30 jan 2018

Lá da Favelinha completa três anos de revolução cultural

 

Desde que o Centro Cultural Lá da Favelinha nasceu na Vila Novo São Lucas a rotina e a vida dos moradores não são mais as mesmas. O simples andar pela rua hoje já é diferente. Um tímido espaço colorido chama a atenção de quem passa por lá. Pelo tamanho poderia ser confundido com um bar. O grafite na parede e a placa não deixam dúvida de que no local vidas são transformadas por meio da cultura e arte.

Foi há três anos, em janeiro de 2015, que uma pequena revolução se instalou no número 191 da rua Doutor Argemiro Resende Costa. Foi pela manifestação popular, pelo direito de ocupar, pelo acesso à cultura, pela economia local, pelo esforço coletivo e pelo desejo de um futuro melhor, que se formou uma nova quadrilha na favela.

 

 

O mentor

Chefiada por Carlos Eduardo dos Anjos, conhecido como Kdu dos Anjos, 27 anos, o Lá da Favelinha contrariou estatísticas e expectativas do aglomerado, usando uma única arma: a educação. Cansado de ver o aglomerado ser manchete nas páginas policiais, Kdu resolveu que era hora de mudar a realidade e a história dos cinco mil moradores da Vila.

“Após seis tentativas frustadas em ser uma lanchonete meu pai pensou transformar o imóvel em um bar. Mas com o desejo de fazer algo novo abri uma biblioteca. Em seguida, começamos com as oficinas de rap. Logo o projeto se tornou popular na comunidade, crescemos e viramos um Centro Cultural. Algo que eu não esperava”, explica Kdu dos Anjos.

De lá pra cá muita coisa mudou. Atualmente o espaço oferece oficinas gratuitas de inglês, espanhol, canto, violão, teatro, corpo e movimento, comunicação, troca de saberes, capoeira, ritmo e poesia, ballet, passinho, artesanato, percussão, acroyoga e stencil. São 20 voluntários que atendem regularmente 80 pessoas, entre crianças, adolescentes, jovens e adultos.

 

DJ Kdu dos Anjos foto Midia Ninja

 

Disco

O Lá da Favelinha lançou o primeiro disco “MCs da Favelinha – Volume 1” durante o Verão Arte Contemporânea 2018. O projeto reuniu 23 artistas do aglomerado, entre compositores e cantores. Ao todo, 13 faixas de rap, funk e funk pop estão reunidas no álbum. Nas letras os artistas falam sobre a vida na comunidade, política e igualdade.

Foi por meio da música, mais precisamento do rap, que a vida de Alex Barbosa Rodrigues de Morais, conhecido pelo nome artístico de Taík, de 19 anos, mudou. “Conheci o Centro Cultural há três anos. Quando cheguei aqui tinha brigado com a minha família, estava meio perdido na rua e me envolvi nas correrias do morro. Quando conheci a Favelinha já fazia música, mas estava meio sem foco. Me incentivaram a estudar, me deram uma moral. Eu guardei cada palavra e descobri que para mudar era preciso força de vontade”, relembra Taík.

Outra recém conquista do Lá da Favelinha é a criação do Bloco Já é Sensação. Em parceria com a produtora A Macaco o projeto surge para embalar o carnaval com muito funk. Uma proposta para os foliões da capital mineira, um espaço de pertencimento para os integrantes da comunidade, um bloco de muito amor e respeito. Uma parceria que Kdu garante que é o reconhecimento aos artistas da Vila e do trabalho musical realizado no espaço.

 

 

Projetos vitoriosos

Outro projeto que começou no Lá da Favelinha e ganhou destaque na cidade inteira são as Disputas Nervosas, também conhecida como duelo de passinho. “A disputa surgiu a partir do momento em que começamos com as aulas de rap e passinho no espaço. Identificamos que não havia nada parecido. O que acontecia era um evento do tipo na virada cultural, mas isso só não bastava. Então, criamos a Disputa Nervosa para fazermos entre nós, todo mês. Mas o negócio deu certo e hoje já realizamos edições nacionais”, conta Kdu.

