Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

[Crítica em Diálogo] Insetos: um olhar irônico sobre a sociedade

Por Carol Braga

15/10/2018 às 15:49

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Elisa Mendes / Divulgação

A montagem que comemorou os 30 anos da Cia dos Atores esteve em cartaz em Belo Horizonte entre os meses de setembro e outubro. Dando continuidade ao projeto de buscar um diálogo crítico com os artistas de teatro, convidamos os integrantes do grupo a responder o texto crítico. Assim, acreditamos colaborar para o desenvolvimento, inclusive, de um processo de pensamento sobre a cena. Agradecemos a disposição de todos para a conversa.

O texto que lerá em seguida, já tem os comentários incorporados. O que foi escrito por Carolina Braga está em preto e a Cia dos Atores responde em vermelho. Boa leitura!

 

Elisa Mendes / Divulgação

 

Crítica em diálogo: Insetos

A montagem de Insetos foi feita como parte das comemorações dos 30 anos da Cia dos Atores. Motivos para comemorar, de fato, não faltam ao grupo fundado por Enrique Diaz, Cesar Augusto, Drica Moraes, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto, Marcelo Valle, Susana Ribeiro, e Bel Garcia (in memoriam). Desde quando se uniram, na década de 1990 (nosso primeiro espetáculo foi apresentado no Festival da Primavera na Casa de Ensaio em 1988), oferecem a quem gosta de teatro trabalhos que ousam artisticamente, experimentam linguagens. É uma trajetória super bem-sucedida.

Carreira

Na lista das peças inesquecíveis que já vi do grupo estão, por exemplo, Melodrama (1995), que participou do FIT-BH e Meu destino é pecar (2002). Nesta montagem, a partir da dramaturgia feita com as crônicas de Suzana Flag (pseudônimo de Nelson Rodrigues)(na verdade não são crônicas e sim um romance, publicado em capítulos no jornal) os atores se revezavam nos papéis. Jamais me esquecerei desse troca-troca. A dinâmica conferia velocidade, marcante também pelo excelente trabalho dos atores, cheio de nuances. O mesmo pudemos observar em Ensaio.HAMLET (2004) e Conselho de Classe (2013).

Além dos espetáculos mencionados também apresentamos em Belo Horizonte A Bao A Qu (Um lance de dados) no Teatro Francisco Nunes em 1991 no Festival que, caso não estejamos enganados, foi no Festival de Inverno. Também apresentamos Notícias Cariocas, no Palácio das Artes numa mostra do CCBB, em 2004.

Um denominador comum em todas as peças é o jogo acelerado entre os intérpretes – gostaríamos de entender “acelerado” – acreditamos na ideia exponencial que envolve a platéia e ao mesmo tempo possibilitando que os intérpretes mudem a “chave” interpretativa criando diferentes camadas, e mesmo assim, dependendo da obra que esta sendo trabalhada, porque cada obra demanda uma abordagem específica sempre a partir de temas que despertam algum tipo de reflexão sobre a contemporaneidade. Em Conselho, por exemplo, o texto de Jô Bilac criticava abertamente o sistema escolar, a dificuldade de diálogo entre a geração de professores e alunos.

Nova montagem

Insetos, também tem texto de Bilac e direção de Rodrigo Portella. Há, igualmente, a presença de um jogo intenso entre os atores. No entanto, um caminho caricato na interpretação me distanciou mais do que despertou reflexão sobre o enredo contado. O “caricato” é um termo complicado para se referir a interpretação (se assim foi observado) mas não está nas nossas intenções artísticas. E não nos reconhecemos neste “lugar” neste trabalho. Para nós o que interessa é o jogo, a contracena, os argumentos que geram a “fricção” que se dá em cena. Seja através do argumento, seja através do corpo, seja através das intensões. No caso de INSETOS, a fábula nos permite transitar entre diferentes registros interpretativos e, sim, isso no interessa imensamente.

