Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Festival de Curitiba: ‘Domínio Público’ e o discurso sobre o vazio

Por Carol Braga

30/03/2018 às 12:25

Publicidade - Portal UAI
'Domínio Público' peça da Mostra Oficial do Festival de Curitiba 2018 Crédito: Annelize Tozetto

 

Domínio Público era uma das peças mais esperadas da edição 2018 do Festival de Curitiba. A “peça” nasceu de uma provocação que o próprio evento fez a Elizabeth Finger, Maikon K, Renata Carvalho e Wagner Schwartz.

 

Ano passado eles ficaram famosos no Brasil inteiro. Enfrentaram uma avalanche de críticas e se tornavam mais conhecidos por, respectivamente, ter deixado a filha se aproximar de um homem nu dentro do MAM (Elizabeth), ficado pelado dentro de uma bolha (Maikon), ser uma travesti que interpreta Jesus (Renata) e ficar nu em uma performance no MAM (Schwartz). Foram alvo da onda de conservadorismo e sofreram com isso.

 

O convite de Curitiba foi para que eles se reunissem e criassem, a partir da elasticidade que a linguagem teatral permite, uma resposta, um comentário, uma crítica. Enfim, qualquer coisa que pudesse refletir tudo aquilo que eles passaram. Como não ter expectativa em relação a uma obra que nasce, na teoria, com este propósito?

 

‘Domínio Público’ peça da Mostra Oficial do Festival de Curitiba 2018 Crédito: Annelize Tozetto

Surpresas

 

Não há dúvidas que o quarteto surpreendeu. Para o bem e para o mal. Enquanto muitos esperavam um enfrentamento – eu inclusive -, os artistas entregaram o contrário. Um recolhimento.

 

Enquanto muita gente esperava “respostas bélicas” como descreveu um dos curadores, o ator Guilherme Weber, o tom da “performance” foi totalmente outro. Os artistas se apoiaram no formato peça-palestra para contar, calmamente, a história da Mona Lisa. Ela mesmo, La Gioconda de Leonardo Da Vinci.

 

Em um tom de voz extremamente doce, os quatro se revezaram no palco para relatar sobre o roubo, sobre as referências de Leonardo da Vinci, sobre os meandros da criação, sobre as camadas de significados que o quadro ganhou ao longo do tempo. Renata Carvalho, inclusive, questionou: será que Mona Lisa é mesmo uma mulher?

 

São 50 minutos, quatro palestrantes e um poster com a Mona Lisa ao fundo. Nada acontece além disso. O vazio, neste caso, conforme os artistas comentaram no debate após a sessão, era algo sobre o qual eles desejavam refletir. Depois de apanhar tanto da onda de conservadorismo que assola este país eles se sentiram esvaziados. Levaram isso para o palco da forma que deram conta.

 

 

Debate

 

Não que eu esperasse algum enfrentamento mais violento por parte deles. Talvez tenha criado expectativas em relação a apontamentos críticos mais explícitos sobre as tensões entre arte, comportamento e política. Eles conseguiram acrescentar humor, ironia, metáforas.

 

Tem sido uma prática comum em festivais de teatro promover encontros críticos após a sessão. Profissionais da análise teatral são convidados a fazer pontuações sobe o que acabaram de ver e criar pontes entre os artistas e o público. No caso de Domínio Público, os críticos participantes Francisco Mallmann e Patrick Pessoa fizeram brevíssimas considerações. Reconheço o quanto o lugar da crítica é delicado em momentos como este.  Mas havia um papel a se cumprir.

 

‘Domínio Público’ peça da Mostra Oficial do Festival de Curitiba 2018 Crédito: Annelize Tozetto

 

Processo criativo

 

Coube à plateia questionar e os artistas a responder. Em um desses momentos Elizabeth Finger contou que Mona Lisa entrou no trabalho quando precisaram enviar uma foto de divulgação ao Festival. Aquela coisa padrão, sinopse e foto. Oi?

 

Procurou no Google uma imagem de domínio público e eis que aparece a foto de Mona Lisa. Oi? (Adendo: Wikipédia também serviu de referência. São pontuações irônicas que eles fazem no texto, claro!)

 

Os artistas, inclusive, não sabem a autoria da imagem que usam para divulgação da obra. Pode isso, produção?

 

A fala da artista jogou a pá de cal na minha relação com o espetáculo, a performance, a palestra, whatever.  Sim, foi uma escolha aleatória. A que deram conta.  O texto é bem construído, mas tímido. Blindado.

 

Ao longo da conversa os quatro ainda mencionam sobre o impacto que a morte da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson gerou neles. Wagner Schwartz relatou ter recebido 150 ameaças de morte. É muito sério.

 

Pois era sobre tudo isso, sobre intolerância, violência, preconceito que eles falariam. O fizeram por meio de Monalisa. A protagonista muda de sorriso enigmático. O quadro blindado do Museu do Louvre.

 

*Culturadoria viajou e está em Curitiba a convite do Festival de Teatro de Curitiba

 

Continua após a publicidade...

photo

Coleção de livros reúne peças inéditas e crônicas do diretor Eid Ribeiro

O diretor e dramaturgo Eid Ribeiro. Crédito: Athos Souza Não são um, dois ou três. São 15. Preste atenção, quinze textos teatrais assinados por Eid José Ribeiro Aguiar, ou simplesmente, Eid Ribeiro que agora saem em livro. Não há dúvidas do quanto ele é um criador relevante na construção e manutenção da nossa arte, do […]

LEIA MAIS
photo

Feminino, político e histórico: novo solo da atriz Marina Viana com Grupo Mayombe

Marina Viana é uma artista inquieta e sem fronteiras. Ao mesmo tempo em que experimenta novas possibilidades com a Primeira Campainha, seu grupo, nunca deixa de marcar presença e buscar outros limites a si mesma. O Grupo Mayombe, do qual também é integrante, tem sempre lugar garantido no turbilhão de ideias dela. É uma postura […]

LEIA MAIS
photo

Gira chega a BH com a força do encontro entre Grupo Corpo e Exu

O número sete é cercado de sentidos na Umbanda. São sete linhas que representam um grande exército de espíritos. Cada um tem sua própria vibração e propósito. No caso específico de Exu, tem mais curiosidades envolvendo o número. Seu Sete Encruzilhadas é uma das manifestações populares da entidade homenageada pelo Grupo Corpo na nova montagem. […]

LEIA MAIS