Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Coletivo Teatro da Fumaça representa o Brasil em premiação norueguesa

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Entre os cinco vencedores do Ibsen Scope Grant, o Teatro da Fumaça é o único representante da América do Sul

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Nos próximos dias 24 e 25 deste mês de abril, o coletivo belo-horizontino Teatro da Fumaça estará em solo norueguês para apresentar o projeto que o fez ser o único brasileiro escolhido pelo Ibsen Scope Grant 2024. Dedicado à obra de Henrik Ibsen, o festival é realizado a cada dois anos em Skien, a cidade natal do dramaturgo. A premiação, pois, é uma forma encontrada pela fundação de atualizar e difundir a obra do autor de “Uma Casa de Bonecas” e “Peer Gynt”, entre outras não menos importantes. Nesta nova edição, além do Teatro da Fumaça, foram contemplados coletivos da África do Sul, Cuba, Líbano e do Reino Unido.

Os integrantes do Teatro da Fumaça (Pedro Pimenta/Divulgação)
Os integrantes do Teatro da Fumaça (Pedro Pimenta/Divulgação)

Conciliando práticas de ensino, criação e pesquisa teatral, o projeto “Mineral Ibsen”, proposto pelo Teatro da Fumaça, resultará, em 2025, na montagem de um espetáculo que promete falar de questões urgentes. Assim, a partir do texto “Um Inimigo do Povo”, de Ibsen, a montagem será edificada também com alicerces que vêm do repertório de Augusto Boal (1931-2009), nome basal do Teatro do Oprimido. Não bastasse, relaciona as questões tratadas lá atrás, pelo dramaturgo norueguês, que se fazem presentes no Brasil dos dias atuais. Entre elas, a desinformação, o negacionismo e o impacto devastador da ingerência do homem sobre a natureza.

Na verdade, neste último escaninho, com ênfase no escopo da mineração em Minas Gerais.

O início

Antes de embarcar para a Noruega, João Santos, um dos integrantes do Teatro da Fumaça, conversou com a reportagem do Culturadoria. Primeiramente, a conversa girou sobre o despontar do próprio coletivo, agora agraciado pelo Ibsen Scope.

João lembrou que o embrião foi o encontro dele com os hoje colegas Ítallo Vieira e Jean Gorziza. “Conheci o Jean, que é gaúcho, durante a pandemia. Ele foi aluno de um curso de teatro digital promovido pela Rubim Produções, e eu era monitor (da iniciativa). Ele faz teatro desde criança, é muito fã do Grupo Galpão – aliás, inclusive comprou o meu livro sobre a Teuda Bara (“Teuda Bara: comunista demais para ser Chacrete”, da Javali)”.

No início de 2023, Jean passou no Enem e ficou em dúvida quanto para onde ir estudar teatro, se na Bahia ou em Minas. “Daí, eu defendi um pouco a cena teatral de Belo Horizonte”. Ítallo, por seu turno, é de Patrocínio. “Ele veio para cá para estudar teatro e audiovisual, também e trabalhou comigo no Galpão Cine Horto. Aliás, atualmente, eu ainda integro a equipe de comunicação do Galpão Cine Horto, ele, não mais. Mas fomos colegas lá e a gente sempre pensou em fazer alguma coisa, teatralmente”.

Os Benefícios do Tabaco

Ocorre que João Santos já tinha o projeto Os Benefícios do Tabaco, “que é uma cena que surgiu dentro do meu mestrado, explorando alguns temas que estudo”. Desse modo, João queria desenvolvê-la como um produto audiovisual. “E, um dia, chamei os dois (Jean e Ítallo), meio aleatoriamente, mas também porque tinha vontade de me aproximar deles”. Na verdade, Jean já vinha escrevendo alguns projetos com João. “Eu já vinha percebendo que ele era muito engajado, muito participativo. Assim, era muito estimulante estar perto dele, criando”.

Quanto a Ítallo, no momento em que já estava saindo do Cine Horto, João conta que de pronto pensou: “Ele não me escapa (risos)”. E aí, os três fizeram o o experimento audiovisual “Os Benefícios do Tabaco”,
peça-conferência que aborda o tema da desinformação a partir da indústria do tabaco e o texto “Sobre os Males do Tabaco”, do dramaturgo russo Anton Chekhov. “A gente gravou tudo numa tarde e, ao fim, fomos comer uma pizza. Lá, jogamos: ‘A gente podia fundar um grupo’. E aí já surgiu essa brincadeira de se chamar Teatro da Fumaça”.

