar bem naquele lugar”.

Cenário

Na avaliação de Leonardo, a harpa é um instrumento que evoca um quê de mar, “de vento e de praia”. “A sonoridade é muito boa, se apresenta de forma sutil e profunda. Então, convidei a Cecília para também fazer a primeira composição dela. E está super bonito o que ela está fazendo, super se encaixando à cena, servindo a ela”, avalia Leonardo. Em decorrência, no que tange ao cenário, o diretor admite não ter visto sentido em ter algo além de um grande tapete que conceitualmente lembra uma praia, junto à harpa.

Aliás, o cenário foi pensado por ele e Luciano Luppi. “A gente se inspirou na ideia de beira do mar, naquela textura da areia molhada, para criar um tipo de espuma que remetesse a isso. E, assim, a gente construiu uma reta que, na verdade, é como se fosse uma ilha ali, que está planando sobre o chão branco do teatro. Portanto, um espaço limitado. Os atores trabalham numa linha reta, e é só isso”.

Negação

Mesmo porque, Leonardo pondera que o importante é mesmo a narrativa. Aliás, ele conta que o que o fisgou no texto (“e que acho que pode ficar na cabeça do espectador, como uma reflexão”), é a presença de um certo sentimento de negação. “O texto mostra o quanto a gente às vezes coloca algo na frente por não conseguir enxergar a verdade, enxergar as próprias fragilidades. Às vezes, a gente não quer. Mas às vezes a gente não sabe ou nem tem a ideia de que não sabe. E na peça isso fica claro, ou seja, que os personagens estão confusos. Não sabem lidar com o que está acontecendo ali. E a peça também tem um quê de fazer, dessa travessia, um evento muito grande”.

Sobre o simples

Leonardo Fernandes explana que a dramaturgia de “Os Que Vêm com a Maré”, de certa forma, o conduziu – como leitor, inicialmente – a um lugar que se configura quase como anacrônico e dissociado aos tempos atuais. “Refiro-me a esses tempos de internet, nos quais parece que o mais importante é aparecer muito chique, fazendo coisas que ninguém faz. Floreando ao máximo uma vida que nem sempre é real. Na minha opinião, essa peça vai no sentido contrário. É sobre o simples. E me fez muito bem trabalhar esse simples”.

Os personagens, prossegue o diretor, são pessoas simples. “O lugar no qual eles estão é simples, a história é simples. Então, a cenografia é simples. Ou seja, reforçar esse lugar de um espetáculo simples, acho que é a força da encenação. E entendo que é nesse ponto que ela pode tocar”.

Elenco

Instado a falar sobre o elenco, Leonardo Fernandes ressalta ser composto por pessoas com as quais já trabalhou. Vanessa Machado, por exemplo, ele dirigiu em “Enquanto Estamos Aqui”. Já Luciano Luppi participou do elenco da já citada montagem operística “Matraga”. “Foi um presente conhecê-lo, porque é um ator que tem 50 anos de carreira e é de uma entrega, e ao mesmo tempo de uma escuta e de uma generosidade para trabalhar, imensas. Com cinco décadas de trajetória, é multigeneroso na hora em que é dirigido. E aberto, sabe? Sem defensivas. Numa entrega absoluta, assim, muito interessante. Muito inspirador. Então, é um acerto muito grande, para a vida reunir esse elenco, no sentido de que é um grupo com o qual dá vontade de trabalhar em milhares de outras peças”. Abaixo, Luppi em foto de Tati Motta (Divulgação)

Figurino

O figurino de “Os Que Vêm com a Maré” é de Rosina Lobosco, que foi figurinista de “Pérola, o Filme”, no qual, sob a direção de Murilo Benício, Leonardo Fernandes interpretou o saudoso dramaturgo Mauro Rasi (1949 – 2003). O longa é protagonizado por Drica Moraes, como a mãe de Rasi. “A Rosina é do Rio de Janeiro e veio para cá especificamente para executar esse figurino. Ela o desenhou, todo. E as roupas também passaram por uma pintura que ela mesmo fez. A presença da Rosina foi um presente imenso. Ela tem um histórico muito legal, trabalhou na Globo durante dez anos e fez, por exemplo, o figurino da série ‘Bom Dia, Verônica’, além do ‘Pérola'”. Cumpre frisar que, na trilogia, Rosina também assina o figurino do solo “Frankenstein – Fragmentos da Guerra”.

