Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Primeira década da produção de Joel Zito Araújo é tema de mostra em BH

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“Joel Zito Araújo: Uma Década em Vídeo” tem início nesta quarta, 24 de abril, e segue até 3 de maio, em três espaços da cidade

Patrícia Cassese | Editora Assistente

A partir desta quarta-feira, 24 de abril, três espaços culturais de Belo Horizonte passam a receber a mostra “Joel Zito Araújo: Uma Década em Vídeo”, que, como o próprio nome indica se debruça sobre a produção de um dos mais importantes cineastas brasileiros contemporâneos. No entanto, a iniciativa, que se estende até o dia 3 de maio, traz um recorte particular: a primeira década de produção audiovisual do mineiro (de Nanuque), que, neste 2024, completará 70 anos de vida (precisamente, em novembro).

Joel Zito Araújo, que ganha homenagem em mostra que se inicia nesta quarta-feira, em BH (Edison Vara/Divulgação)
Joel Zito Araújo, que ganha homenagem em mostra que se inicia nesta quarta-feira, em BH (Edison Vara/Divulgação)

Com curadoria e realização dos cineastas Álvaro Andrade e Vinícius Andrade, a mostra está dividida em três campos temáticos. Primeiramente, “Vanguarda das Lutas: Mulheres Negras na Conquista de Direitos”. Na sequência, “Movimentos Negros: Faces de uma Luta Coletiva” e, por fim, “Das Fábricas às Ruas: Memória e Atualidade das Lutas Trabalhistas no Brasil”.

Roda de conversa

De início, as sessões terão vez no Centro Cultural Vila Santa Rita, nos dias 24 e 25 de abril, a partir das 17h30. Na sequência, no Cine Santa Tereza, de 26 a 28 de abril, bem como com direito a uma aula magna de Joel Zito Araújo, a ser ministrada em 26 de abril, às 19h, e à presença de intérprete de libras. A roda de conversa trará também o grupo de pesquisa Poéticas da Experiência. Na data, também será lançado o catálogo da mostra. Por fim, a iniciativa chega ao Centro Cultural Zilah Sposito, nos dias 2 e 3 de maio. Cereja do bolo: toda a programação é gratuita.

O projeto é realizado com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, por meio do Edital BH nas Telas, na modalidade Fundo. Todas as sessões da mostra serão comentadas e terão, como debatedores, os pesquisadores Ewerton Belico, Alessandra Brito, Nicole Batista e Edinho Vieira.

Para falar mais sobre a homenagem, a reportagem do Culturadoria conversou com Joel Zito Araújo. Confira, a seguir, alguns trechos.

Recorte da mostra

Joel Zito Araújo conta que foi “um choque agradável”, ao se referir ao fato de ter encontrado pessoas que se dispuseram a organizar o que ele produziu no recorte proposto – ou seja, a primeira década de produção dele. “Assim, não só exibir (os filmes), como também ter buscado alguns dos meus parceiros da época, colher opiniões sobre o processo… Enfim, foi muito importante, até mesmo porque estou num período de muita atividade, sem muito tempo, pois, para organizar o meu próprio trabalho, os títulos da minha trajetória”.

Na verdade, ele diz que, a partir do momento em que foi se tornando mais conhecido e respeitado Brasil afora, foram aumentando as oportunidades de fazer cinema. “Então, nos últimos dez anos, estou trabalhando em um filme atrás do outro”. Ou seja: “Desse modo, acabo ficando cada vez mais distante de poder ter, digamos, um certo cuidado com a memória da minha caminhada, com aquilo que produzi. Então, essa iniciativa é muito bem-vinda, muito importante. Aliás, eles (os curadores e realizadores citados) inclusive localizaram filmes os quais eu não tinha mais acesso, que estavam em outros lugares. Ou seja, estou muito agradecido aos curadores”, enfatiza.

Denominador comum

Perguntado se percebe algum denominador comum entre os filmes selecionados para a mostra “Uma Década em Vídeo”, Joel Zito Araújo responde de pronto: “Bem, o que acho que existe de muito forte em todos eles é o enorme laço que estabeleço com movimentos sociais brasileiros. No caso, inicialmente com o movimento sindical”, pontua. Assim, lembra o cineasta, as primeiras obras da trajetória estão muito coladas (termo por ele usado) ao movimento sindical, especialmente no caso de “Nossos Bravos” (1987) e “Memórias de Classe” (1989). “No entanto, já com ‘Nossos Bravos’ eu começo a entender a importância de produzir filmes, vídeos, com a temática racial, do racismo brasileiro”, conta.