Fumaça

Mais tarde, o trio foi estudar o simbolismo da fumaça, ou seja, o que ela significa também no teatro. “Assim, entendemos que o nome era de fato apropriado. Em uma outra etapa, entraram a Júlia Oliveira e a Domenica Morvillo”. Para João Santos, o grupo acabou adquirindo, assim, uma característica muito híbrida com a academia. “Porque nós cinco somos alunos da UFMG. Eu, no mestrado (defendo agora, em agosto). O Jean, a Júlia, o Ítallo e a Domenica, na graduação”.

Proposta

O Teatro da Fumaça entrou em cena imbuído do desejo de desenvolver uma pesquisa contemporânea, bem como ter autoralidade. “Mas, ao mesmo tempo, a gente não abre mão de ter uma comunicação ampla. A gente não quer, de forma alguma – aliás, a gente teme isso – se fechar. Queremos falar com todas as pessoas. (Tal qual) temos também o desejo de pesquisar outras linguagens. Temos muito interesse por literatura, poesia… O Ítallo traz a característica do audiovisual muito forte. Ou seja, o grupo está dando os primeiros passos ainda, mas nosso caminho tem sido por aí”.

Ibsen Scope Grant

Na verdade, o entrelaçamento do Teatro da Fumaça com o texto “O Inimigo do Povo”, de Henrik Johan Ibsen (1828 – 1906), veio quando os integrantes descobriram o edital da instituição norueguesa Ibsen Scope Grant, sediada em Skien, cidade do dramaturgo. “Essa associação estimula a criação de abordagens contemporâneas da obra do Ibsen pelo mundo e, a cada dois anos, realiza um festival e uma premiação”. O festival traz peças que abordam obras de Ibsen, enquanto a premiação é dedicada ao financiamento de projetos também para a abordagem da obra do dramaturgo.

“Na verdade, o Jean já conhecia esse festival. Ele (Jean) é muito, muito proativo, um super produtor, além de um super artista. E tem um grupo de Porto Alegre, o projeto Gompa, que havia sido contemplado na edição anterior do Ibsen Scope. Aliás, eles também estão indo agora para Skien, mas, no caso, para apresentar o espetáculo pelo qual levaram esse prêmio que nós estamos recebendo agora. Eles ganharam em 2022, estrearam em 2022, e, agora, em 2024, estão indo lá, apresentar”.

Eid, um bom conselheiro

Sendo assim, Jean acabou se inteirando da abertura do novo edital do Ibsen Scope. “E, daí, a gente começou a pensar o que seria interessante para propormos”, pontua João. Um belo dia, João estava conversando com o consagrado diretor Eid Ribeiro – precisamente, no curso do processo de “Fim de Partida“, adaptação da obra de Samuel Beckett. Foi Eid, pois, que sugeriu “O Inimigo do Povo”. “Uma obra que, na verdade, tem muito a ver com minha pesquisa, porque, apesar de ser um texto ali, do final do século 19, parece estar falando dos dias de hoje. Me refiro a questões que ele aborda, de desinformação, negacionismo… Consigo até mesmo ver alguma coisa de necropolítica ali”.

Viés ambiental

Na verdade, João Santos ressalva que, além de problematizar a escolha da sociedade capitalista por colocar a economia à frente da vida, da saúde das pessoas, no texto de Ibsen, é possível detectar até mesmo um olhar ecológico. “Claro, essa talvez não fosse uma questão para o Ibsen, para o tempo que ele escreveu, mas tem uma questão da contaminação das águas da cidade (na história), e a população tem que lidar com isso. Porque a história fala de uma cidade balneária, cuja renda principal é proveniente justamente do turismo. Acontece que o médico local, Dr. Stockmann, descobre que as águas desse local estão seriamente contaminadas”.

Assim, um impasse se impõe. Ou a principal atividade econômica é temporariamente interrompida para que o dano seja mitigado ou a população decide continuar a vida como se nada de atípico estivesse acontecendo. “E, daí, que se danem as próprias vidas (dos locais) e a das pessoas que visitam o balneário. Ao fim, o povo acaba optando por se revoltar contra o Dr. Stockmann, que, na verdade, é, sim, um cara muito arrogante, apesar de ser honesto e bem intencionado. Então, assim, ele se torna realmente o inimigo do povo”.