O Favelinha Fashion Week é outro destaque. Um desfile criado na comunidade para promover as marcas locais e os produtos do Favelinha Shopping. O projeto foi até tema de trabalho de conclusão de curso da jornalista Thaís Milani. Denominado “Favelinha Fashion Week a construção da visibilidade de grupos periféricos através da moda“, o estudo investigou o modo como campos da comunicação, moda e cultura se articulavam em contextos chamados de periféricos. Thaís pode identificar que o desfile ajudava os moradores da comunidade a ter visibilidade e manifestar sua diversidade cultural na sociedade.

Carla Santos, moradora da vila, viu nas oficinas de moda ministradas pelo Sebrae no Centro Cultural uma maneira de se reinventar. Ela deixou de lado as faxinas para se tornar estilista e costureira. Junto com Kdu, é a responsável pela fabricação das roupas Remexe. A ideia é reaproveitar peças doadas e recriar novas  com identidade do Lá da Favelinha.

“Eu era diarista, depois do curso, em julho do ano passado, aprendi a costurar, montamos a marca e minha vida mudou. Agora a ideia é colocar mais pessoas da comunidade para trabalhar na marca”, conta Carla.

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Sustentabilidade

Sem o apoio do governo ou de algum patrocinador, o Lá da Favelinha caminha sempre com as próprias pernas. Tudo é mantido por meio de um financiamento coletivo recorrente, ajudas de parceiros, venda dos produtos da Favelinha Shopping, dos artistas e eventos.

“Estou muito feliz em ver todo o movimento que se formou e torno do Lá da Favelinha. Vejo que as sementes que foram plantadas estão sendo colhidas. Não tem presente melhor do que ver que uma criança que ia mal na escola que agora vai bem. Que tinha um adolescente que era do crime e hoje é cantor”, relata Kdu com os olhos cheios de água.

A adolescente Nicole Alves participa das oficinas de dança e canto. “Minhas notas na escola melhoraram. Minha mãe dizia que eu vivia na rua, agora que vivo no Centro Cultural. Hoje me sinto mais aberta e feliz”, relata Nicole. Assim como ela, a vida da pequena Aninha, que vive agarrada com Kdu, também mudou. Ele conta que o desempenho escolar dela aumentou e o relacionamento com a família ficou melhor.

“Amo o que faço”

O jovem de 27 anos, que é referência não só para a comunidade, mas também para a cidade, acredita que a cultura, educação e arte tem o poder de mudar as pessoas, por isso luta para a manutenção do Lá da Favelinha. “Venho de projetos sociais. Quando criança tinha aulas de teatro, marcenaria e violão. Eu sentia falta de que a nova geração tivesse ocupações e referências fora do tráfico”, relata.

O resultado do esforço de de Kdu pode ser notado até nos noticiários e na ocupação de espaço da cidade. “Hoje a gente tá na mídia e a Favelinha saiu do caderno policial para ocupar espaços de cultura e moda. Projetos do Centro Cultural já foram aprensentados em vários bairros de Belo Horizonte e até nas comemorações dos 120 anos da cidade. Isso sim é revolução”, completa Kdu. O jovem ainda roforça que é notável o empoderamento comunitário, as pessoas começam a perceber que podem ir além e fazer escolhas que superam o que é imposto socialmente.

Kdu está animado com tudo que o “Lá da Favelinha” conquistou em apenas três anos. Tem muito mais por vir. Além de outro CD, a Disputa Nervosa vai para oito estados brasileiros. “Fico muito feliz com isso tudo. Eu, sem o Lá da Favelinha, seria um MC frustado ou só mais um que teria que trabalhar em subempregos que não me agradariam. Só tenho que agradecer! Gosto dessa missão Robin Hood, que tira a comunidade das páginas policias para as culturais. Amo o que faço”.

 

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