Temática racial

Assim, num segundo momento desta primeira década de produção, o próprio Joel Zito Araújo se viu mais norteado por este viés. “Veja, eu nunca me declarei como parte do movimento negro. Porque, efetivamente, eu nunca fui. Eu nunca integrei, por exemplo, o Movimento Negro Unificado (MNU) ou outras organizações. Mas fui sempre um grande companheiro de jornada. E isso me permitiu grandes amizades, grandes parcerias”.

Joel Zito cita, por exemplo, na Bahia, “o pessoal do Olodum, do Ilê Ayê”. “Assim como, em São Paulo, o Geledés e o Centro de Estudo das Relações de Trabalho e Desigualdades. E por aí afora. Quer dizer, eu fui tendo vários parceiros importantes nesses primeiros dez anos de produção. Pessoas que fizeram a minha cabeça, que ajudaram na minha formação. E nessa segunda fase desses dez anos, eu fui mergulhando cada vez mais nas questões raciais. A partir dessa minha escuta, do que era demandado, do que precisava refletir, fui produzindo”.

“Eu, Mulher negra”

Nesse segundo momento, Joel Zito entende que o trabalho que desenvolveu inclusive alcança muitas especificidades do presente. “Por exemplo, eu tenho um trabalho que vejo que tem um certo ineditismo na discussão da questão da mulher negra, que se chama ‘Eu, Mulher Negra’ (1994). Um filme produzido em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP)”, aponta. A ideia, vale dizer, foi um desdobramento do projeto “Saúde Reprodutiva da Mulher Negra”, coordenado por (pela mineira) Elza Salvatori Berquó, “uma grande geógrafa”.

Assim, Zito lembra que, ao mesmo tempo que fala sobre a mulher negra, sobre a saúde da mulher negra, a produção também aborda outros temas, como os orixás. “E ele é narrado poeticamente por uma personagem interpretada pela Ruth de Sousa (1921-2019). Aliás, foi aí, inclusive, que eu conheci a Ruth, que me tornei amigo dela. E, assim, (foi aí) que começa a surgir a ideia de ‘A Negação do Brasil’ (2000) e, principalmente, de ‘As Filhas do Vento’ (2005)”.

Abaixo, frame de “As Filhas do Vento”, com Taís Araújo e Milton Gonçalves.

“A Exceção e a Regra”

Pouco depois, Joel Zito Araújo produziu outro filme que ele também entende como relevante nesse período do recorte da mostra: “A Exceção e a Regra” (1997). “É um filme que tem um elemento observacional muito forte. Acompanhar a luta de um trabalhador negro, num momento de resistência dele, ao ser vítima de racismo” (abaixo, frame do filme).

Neste filme, prossegue Joel, há um momento de encenação. “Ou seja, que não é típico do cinema direto. Mas sim, ele tem muito também de cinema direto. Na verdade, eu gosto muito desse filme. Enfim, todos esses trabalhos desse período têm como fio condutor essa minha proximidade com os movimentos sociais. Primeiramente com o movimento sindical, depois, com o movimento negro. Neste último caso, inclusive acompanhando as ondas dentro dele, especialmente a emergência da luta das mulheres negras”.

Nanuque

Em tempo: no segundo semestre deste ano, a mostra “Joel Zito Araújo: Uma Década em Vídeo” ganhará quatro edições na região que compreende o norte de Minas Gerais e o extremo sul da Bahia. Ou seja, a região onde Joel nasceu e viveu até a juventude.

Ao Culturadoria, Joel Zito Araújo confessa que se sente particularmente feliz com a itinerância. “Inclusive por incluir a região em que eu nasci, óbvio. Acho que o sonho da grande maioria dos artistas é ser reconhecido pelo seu próprio povo, pelos conterrâneos, pelas pessoas da sua terra, de sua cultura. Assim, fico extremamente agradecido por essa oportunidade”.