Paralelo com Minas

No curso do processo, João Santos e demais integrantes do Teatro da Fumaça acabaram por detectar um paralelo de toda a história de Ibsen aqui, em Minas. “Na verdade, vários paralelos. Uma coisa muito forte relacionada, por exemplo, com a pandemia, quando veio toda aquela discussão de abrir ou fechar o comércio. Mas, especificamente aqui, em Minas Gerais, com a questão da mineração. As cidades mais diretamente afetadas por essa atividade sempre têm que lidar com isso, pois a economia é muito dependente, mas a ameaça (do rompimento de barragens, de contaminação de rios) também é muito latente. Então, a gente enxergou esse paralelo muito forte e achou que seria um caminho para abordar a obra, trazendo-a para o contexto mineiro”.

Augusto Boal

Com vários fios já encapados, veio a ideia de agregar, à montagem do texto de Ibsen, as diretrizes do Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. “Sinceramente, acho que foi o que afinal nos conferiu o prêmio (na Noruega)”, analisa João Santos. Segundo ele, o ideário de Boal surgiu a partir de um conflito que despontou durante as discussões em grupo. “Mesmo morando em BH, estamos todos muito sujeitos a essa realidade da mineração. Da influência muito forte da mineração nas nossas vidas, até na cultura”.

Por outro lado, sempre houve a consciência de que há pessoas que estão dia a dia afetadas por isso. “Falo de cidades realmente próximas às minas, nas quais a gente sabe que inclusive existem sirenes de alerta. E a gente ficou pensando em como tratar isso sem se apropriar”. Foi mais uma vez nos bastidores de “Fim de Partida” que o impasse foi solucionado. “Um dia, cheguei no ensaio, e o Francisco Dornellas, o Chico, ator, falou sobre o Teatro do Oprimido. E aquilo me acendeu: é isso, é Boal que vai nos dar esse contato direto com as comunidades e que vai permitir que a gente traga de fato essas experiências para o processo”.

Teatro Fórum

Coincidentemente, no mesmo dia, Jean Gorziza teve, na graduação, uma aula sobre o Teatro do Oprimido. “Olha que loucura, essa coincidência! Na verdade, são coisas que estão aí, no ar, e que de repente a nossa antena capta”. João Santos ressalta a prática de Boal nominada Teatro Fórum. “Que é apresentar uma situação de conflito, diante de uma comunidade, e interromper a cena no momento ápice do conflito. Daí, abrir (o tema) para discussão com a plateia”.

“Então, a gente pensou que seria interessante pegar um ‘inimigo do povo’, que oferece essa situação paralela do conflito, e, partir dele, desenvolver práticas aproximadas com o Teatro Fórum do Boal. E é o que faremos. Assim, nós vamos para Sabará, Itabirito e Nova Lima. Em cada uma dessas cidades, a gente vai ter a colaboração de um grupo de teatro local. No caso de Nova Lima, o Atrás do Pano. Já em Itabirito, o Flor de Maio, e em Sabará, a Sobrilá”, explana João Santos.

Práticas

Além dos grupos locais, os integrantes do Teatro da Fumaça pensam em também ir atrás de comunidades escolares ou mesmo igrejas, “para tentar ter um público diverso e conseguir instaurar um debate de fato diversificado”. “Ou seja, vozes plurais, para debater a questão da mineração, e as situações de conflito e de opressão que surgem dela, e que são comuns tanto ao texto de Ibsen quanto ao interior do nosso estado de Minas”.

Seminário

Na verdade, antes das práticas, os integrantes do Teatro da Fumaça vão ter um momento de seminário, de estudo, de instrumentalização das técnicas do Boal. “Ou seja, só depois dessa fase inicial de estudo de preparação é que vamos para as cidades, promover as práticas, e, na etapa final, desenvolver o espetáculo”. Recapitulando: o espetáculo será desenvolvendo a partir da obra original de Ibsen – “O Inimigo do Povo” e da experiência com o Teatro Fórum nas três cidades citadas. “Aliás, o grupo Sobrilá, de Sabará, vai desenvolver o espetáculo conosco”.

