Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Dramaturgia de “King Kong Fran” ganha registro em livro

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Chancelado pela Editora Cobogó, o livro “King Kong Fran” documenta a dramaturgia da peça-sensação, criada por Rafaela Azevedo e Pedro Brício

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Dentro de uma jaula, a “bordo” de um patinete, ao som de uma música de suspense e com uma máscara de gorila, Fran se apresenta ao público. É dada a partida para “King Kong Fran”, espetáculo que tem lotado teatros Brasil afora – inclusive na capital mineira. Por trás da iniciativa, está a atriz, palhaça, pesquisadora e diretora Rafaela Azevedo e o diretor e dramaturgo Pedro Brício, autores do texto do espetáculo que, agora, ganha registro em livro. “King Kong Fran” (Editora Cobogó, 72 páginas) tem orelha assinada por Letrux e textos adicionais dos dois autores, bem como da filósofa Viviane Mosé, sobre os quais falaremos mais adiante.

A atriz Rafaela Azevedo em cena de "King Kong Fran", cujo texto está agora em livro (Nanda Carnevali/Divulgação)
A atriz Rafaela Azevedo em cena de "King Kong Fran", cujo texto está agora em livro (Nanda Carnevali/Divulgação)

É óbvio que o teatro só se constrói com o público presente – ainda que, no curso da pandemia da Covid-19, a plateia tenha sido predominante virtual. No presencial, pois, se dá a plena fruição. Mas o registro em livro é uma forma potente de assegurar a vida da dramaturgia no pós-encenação. Seja como marcador do espírito de uma época seja como evidência da atemporalidade de alguns textos. Aliás, no caso de King Kong Fran, há tanto referências que os espectadores evidentemente vão relacionar a tempos recentíssimos quanto questões atemporais. Sobretudo, essas.

Presença feminina no circo ao longo da história

Ao tomar como ponto de partida a exibição de mulheres que não cabiam no esquadro da dita “normalidade” (no caso, uma mulher com pelos), Rafaela convida o leitor (originalmente, e prioritariamente, o público) a pensar como no próprio ambiente circense a mulher foi, no curso da história, objetificada em muitos números. Quando era “cerrada ao meio”, por exemplo, ou alvo do atirador de facas. Em contrapartida, objeto de vilipêndio verbal – e do riso pérfido – quando não se encaixava nos padrões – caso da Mulher Gorila ou da Mulher Barbada.

Convite? Alto lá!

No palco, Rafaela, ou melhor, Fran, subverte o status quo e chama homens da plateia para que – com a devida anuência, claro – se coloquem em situações pelas quais as mulheres, mundo afora, acabam sendo, diretamente ou não, obrigadas a lidar. Assim, brinca que se o espectador do sexo masculino está com botões da camisa aberta, só pode ser para provocar o mulherio (ironia, por favor). “Isso é código”, diz uma fala da personagem, numa óbvia alusão ao fato de muitos homens interpretarem como “um convite” a eles o fato de uma mulher trajar determinada peça de roupa que porventura deixe parte do corpo mais à mostra.

Do mesmo modo, ela brinca com o clássico filme “King Kong” (que, vale lembrar, já teve três versões, além de derivados), ao esmiuçar a personagem feminina, que é encaminhada como oferta ao animal. Mas há partes mais contundentes, como o pedido de desculpas do dono do circo emendado com o argumento – cada vez mais recorrente – de que ele estaria em processo de desconstrução (o que, hipoteticamente, na visão dele, amainaria o ato que o precedeu). Sem dúvida alguma, o mais visceral é a simulação da colocação de um comprimido na bebida.

Corpos femininos

Para assumir as vestes de Fran, Rafaela se vale também de sua formação como palhaça. Não por outro motivo, impossível, neste momento em particular, tão próximo do fato, não pensar na venezuelana Jullieta Hernández, falecida no final do ano de 2023, vítima de um crime bárbaro e inenarrável, por ser mulher. Julieta, como todo mundo que acompanhou o noticiário sabe, era também a palhaça Jujuba, e, após correr o país, voltava para sua cidade, na Venezuela, onde se reuniria novamente com a mãe. O fato do sonho dela ter sido abortado com tamanha violência mostra o quanto iniciativas como “King Kong Fran” são necessárias.

Da mesma forma, fatos recentes envolvendo mulheres célebres brasileiras, vítimas de comentários violentos (muitos deles provenientes de outras mulheres envolvendo gordofobia e etarismo) comprovam o mesmo. Há que se falar sobre o assunto, seja pelo viés que for. A graça, aqui, não está a serviço do riso fácil (ressalve-se, sem deméritos). Ao contrário, quer provocar e deixar algumas reflexões a serem digeridas depois, com calma e tempo.

Capa do livro "King Kong Fran", lançado pela editora Cobogó, dentro da Coleção Dramaturgia (Kulturalis/Divulgação)
Capa do livro “King Kong Fran”, lançado pela editora Cobogó, dentro da Coleção Dramaturgia (Kulturalis/Divulgação)

Rafaela Azevedo

Rafaela Azevedo é, como citado no início da matéria, atriz, palhaça, diretora e pesquisadora. É a idealizadora de “King Kong Fran”, sucesso de crítica e público no teatro — do qual é intérprete solo, codiretora e codramaturga – indicado ao Prêmio do Humor 2023 nas categorias Melhor Performance, Melhor Espetáculo e Melhor Direção. Rafaela também é integrante do canal de humor Porta dos Fundos. No Instagram, como @fran.wt1, soma cada vez mais seguidores com uma personagem anarquista que inverte a relação do machismo.

Assinou a direção e a dramaturgia dos espetáculos “Não aprendi dizer adeus”, de Bárbara Salomé, considerado uma das 25 melhores peças de 2022 pela Folha de S. Paulo. Do mesmo modo, a de “Ira do afeto”, de 2023, da atriz Débora Veneziani. É idealizadora e diretora do Laboratório Estado de Palhaça e Palhaço, escola que difunde a técnica da palhaçaria.

Serviço

“King Kong Fran” – Editora Cobogó

Capa e ilustrações: Juliana Montenegro

Formato: 13 x 19 cm

Número de páginas: 72

Preço: R$ 52

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