Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Fotografia de cena: curiosidades e bastidores de quatros fotos de Guto Muniz

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Fotógrafo Guto Muniz celebra 35 anos de carreira e dez anos do portal Foco in Cena com disponibilização de acervo inédito

Por Carol Braga | Editora

Se você acompanha a cena teatral de Belo Horizonte, com certeza já se deparou com ele. Nos últimos 35 anos, Guto Muniz sempre foi presença constante nas plateias. Sempre discreto, de preto e com a câmera praticamente escondida, podemos dizer que ele se tornou peça fundamental para o registro da memória das artes cênicas no Brasil. Se o teatro é efêmero, o trabalho de Guto faz com que aquele instante da cena seja eterno. 

Em 35 anos de carreira, Guto Muniz fotografou mais de dois mil espetáculos. Desde 2011, boa parte deste acervo está guardado no portal Foco in Cena. A novidade de 2022 é que o fotógrafo disponibilizou um conteúdo inédito com material digitalizado ainda da época dos filmes. Foi em 2001 que Guto comprou a primeira máquina digital. Antes disso, tudo era feito no método “analógico”. 

Ao longo dos anos, a experiência com cada espetáculo fez com que ele também acumulasse histórias. A pedido do Culturadoria, Guto Muniz selecionou quatro fotos pessoalmente marcantes de todo o acervo. É ele mesmo quem comenta e conta o que ficou registrado na memória.

Romeu e Julieta, Grupo Galpão, 1992. Foto: Guto Muniz
Romeu e Julieta, Grupo Galpão, 1992. Foto: Guto Muniz

Romeu e Julieta, Grupo Galpão, 1992

Não há como deixar de falar de histórias por trás das minhas fotos sem falar da icônica foto de “Romeu e Julieta” criada para ilustrar o programa do espetáculo em sua estreia em 1992. A pedido do Gabriel Villela, diretor do espetáculo, precisávamos de um horizonte montanhoso que fizesse alusão a Minas Gerais. Fomos, então, para as “Seis Pistas”, hoje Alameda Oscar Niemeyer, em Nova Lima. Eram vários os lotes vagos naquela avenida praticamente desabitadas naquele 1992. 

Era um sábado à tarde e estava sem movimento nenhum por ali. Escolhemos um lote profundo e plano, com as montanhas da cidade por trás, entramos com a veraneio até o fundo do lote e o elenco começou a se preparar. Enquanto eles se trocavam, montei o tripé no meio do lote, distante da rua, coloquei nele a câmera. Ficamos conversando e em nenhum momento me virei para a rua. Eles pegaram seus instrumentos, ocuparam o cenário e começaram a tocar enquanto eu os dirigia. Ficamos ali cerca de 20 minutos fotografando. Quando terminei o segundo filme eu disse:

“Ok, pessoal! Já deu. Acabamos!”

Nesse momento eles pararam de tocar e escutei um ”ahhh” coletivo atrás de mim. Quando me virei para a rua, vi que havia vários carros estacionados e muitas pessoas assistindo a sessão de fotos. Diante da manifestação, o elenco voltou a tocar mais uma música e terminamos a sessão de fotos sob os aplausos de um dos primeiros públicos do espetáculo.

Bivouac,  Générik Vapeur, 1997
Bivouac, Générik Vapeur, 1997

Bivouac,  Générik Vapeur, 1997

“Bivouac” da companhia francesa Générik Vapeur foi o espetáculo que abriu a primeira edição do FIT BH em 1994, e causou uma verdadeira comoção na cidade, com aquela banda de rock pesado em cima do caminhão dando o ritmo para aqueles “Azuis” que conduziram centenas de pessoas pela Avenida Afonso Pena até chegarem à Praça da Estação. Naquela apresentação, eu fazia parte do público que os seguia. Em 1997 eles retornaram e eu, já fotógrafo do festival, pedi ao grupo se poderia ficar junto com a banda, em cima do caminhão, para fotografar o público e suas interações com os atores que estavam no chão durante o percurso. Quando fiz essa pergunta à diretora da companhia, depois de me olhar fixamente por alguns bons segundos, veio a resposta:

“Sim… Mas você terá que ficar igual a todos nós”.

E lá fui eu me maquiar junto com todo o restante do elenco. Me tornei um dos “Azuis” e assim fiquei camuflado em cima do caminhão durante todo o espetáculo. A foto mostra o elenco em um ônibus, a caminho do local de início do espetáculo.

Paraíso Perdido, Teatro da Vertigem, 2004. Foto: Guto Muniz

Paraíso Perdido, Teatro da Vertigem, 2004

Em 2004, o grupo paulista “Teatro da Vertigem” trouxe para o festival a trilogia bíblica e um enorme desafio para a produção. Conseguir uma igreja, um hospital e um presídio onde os espetáculos pudessem ser encenados com a presença de público. Vencido o desafio, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo recebeu o espetáculo “Paraíso Perdido”, o primeiro da trilogia. Em um determinado momento, um dos atores se posicionou debaixo da imagem de uma santa em um dos corredores laterais da igreja. Aquela era uma imagem do local, e não da produção do espetáculo. Nesse momento, uma luz cênica se acendeu para iluminar o ator lateralmente e minha surpresa foi enorme ao ver que a sombra provocada lateralmente pela imagem e o ator abaixo dela, criava a imagem de um rosto com chifres, fazendo menção a um demônio. 

Muitos não notaram tal sombra, mas o criador do projeto de iluminação do espetáculo, Guilherme Bonfanti, tomou o mesmo susto que eu. Ao ver as fotos depois daquele dia, ele me disse que ficou impressionadíssimo quando viu aquele efeito e ficou torcendo para que tivéssemos fotografado o mesmo.

Antígona 1997. Foto: Guto Muniz
Antígona 1997. Foto: Guto Muniz

Antígona, 1997

Nesse momento, eu volto ao primeiro espetáculo que fotografei. “Antígona”, em 1987.

Não para falar de uma foto específica, mas da minha experiência com as mesmas. Eu acabava de me tornar monitor de fotografia do laboratório do prédio 13, que abrigava (e ainda abriga) os cursos de comunicação da PUC Minas. Havia assistido o espetáculo e me apaixonado pelo seu visual: um palco quase vazio, exceto basicamente pela presença dos personagens marcados por luzes pontuais muito definidas. Decidi que precisava fotografá-lo. Pedi permissão e voltei no dia seguinte para fazer as fotos com um único filme de 24 poses, como assim chamávamos. 

No outro dia, cheguei cedo ao laboratório para revelar o filme. Ao terminar o processo, retirei o filme rapidamente do tanque e fui aos ponchos desenrolando da espiral de metal que o prendia. E ele, por ser um filme negativo, estava quase todo transparente, exceto por pequenas imagens escuras que, na verdade, eram as luzes que marcavam os personagens em cena. Sequei o filme rapidamente e segui com ele para o ampliador e, de lá para as bacias de revelação. Na medida que eu agitava o revelador na banheira a imagem dos atores ia aparecendo no papel. Eu fiquei encantado com elas e pensava. 

“Que incrível! Não quero parar de fazer isso!”

E cá estou, depois de 35 anos, seguindo o mesmo caminho.

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