Programação Mostra Joel Zito Araújo

CENTRO CULTURAL VILA SANTA RITA – 24 E 25 DE ABRIL

Início: 24 de abril

Às 17h30 | Sessão Das Fábricas às Ruas: Memória e Atualidade das Lutas Trabalhistas no Brasil

“Nossos Bravos” (1987, 31 minutos)

“Memórias de Classe” (1989, 40 minutos)

“Homens de Rua’ (1991, 32 minutos)

*Debate com Alessandra Brito*

19h30 | Sessão Vanguarda das Lutas: Mulheres Negras na Conquista de Direitos

“Almerinda, Uma Mulher de Trinta” (1991, 25 minutos)

“São Paulo Abraça Mandela” (1991, 22 minutos)

“Eu, Mulher Negra” (1994, 31 minutos)

Qui | 25 de abril

17h30 | Palestra com Nicole Batista | O vídeo popular em sala de aula

Sessão 19h30 | Movimentos Negros: Faces de uma Luta Coletiva

“Alma Negra da Cidade’ (1991, 30 minutos)

“Retrato em Preto e Branco” (1992, 15 minutos)

“A Exceção e a Regra” (1997, 39 minutos)

*Debate com Edinho Vieira

CINE SANTA TEREZA – 26 A 28 DE ABRIL

Sex | 26 de abril

Às 16h30 | Sessão Vanguarda das Lutas: Mulheres Negras na Conquista de Direitos

“Almerinda, Uma Mulher de Trinta” (1991, 25 minutos)

“São Paulo Abraça Mandela” (1991, 22 minutos)

“Eu, Mulher Negra” (1994, 31 minutos)

*Debate com Alessandra Brito

Às  19h | Aula Magna de Joel Zito Araújo, em roda de conversa com o grupo de pesquisa Poéticas da Experiência e lançamento do catálogo impresso

Sáb | 27 de abril

19h | Sessão Das Fábricas às Ruas: Memória e Atualidade das Lutas Trabalhistas no Brasil

“Nossos Bravos” (1987, 31 minutos)

“Memórias de Classe” (1989, 40 minutos)

“Homens de Rua” (1991, 32 minutos)

*Debate com Ewerton Belico

Dom | 28 de abril

18h | Movimentos Negros: Faces de uma Luta Coletiva

“Alma Negra da Cidade” (1991, 30 minutos)

“Retrato em Preto e Branco” (1992, 15 minutos)

“A Exceção e a Regra” (1997, 39 minutos)

Faixa Bônus com material bruto de A Exceção e a Regra (1997, 28 minutos)

*Debate com Edinho Vieira

CENTRO CULTURAL ZILAH SPOSITO | 2 E 3 DE MAIO

Qui | 2 de maio

17h | Sessão Movimentos Negros: Faces de uma Luta Coletiva

“Alma Negra da Cidade” (1991, 30 minutos)

“Retrato em Preto e Branco” (1992, 15 minutos)

“A Exceção e a Regra” (1997, 39 minutos)

*Debate com Edinho Vieira

19h | Sessão Vanguarda das Lutas: Mulheres Negras na Conquista de Direitos

Almerinda, Uma Mulher de Trinta (1991, 25 minutos)

“São Paulo Abraça Mandela (1991, 22 minutos)

“Eu, Mulher Negra” (1994, 31 minutos)

*Debate com Alessandra Brito

Sex | 3 de maio

Às 17h | Palestra com Nicole Batista sobre aspectos do cinema de Joel Zito de Araújo

18h | Sessão Das Fábricas às Ruas: Memória e Atualidade das Lutas Trabalhistas no Brasil

“Nossos Bravos” (1987, 31 minutos)

“Memórias de Classe” (1989, 40 minutos)

“Homens de Rua” (1991, 32 minutos)

*Debate com Ewerton Belico

Serviço

Mostra Joel Zito Araújo: Uma Década em Vídeo

Datas, locais e horários:

24 e 25 de abril | Centro Cultural Vila Santa Rita | Rua Ana Rafael dos Santos, 149 – Vila Santa Rita
Dias 26 a 28 de abril | MIS Cine Santa Tereza | Rua Estrela do Sul, 89 – Santa Tereza
2 e 3 de maio | Centro Cultural Zilah Spósito | Rua Carnaúba, 286 – Zilah Sposito

Entrada gratuita


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