Abaixo, Luciano Luppi e Ivana Andrés em cena do espetáculo (Tati Motta/Divulgação)

“A Grande Onda de Kanagawa”

Neste espetáculo de dança, já em cartaz, Leonardo enfatiza o talento dos bailarinos, Eliatrice Gischewski e Samuel Samways. E lembra que, na verdade, já vem trabalhando com a dançarina em uma sequência de projetos. “A Eliatrice fez comigo a preparação do ‘Cachorro Enterrado Vivo’, depois, a de ‘Neblina’ (também texto de Roveri, com direção de Yara de Novaes e, no elenco, junto a ele, Fafá Rennó). Depois, fez a preparação – e foi minha assistente de direção – em (no espetáculo infantil) ‘O Sonho das Pérolas’, e, tal qual, a preparação de ‘Enquanto Estamos Aqui’ e, agora, também de ‘Os que Vêm com a Maré'”.

Eliatrice Gischewski e Samuel Samways em foto do espetáculo de dança (Tati Motta/Divulgação)

“Agora, eu a dirigi pela primeira vez. E, além disso, ela assumiu a direção de ‘Frankenstein – Fragmentos da Guerra’. Na verdade, é a primeira vez dela nesta função. A Eliatrice e o Samuel têm uma pesquisa juntos. E, neste caso, também convidei o músico Thiago Miotto para estar em cena tocando alguns instrumentos orientais e, da mesma forma, entoando uns cânticos bem, bem, bem bonitos”. O cenário, acrescenta Leonardo, usa parte da cenografia de “Os Que Vêm Com a Maré”.

Luz

No quesito iluminação de “A Grande Onda de Kanagawa”, Leonardo Fernandes aponta que um aspecto interessante foi o desafio com o qual Wladimir Medeiros teve que lidar. No caso, pensar a luz de dois espetáculos com o mesmo kit. “Porque o de dança tem início às 20h, e, a peça, às 21h. Então, é meio que a mesma luz para dois espetáculos. Ou seja, precisava ser criativo, a ponto de conseguir uma luz interessante. Com um número de refletores que seria usado só para uma montagem, ele vai usar em duas. Teve muita coisa que a gente dialogou, até de marcação de um espetáculo para o outro, para facilitar essa composição da luz. Mas o Wladimir é um iluminador que sempre trabalha comigo. Um grande profissional, que trabalhou com o Galpão durante muito tempo, enfim”.

"A Grande Onda de Kanawa" (Tati Motta/Divulgação)
Mais um momento de “A Grande Onda de Kanagawa” (Tati Motta/Divulgação)

Serviço

A Grande Onda de Kanagawa”

Duração: 45 minutos

Classificação: 14 anos

Datas e horários: 26 de junho a 8 de julho de 2024, quarta a segunda, às 20h.

Onde. Teatro II – CCBB BH (Praça da Liberdade, 450)

Ingressos: R$ 30,00 (inteira) e R$ 15,00 (meia entrada) / Venda: site ccbb.com.br/bh e pela bilheteria do CCBB BH. Ingressos liberados semanalmente para as sessões da semana seguinte. Clientes Banco do Brasil pagam meia-entrada.

OBS.: Não haverá tolerância de 10 minutos para o início do espetáculo.

Os que Vêm com a Maré”

Duração: 50 minutos

Classificação: 14 anos

Datas e horários: 27 de junho a 08 de julho de 2024, quarta a segunda, às 21h.

 Local: Teatro II – CCBB BH – Praça da Liberdade, 450 – Funcionários – Belo Horizonte (MG)

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada) / Venda: ccbb.com.br/bh e pela bilheteria do CCBB BH. Clientes Banco do Brasil pagam meia-entrada.

OBS.: Não haverá tolerância de 10 minutos para o início do espetáculo.

“Frankenstein – Fragmentos da Guerra”

Duração: 50 minutos

Classificação: 14 anos

Datas e horários: 10 a 22 de julho de 2024, quarta a segunda, às 20h.

Local: Teatro II – CCBB BH (Praça da Liberdade, 450)

Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia entrada) / Venda: site ccbb.com.br/bh e bilheteria do CCBB BH. Clientes Banco do Brasil pagam meia-entrada.

    OBS.: A venda de ingressos será para a temporada inteira e não semanal.

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