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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Impressões abertura Fit-BH 2018: o que é teatro hoje?

Por Carol Braga

14/09/2018 às 08:09

Publicidade - Portal UAI
Noite de abertura do Fit 2018 com o espetáculo Looping. Foto: Alexandre Guzanshe/Divulgação
Encostada em uma das árvores centenárias do Parque Municipal, Lus Mar se esforçava para captar alguma cena de Looping: Bahia Overdub. De pé no canteiro, puxou papo. “Você está entendendo alguma coisa?”.
Achei melhor fazer cara de incógnita. Naquele momento, a opinião dela me interessava bem mais. “Não estou nem sentindo que estou em abertura do Fit”, lamentou. Perguntei o porquê. “Antigamente era uma coisa maravilhosa, grandiosa, na Praça da Estação”, continuou sem esconder o desapontamento com a forma como o 14º Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de BH dava as caras.
Lus Mar é de Vitória da Conquista, na Bahia. Mesmo depois de 20 anos vivendo em Belo Horizonte, não perdeu o sotaque. Tem orgulho em dizer que completou 70 de idade e lembra muito bem dos detalhes dos Festivais passados. Acompanha o Fit, precisamente, desde 2002. “A abertura era chiquérrima”, salientou, inclusive repetindo e reforçando o adjetivo com gestos.
Dessa maneira, como sempre era surpreendida, para conferir a noite inaugural de 2018, saiu do bairro Carlos Prates cheia de expectativas. Se atrasou um pouco, entrou no Parque Municipal às 20h. Sendo assim, como o evento estava marcado para 19h, perdeu a primeira performance, Batucada, de Marcelo Evelin. “Você viu? Teve apresentações de artistas teatrais ou foi assim?”, indagou se referindo ao que ainda tentava captar.
Como estávamos à distância, o que se via era uma multidão em redemoinhos. Música alta, pouca luz. “Estou achando que é uma festa. Você sabe se os shows vão ser com cantores mesmo?”, perguntou. Respondi que Anelis Assunção e Linn da Quebrada estariam no palco. Mas Lus Mar já não queria saber. O relógio marcava 20h29 quando, finalmente, desistiu. “Ó, tô indo”, disse. Ou seja, não ficou ali mais do que meia-hora.

O que é teatro?

O brevíssimo – e importante – encontro com Lus Mar despertou em mim diversas reflexões sobre as performances de abertura do Fit 2018 e o que elas provocaram. A primeira delas é sobre o quanto é desafiador renovar o pensamento sobre o que é teatro.
Está é uma das premissas que a curadoria adotou para esta edição. Alargar, expandir foram verbos usados por Grace Passô – que trabalhou em parceria com Soraya Martins e Luciana Romagnolli – para descrever o teatro que ocupará a grade de programação. Em resumo: todos precisaremos fazer o exercício de desapego. Ou seja, o teatro pode ser mais do que a gente pensa.
Assim, nada mais pertinente do que abrir o Fit com duas intervenções que tem como protagonistas cidadãos comuns. Dessa maneira, Lus Mar, Batucada, assim como Looping, tem mais do que artistas teatrais “em cena”. Tem gente como você mostrando que o teatro está no corpo, está no movimento, está na vida.

Batucada na abertura do FIt 2018. Foto: Guto Muniz/Divulgação

Batucada

Em Batucada, uma criação que vem do Piauí, os cerca de 40 participantes se relacionam com o público em diversos estágios. Primeiro encaram, depois esbarram, em seguida arrastam. Tudo isso batendo panelas, latas. Ato e objetos carregados de sentido político. Em resumo: a performance salienta os corpos políticos.
A narrativa, porém, deveria ser construída por cada um dos espectadores. Entre os participantes da performance parecia haver alguma catarse. Ela, porém, não atravessou. Ou melhor, não me atravessou. Lus Mar nem viu.

Looping: Bahia Overdub

A sensação com Looping: Bahia Overdub, de Felipe de Assis, Leonardo França e Rita Aquino (BA) foi parecida. Lus Mar não se engana ao pensar que tudo se assemelhava mais a uma festa. Era mesmo, com a diferença da dança ser coletiva. De não haver muito a fronteira entre artista e público. Todos somos tudo.
Sendo assim, natural o embaralhamento das ideias de quem tem uma concepção ainda padronizada do que é teatro. Está entendido que o objetivo é quebrar isso mas ficam algumas questões:
O festival é para a cidade ou para a classe teatral da cidade?
E se a maioria ainda não estiver preparada para pensar o teatro de outra maneira?
O restante da programação acolherá em alguma medida este espectador?
Existirá, talvez, uma maneira mais sutil para alargar esse sentido do que é teatro? Algo que seja capaz de conversar tanto com quem tem a dimensão do quanto nossos corpos são políticos e com alguém que não faz a mínima ideia do que é isso?
Ou será que o caminho é mais radical mesmo e, com o tempo, novos teatros e novos públicos vão se encontrando?

Noite de abertura do Fit 2018 com o espetáculo Looping. Foto: Alexandre Guzanshe/Divulgação

Quebra de paradigmas

O Fit 2018 inaugura um momento diferente na história do evento. É mais provocador. Sendo assim, por meio da anarquia artística, começou nos fazendo refletir sobre lugares comuns. É um convite a um novo teatro, Lus Mar. Isso incomoda mesmo. Quando você vê aquilo que já é confortável para você, sobra pouco espaço para pensar a respeito. Por outro lado, o que te tira dessa zona de conforto, estimula o pensamento crítico. É disso que estamos precisando para fazer um mundo melhor!
Então, Lus, o festival pode até não ser mais – e nem querer ser – “chiquérrimo” ou “grandioso” mas certamente é mais expandido, mais crítico. Ou seja, vamos dar uma chance a ele?

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