Fazem parte do elenco Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto e Susana Ribeiro. Como são todos atores experientes, penso se a opção por este registro não seria intencional. Se for, o que eles gostariam de ressaltar? Respondido, acredito, acima… Rs

O lúdico

De todo modo, a interpretação caricata (necessário entender melhor a atribuição  escolhida como  balizadora da crítica. O tom lúdico que perpassa pelo espetáculo, foi a forma que escolhemos para dar conta desta “tempestade prestes a desabar sem freio  sobre nossas cabeças”– existe um modulação vertiginosa durante o espetáculo e traçar a caricatura como padrão, não ajuda a aprofundar o elo entre a obra escrita, suas intenções e a encenação)  me deixou mais no presente do que no universo ficcional e hipotético que a montagem propõe. Em resumo: a conexão não se estabeleceu. Pelo menos comigo!

Reconheço o valor da discussão proposta, a importância de se debater os caminhos da nossa sociedade. No entanto, abriu-se um abismo entre nós (eu e a peça) e aí foi difícil acreditar nas abelhas, nos gafanhotos, nas baratas e demais personagens. Será essa uma questão mais complexa que poderia ser melhor trabalhada na dramaturgia? Complicado responder essa questão, que mais se revela como um desejo de assistir um outro espetáculo frente ao tema e as questões que envolvem o espetáculo.

Elementos que compõe a encenação, como o cenário de pneus – para além da relação imediata à Dengue – e a iluminação, não contribuem para expandir a mensagem do texto. Me pareceram escolhas mais estéticas do que funcionais à dramaturgia. Imagino que seria exercício da direção pensar de que modo os objetos utilizados poderiam conversar mais com as metáforas escolhidas. Idem. A única resposta a ser dada, neste sentido, é que todo trabalho foi dotado de profunda adequação ao tema, a peça, as inúmeras formas de articulação performativa, poética e teatral.

Sociedade dos Insetos

Outro dia ouvia um podcast sobre o livro Administração 3.0, de Carlos Nepomuceno. Ele defende a ideia de que, devido à alta densidade demográfica dos humanos, precisamos criar modelos de funcionamento da sociedade que se assemelhem ao modus operandi dos insetos. No caso das formigas, por exemplo, elas têm uma comunicação química que gera rastros. O que temos feito atualmente com notas de avaliação para pedidos de comida, de transporte e etc se assemelha a isso.

Ao ouvir, identifiquei um paralelo entre a teoria da gestão e o enredo proposto pelo espetáculo. Na peça, a natureza anda bastante desequilibrada o que gera excesso de conflito entre as espécies. Tudo começa com o êxodo das abelhas. Depois os gafanhotos estabelecem um regime tirano. Enquanto isso, baratas, besouros vivem em busca de novos sentidos para a existência.

Humor

Por fim, Insetos não me pareceu um espetáculo otimista. A opção pelo humor me soou como uma forma de zombar de nossa tragédia. Se a sociedade brasileira se encaminha para aquela organização, não nos restará muita alternativa a não ser fazer como as abelhas.

A peça nasce de um espelhamento… “Zombar”, mais uma vez, não acho o termo que nos parece adequado ao espetáculo. E porque ao zombar estaríamos menosprezando e diminuindo a importância do assunto abordado. Importante ressaltar que escolhemos o humor (uma das características da Cia.dos Atores) para abordar assuntos complexos sem pesar excessivamente, pois desta forma “distencionamos” a cena sem deixá-la panfletária ou maniqueísta. Estamos em “transito” e criamos uma lógica que não fosse apenas o olhar humano tão massacrado.

Insetos se matam e se beijam, são desbocados, morrem, se articulam, viciados em venenos inócuos, se protegem e tentam sobreviver frente ao caos. Acreditando num futuro mais possível, mesmo que, neste momento, em diásporas incomensuráveis. Nossos insetos, em meio a tudo isso são vadios, guerreiros e dentro deste universo político e fabular, vão “carregando a sua folhinha”, respeitando o outro mas também enfiando o “pé na porta”, acreditando que o recado está sendo dado mesmo que, infelizmente, sua visão tenha sido distanciada.

 

 

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