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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Impressões teatrais: Boca de Ouro e o teatro estético de Gabriel Villela

Por Carol Braga

19/03/2018 às 13:18

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© João Caldas Fº

Não estava em meus planos escrever sobre Boca de Ouro, a montagem com texto de Nelson Rodrigues e direção de Gabriel Villela. Como muita gente perguntou as minhas impressões no Facebook e Instagram, resolvi cometer este texto. Sim, comenter pois se trata, apenas, de um ponto de vista. A peça esteve em cartaz no fim de semana no Grande Teatro do Palácio das Artes.

 

Confesso que o cenário, também assinado por Gabriel, me impactou assim que entrei. Talvez essa primeira impressão tenha funcionado para o mal. Aumentou a expectativa. Sou realmente fã do trabalho do diretor. Acredito na capacidade que ele tem de criar encenações muito belas.

 

Nesse caso, Villela é feliz ao derrubar a quarta parede. Escolhe se aproximar da sátira, da farsa ao contar uma tragédia em tom carnavalesco. Ou seja, o tempo todo ele deixa muito claro para o público que se trata de teatro. É uma encenação bem rasgada. De certa forma, até simples se compararmos a outros trabalhos do diretor.

 

 

Encenação

 

Todos os momentos que me chamaram atenção, no entanto, têm mais a ver com as escolhas estéticas feitas para a cena. Por exemplo, genial o dedilhar nas mesas para representar a redação. E o figurino? Um mais bonito do que o outro. Há uma constante resignificação de objetos.

 

Gabriel adota ótimos recursos cênicos, principalmente na representação das mortes. Sim, é Nelson Rodrigues então tem muita morte. Vale lembrar que Boca de Ouro faz parte das tragédias cariocas. O sangue mortal aparece em conta-gotas.

 

Apesar disso tive sensação de repeteco em algumas cenas. A escada do lado esquerdo – já usada no Romeu e Julieta do Grupo Galpão – as sombrinhas, são elementos que frequentemente aparecem na obra do diretor. Se estão ali é porque elas tem um significado. Em Boca de Ouro, ele não me pareceu muito claro (sim, posso ter pescado).

 

© João Caldas Fº

 

Proximidade

 

O espetáculo foi concebido para espaços menores. Soube que em São Paulo foi apresentado no Tuca Arena, que é minúsculo se comparado ao Palácio das Artes. Certamente isso nos aproximaria mais do drama daqueles personagens. Como o espaço era muito grande, de longe, o melodrama rasgado fica exagerado. Inclusive no tom da interpretação.

 

À distância, perdemos as sutilezas do numeroso elenco encabeçado por Malvino Salvador como Boca de Ouro. Mel Lisboa está irreconhecível como Celeste. A escolha do carnaval, do cabaré acabam licenciando a caricatura como recurso de interpretação.

 

A escolha da música – e o tom carnavalesco – para conduzir a trama é acertada. Canções de Dalva de Oliveira, Herivelto Martins, Lupcínio Rodrigues e outro se acoplaram à dramaturgia de Nelson. É, sem dúvida, uma força do espetáculo. Achei forçado, porém, o uso de um humor quase clownesco, o que, aliás, tem a ver com a caricatura mencionada acima.

 

Dramaturgia

 

Não conhecia este texto de Nelson Rodrigues. Sei que não costuma figurar entre os melhores dele. Tem lacunas, repetições que acabam prejudicando o fluxo narrativo. Ainda mais hoje em dia, quando ficar mais de uma hora no teatro passa a ser um grande exercício de concentração.

 

Além disso, acho delicado reverberar hoje algumas questões da forma como o dramaturgo coloca. A mulher como objeto, por exemplo, é algo que me incomoda bastante. Sim, é preciso denunciar o feminicídio. Ainda mais em um contexto como o que atravessamos hoje. (Em tempo: Marielle, presente!)

 

De certo modo o texto faz esse tipo de denúncia. É tímida. Será que não valeria uma revisão crítica?

 

Talvez esteja aí também minha dificuldade em embarcar na história que estava sendo contada. Minha experiência com Boca de Ouro se resumiu à estética de Gabriel Villela. Aí sim, eis algo que sempre valerá à pena.

 

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