Ibsen

João Santos evidencia o lado político de Ibsen. “Um autor muito político. Ele era um anarquista, na verdade. E a posição política dele transparece muito na obra, o que nos interessa muito, pois, de certa forma, também somos artistas engajados politicamente – acreditamos que a arte tem um papel político importante. Nesta obra dele, eu vejo principalmente essa questão, esse conflito entre a economia e a vida. Aliás, essa percepção da necropolítica foi até mais recente”.

Primeiramente, aos olhos de João Santos, despontou a questão do negacionismo no texto de Ibsen. “E essa questão das estratégias de convencimento. Que vêm de uma parcela da mídia, de setores poderosos e até de uma parcela da população que não quer abrir mão dos rendimentos e que, assim, se voltam contra uma pessoa que, na verdade, era bem intencionada”.

Descaso

Para o ator, a questão custo-benefício inerente aos mecanismos da economia, coloca tudo na balança. “No caso da mineração, entram nesta balança o que uma barragem pode dar de lucro e o que ela vai dar de prejuízo se uma barragem se romper e aniquilar uma cidade inteira. É uma forma muito crua e muito cruel de dizer, mas isso acontece. A gente sabe que isso acontece. Que a vida é só mais um fator ali, que entra numa planilha, com um valor normalmente não muito alto para certas parcelas do poder”, analisa João.

Comunicação possível

Uma outra questão que também é acoplada a esse bojo é como se comunicar. No caso de “O Inimigo do Povo”, de Ibsen, como já comentado, aqui, mesmo bem intencionado, Dr. Stockmann é prejudicado pelo seu tom erudito e algo esnobe. “Na minha opinião, a gente vive um momento em que a parcela mais progressista da política tem dificuldade de sair da bolha, de sair de uma academia, de sair do partido e, assim, conseguir falar com a população de forma geral sem se portar com uma certa arrogância”.

“E eu acho que é uma coisa que acontece em ‘O Inimigo do Povo. A gente tem esse herói, é um herói, o cara (Stockmann). Afinal, ele descobre que a cidade está ameaçada. Assim, que é preciso salvar a vida das pessoas. Mas ele não consegue falar isso sem parecer arrogante, dono da verdade. Então, acho que essa é uma questão também muito presente na obra e muito contemporânea”, avalia João.

Planejamento

De todo modo, assim que os cinco integrantes do Teatro da Fumaça voltarem da Noruega, o coletivo entra no processo de uma outra peça, “O Mundo Está em Chamas, o Teatro Também Tem Que Estar”, com dramaturgia de Jean. Esse espetáculo, vale dizer, tem previsão de estrear em agosto ou, no máximo, setembro. “No segundo semestre a gente inicia a etapa de pesquisas, seminários e oficinas. Ou seja, vamos fazer seminários sobre a situação da mineração em Minas, sobre o Teatro do Oprimido, sobre a obra do Ibsen… Depois, tem oficina sobre práticas do TO. E daí vamos para as cidades fazer essas práticas. Portanto, só depois entramos em processo. Assim, a previsão é estrear no início de 2025”.

Agenda na Noruega

Na Noruega, portanto, o Teatro da Fumaça vai receber o prêmio e, para tal, apresentar uma cena que os componentes estão ensaiando no curso do último mês. E que, nas palavras de João Santos, é basicamente uma apresentação do projeto. “Junto a uma apresentação do que é Minas Gerais e também do (Augusto) Boal e o Teatro do Oprimido. Uma apresentação performática do projeto que foi contemplado. Então, não necessariamente relacionada a como vai ser o espetáculo. Porque esse ainda vai passar por esse longo processo, essas etapas que citei, até ser desenvolvido”.

Todavia, João Santos pondera que o aporte do Ibsen Scope já propicia a expectativa de uma experiência ideal. “Tal qual a gente sonhou, ou seja, que envolva pesquisa, formação, que envolva um mergulho mesmo na obra do dramaturgo, assim como nessas particularidades de Minas Gerais, bem como na pesquisa do Boal. Ao fim, tudo isso é muito estimulante. É realmente um sonho para gente. Ou seja, para um grupo que está se formando, dar esse passo tão marcante na vida de nós todos, como indivíduos, como artistas… Um estímulo para continuarmos criando junto, como a gente já tem muito prazer e alegria de fazer”, conclui ele.

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