Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Grupo Pigmalião cresce no exterior sem perder conexão com o Brasil

Invadimos os bastidores da peça ‘O Quadro de todos juntos’, do Pigmalião. A companhia de teatro de bonecos de Minas participou da mostra principal do Festival de Teatro de Curitiba

Por Carol Braga

07/04/2019 às 10:05

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Foto: Annelize Tozetto/Festival de Cuririba/Divulgação

Curitiba – Não restam dúvidas: Pigmalião Escultura que Mexe é o grupo mais internacional da atualidade no teatro mineiro. Com todo merecimento. São 12 anos de trajetória e a cada espetáculo a companhia se apresenta a novos desafios. Detalhe: sem abandonar as montagens mais antigas, nem o Brasil. Muito menos os temas que precisam ser discutidos por aqui.

Depois de cinco anos de estrada, O Quadro de Todos juntos (2013), por exemplo, foi selecionado para a mostra principal do Festival de Teatro de Curitiba. E olha que esta montagem rodou, viu! Participou do festival Palco Giratório, promovido pelo Sesc. Dessa maneira, percorreu o Brasil de Norte a Sul. Isso sem contar o exterior.

Parceria com o espectador

O espetáculo não tem falas. Sendo assim, conta com a ativa participação do espectador que precisa, por conta própria, criar (ou lembrar) relações para o que vê. O palco é ocupado por uma grande família de porcos/humanos. Ao longo de uma hora, eles nos convidam a “espiar” os comportamentos em família para dali tirarmos nossas próprias conclusões sobre padrões humanos ou animais.

Em síntese, além de ser um espetáculo de grande competência técnica, é também bem instigante. Os porcos são manipulados com técnicas variadas. Tem marionetes de fio, a maior parte, mas também bonecos que são ‘habitados’ pelos atores. Nesse sentido, além da estética, O Quadro de todos juntos também surpreende pela excelência na interpretação. O valor está no detalhe.

Sendo ainda mais específica, nesse tipo de interpretação o mais delicado sinal de respiração vira dramaturgia. Os atores do Pigmalião escultura que mexe tem consciência de cada movimento e, por isso, tudo se potencializa.

 

 

Brésil

Sendo internacional como é, o Pigmalião tem se apresentado mais fora do Brasil do que por aqui. Uma das montagens mais recentes se chama Brésil. Assim mesmo, em francês. Com direção de Eduardo Felix, dramaturgia escrita por ele e Marina Viana, é uma peça que discute o olhar estrangeiro. Até agora só foi apresentada fora daqui. Fala sobre o fato de “a percepção que temos de um povo ser nutrida por imagens, ideias que nos são continuadamente enviadas, às vezes distorcidas”.

Até maio de 2019 Eduardo Felix está radicado em Villemur-sur-tarn, cidade de quatro mil habitantes no sul da França. Ele foi convidado para realizar com moradores de nove cidades da região oficinas de teatro de bonecos. “Eles me deram um tema que eu nunca imaginei: Viva a Família”, conta.

Para a surpresa do bonequeiro, os encontros com a comunidade têm sido ótimos. “Cada cidade escolheu um animal para se representar e agora estamos construindo juntos”, relata. De acordo com Eduardo, a faixa etária dos participantes talvez seja uma das mais diversas com a qual já trabalhou. “O mais novo tem 3 anos e a mais velha 102”, diverte-se.

 

Foto: Annelize Tozetto/Festival de Cuririba/Divulgação

 

Crescimento no exterior

Dar cursos e se apresentar em festivais internacionais acabou se tornando o caminho que viabiliza a arte do Pigmalião. “Não chamo de modelo de negócio, mas de sobrevivência”, diz Eduardo, com bom humor de sempre. Depois de Curitiba, parte do grupo vai se encontrar com ele na Europa. Por lá, finalizam os bonecos gigantes da residência. Em seguida, tem compromisso no México com apresentação de A filosofia na Alcova. Em setembro o grupo estará de volta à França para mostrar a versão de Macunaíma no Festival Mondial de Marionnettes de Charleville-Mézières, um dos mais importantes da área no mundo.

O reconhecimento é fruto de um longo trabalho. A primeira vez que o Pigmalião foi selecionado para um festival internacional foi em 2011. Naquela época, para viabilizar a viagem, os atores toparam se apresentar sem cachê e mesmo assim precisaram vender espetáculos antecipados no Brasil. Ou seja, mesmo sem ter claro que tipo de resultado alcançariam, os artistas fizeram um investimento.

“Mesmo que por aqui também haja o crescimento da extrema direita, o investimento para a cultura ainda tem rolado”, conta. Segundo ele, na Europa há um entendimento de que a arte é capaz de combater o crescimento do fascismo. “A justifica do projeto que eles apresentaram para o Ministério da Cultura da França é que a convivência com artistas, sobretudo estrangeiros, faz com que as populações aprendam a se colocar no lugar do outro”.

Macunaíma renovado

A experiência fora do Brasil também serviu para que o Pigmalião revisse a montagem de Macunaíma. A peça estreou no ano passado e gerou muita polêmica. “Fomos muito questionados sobre lugar de fala e vimos que precisávamos entender isso um pouco melhor”. A nova versão da montagem vai estrear no festival de Charleville-Mézières. “Vamos ver como o público vai reagir”, comenta Eduardo.

Ele tem se surpreendido com a demanda pelos espetáculos do grupo. O Pigmalião nasceu com o propósito de fazer teatro adulto com bonecos. Por isso, todas as montagens feitas até hoje têm altas doses de reflexão e provocação sobre o homem contemporâneo.

Filosofia na Alcova, por exemplo, selecionado para o festival no México é descrita pelo diretor como “um absurdo de provocação”. “Os espetáculos que a gente fez estão ficando mais provocativos com o tempo. É como se o futuro tivesse sido em 2013 e naquela época o público era mais aberto para essas coisas”, brinca.

 

Culturadoria viajou para Curitiba a convite do Festival de Teatro

 

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