Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Peça “Leão Rosário” celebra o talento de Adyr Assumpção

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“Leão Rosário” festeja os 50 anos de carreira de Adyr Assumpão; solo fica em cartaz até 22 de abril, no Teatro II do CCBB BH

A obra “Rei Lear”, de William Shakespeare, foi o ponto de partida para a dramaturgia do novo espetáculo do ator, diretor, escritor, roteirista e produtor Adyr Assumpção. Outra inspiração veio do universo de Arthur Bispo do Rosário. Assim, reunindo todas essas influências, o solo “Leão Rosário” estreia nesta quinta-feira, dia 21 de março, no Teatro II do CCBB BH. A montagem fica em cartaz até 22 de abril.

Desse modo, “Leão Rosário” é uma tragédia teatral cuja história se passa em uma África atemporal. A narrativa mescla elementos de povos, países e reinos africanos para formar o Reino de Oió, Ifé e Benguela, na costa atlântica da África. A trama tem início quando o velho rei decide dividir o vasto império entre as filhas. No entanto, deixa a maior parte para aquela que mais o ama. E, por vaidade, toma uma decisão insensata que terá trágicas consequências.

Adyr Assumpção, que festeja 50 anos de carreira com "Leão Rosário" (Pablo Bernardo/Divulgação)
Adyr Assumpção, que festeja 50 anos de carreira com "Leão Rosário" (Pablo Bernardo/Divulgação)

Reflexão sobre o tempo

A obra “Rei Lear”, na qual a montagem foi inspirada, reflete, entre outros aspectos, sobre o envelhecimento. Ao ser associada à personalidade de Bispo do Rosário, o texto reforça a situação dos mais velhos na sociedade atual. Tal qual, a memória africana, as heranças simbólicas, a criatividade e, principalmente, os limites da sanidade. A construção de “Leão do Rosário”, ressalte-se, tem ainda, como referência, os dramaturgos Wole Soyinka e Abdias do Nascimento. Nomes que, partindo das estruturas canônicas da tragédia, recriaram, no teatro, aspectos determinantes da cultura das respectivas sociedades, tanto na África quanto no Brasil.

Flerte com Shakespeare

Adyr Assumpção conta que a estreia dele no teatro foi interpretando o personagem Puck na peça “Sonho de uma Noite de Verão”. “Ao longo de toda a minha carreira, já flertei muito com a obra de Shakespeare. Então, é muito representativo celebrar 50 anos de atuação com uma obra que teve como inspiração um dos mais emblemáticos textos dele. Apesar de não ser uma versão da obra dele, o espírito shakespeariano está presente em ‘Leão do Rosário’, ao lado de outras referências importantes para a minha trajetória como artista”, destaca Adyr.

Rei Lear + Bispo do Rosário

Assim, o mote para a criação da dramaturgia se confunde com a própria trajetória do artista. Inicialmente pensada como um musical, a ideia se transformou para dar vazão a uma outra dinâmica. Deste modo, a história mistura a potência dos universos de Rei Lear e de Arthur Bispo do Rosário. Aliás, vale dizer que Assumpção teve a oportunidade de conhecer e conviver com Bispo do Rosário, durante os anos 80. Foi no período em que Adyr fez parte do coro do Teatro Oficina, na época da reabertura, com o retorno de José Celso Martinez Corrêa (1937 – 2023) do exílio.

Nesse sentido, a dramaturgia proposta para “Leão Rosário” visa abordar temas que exploram pautas de inclusão, promovendo reflexões vistas como urgentes e necessárias há décadas, Desse modo, abarca questões políticas, raciais e ideológicas. “Apesar de tratar de temas muito duros, o espetáculo consegue ser muito afetuoso com o público”, destaca Adyr. Em tempo: a direção da peça é de Eduardo Moreira, enquanto a direção musical, de Ernani Maletta. Cenografia de Jorge dos Anjos, Lúcio Ventania e Eliezer Sampaio. Do mesmo modo, a trilha sonora original é de Heberte Almeida, bem como a preparação corporal, de Camilo Gan.

Sinopse

Em uma África atemporal, no Reino de Oió, Ifé e Benguela banhado pelo Atlântico, um velho rei, Leão Rosário, quer se retirar de suas obrigações. Assim, reparte o império entre as três filhas. Todavia, a maior fica para aquela que mais o ama. Daí, as mais velhas, Makeda e Akosua, com adulações e falsas afirmações, dizem que o amam acima de tudo. Já Agotimé toma uma atitude surpreende que enfurece o rei. Daí, ele deserda e expulsa a filha. Ela parte e se casa com o Rei das Florestas.

Portanto, Leão Rosário divide o reino entre Makeda e Akosua, mas com uma condição: morar com cada uma, em ciclos mensais. No caminho do rei surgem Sundiata, que passa a servi-lo, e Sotigui, griot que procura acordar a consciência do rei. No entanto, em meio a isso, Makeda tece uma trama para obter o poder total. E, junto a Akosua, acaba por abandonar o pai à própria sorte. Atormentado, Leão Rosário perambula, enquanto invoca os elementos da natureza e conversa com vozes e objetos.

Sobre Adyr Assumpção

Adyr Assumpção é ator, diretor, escritor, roteirista e produtor, graduado em Artes Cênicas pela UFMG e Mestre em Artes pela UNICAMP. Iniciou sua carreira há 50 anos, como ator em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare. Seu mais recente trabalho como diretor e dramaturgo foi o espetáculo “Sortilégio: Mistério Negro de Abdias Nascimento”, na abertura da exposição do Quarto Ato “O Quilombismo: Documentos de uma Militância Pan-Africanista”, do Instituto Inhotim.  

Em outubro do ano passado, estreou no Festival do Rio o filme “Coro do Te- Ato”, que conta o início de sua trajetória como ator do Coro do diretor Zé Celso Martinez. Adyr criou e integrou o Grupo de Teatro Kuzala durante uma década, responsável por espetáculos, como “Tatuturema”, de Sousândrade, e “Círculo de Giz Caucasiano”, de Bertold Brecht. Desde então, atuou, dirigiu e produziu mais de uma centena de produções, incluindo cinema, televisão, web e artes cênicas. Foi curador e diretor artístico do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte, o FAN, e produtor do Festival Internacional de Teatro – FIT-BH.  Além dos trabalhos citados acima, fez recentemente a direção do “Quilombo de Bach” para o Projeto !PULSA! Movimento Arte Insurgente (2023). Atuou na série “Colapso”, produção Quarteto Filmes (2023), e também fez parte do filme “O Silêncio das Ostras”, com direção de Marcos Pimentel (em finalização).

Ficha Técnica

Concepção, dramaturgia e atuação: Adyr Assumpção

Direção: Eduardo Moreira | Assistente de direção: Letícia Castilho

Personagens:

Leão Rosário- Rei de Oió, Ifé e Benguela – Adyr Assumpção

Vozes (Elenco secundário):

Makeda – Michelle de Sá

Akosua – Elisa de Sena

Agotimé – Iasmim Alice

Sundiata – Eduardo Moreira

Sotigui – Ernani Maletta

Rei das Matas – Reibatuque

Serviço

Espetáculo “Leão Rosário”

Data: de 21 de março a 22 de abril, de sexta a segunda, às 19h

Onde. Teatro II – Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte (Praça da Liberdade, 450, Funcionários)

Quanto. R$ 30 inteira e R$15 meia. Vendas: pelo site do equipamento e pela bilheteria do CCBB BH

Classificação indicativa: 12 anos

Duração: 60 minutos

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