Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Nova peça do Grupo Galpão é um convite a reconfigurar as percepções sobre o teatro

Como os ciganos fazem as malas é uma experiência a ser vivenciada pelo Telegram. A dramaturgia é de Newton Moreno e criação coletiva de Yara de Novaes, Tiago Macedo, Paulo André e Barulhista.
Por Carol Braga
Grupo Galpão experimenta o Telegram como palco. Foto: Tiago Macedo/Divulgação
Grupo Galpão experimenta o Telegram como palco. Foto: Tiago Macedo/Divulgação

Para embarcar na viagem que o Grupo Galpão propõe é preciso que, primeiro, você despache todas as suas bagagens. Desapegue, inclusive, daquilo que você acha – ou achava – que seria teatro. Voe livre, leve e solto, sem referências prévias. Isso porque Como os ciganos fazem as malas é uma coisa totalmente nova. Um belo desafio que a veterana companhia se propôs a experimentar nestes tempos estranhos. 

A “montagem” faz parte de um projeto batizado “Dramaturgias”. Até o final do ano o Galpão lançará experimentos explorando mediações possíveis pelas redes sociais. Como os ciganos fazem as malas tem texto de Newton Moreno. A equipe de criação é formada por Yara de Novaes, Tiago Macedo, Paulo André e Barulhista. A primeira peça estará disponível gratuitamente até o dia 13 de junho. É necessário retirar o ingresso previamente pelo Sympla. Você também deve escolher se vai querer participar da jornada longa, entre 11h e 19h, ou da curta, com cerca de 90 minutos.

O que é?

Como os ciganos fazem as malas é interessante porque começa tirando o espectador do papel histórico de alguém que, na maior parte das vezes, simplesmente assiste. Dessa maneira, embora continue em uma função passiva, o palco já não é o mesmo. O “espaço cênico” passa a ser sociotécnico, está dentro do celular de cada um. Mais que isso: é mediado por um aplicativo, no caso o Telegram. Ou seja, é um ambiente privado e individual. Só por aí já mudou tudo. 

O celular é também símbolo máximo da vida nômade contemporânea. Daí a providencial conexão com os ciganos no título. Além de dados práticos da vida cotidiana, como, por exemplo, acesso ao banco, as fotos, as memórias, até mesmo os contatos sociais vivem confinados nessa caixinha técnica que nos acompanha onde estamos. Como diz Peter Burke no livro História Social da Mídia, “toda revolução técnica é uma revolução social”. A arte também se alimenta das revoluções técnicas e sociais. 

A ubiquidade, ou seja, “fato de estar ou existir concomitantemente em todos os lugares, pessoas, coisas”, é uma característica própria dos telefones celulares e muito bem explorada em Como os ciganos fazem as malas. Ao invés do espectador ir ao teatro, é o teatro que chega ao espectador. Onde ele estiver, bastando, para isso, uma conexão com a internet. 

Como os ciganos fazem as malas com Grupo Galpão. Foto: Tiago Macedo
Como os ciganos fazem as malas com Grupo Galpão. Foto: Tiago Macedo

Poesia concreta com o Galpão

Para além dos aspectos técnicos, o trabalho do Grupo Galpão também é repleto de provocações poéticas. Os estímulos são diversos. Chegam pelas mensagens textualidades escritas, sonoras, visuais, em variados formatos. Sendo assim, a postura do espectador (pelo menos a minha) é de um estado de atenção. Vamos combinar que este item tem andado em falta em tempos pandêmicos, né? 

Cada notificação do Escritor, o personagem que conduz a conversa, é um convite a explorar uma dimensão da narrativa. Elas aparecem, inclusive, no tamanho da letra, nas mudanças de fonte, no silêncio, na trilha que surge em um momento específico do percurso só para oferecer um espaço para respirar e pensar. Buscar as conexões entre você e as metáforas costuradas na sequência de mensagens.

Particularidades

Sobre a história, vale destacar um aspecto curioso da minha experiência. Por mais que a proposta seja a de acompanhar um viajante, a dramaturgia proposta por Newton Moreno, me pareceu abstrata na medida. Ou seja, calcula as lacunas e as oferece à nossa subjetividade. Assim, o entendimento – e os sentimentos – de Como os ciganos fazem as malas, nunca será objetivo. São disparadas sensações abstratas e particulares. 

Sendo assim, será daí a grande dificuldade de dar nome ao que eu estava experimentando? Bem provável que sim. Comecei este texto sem saber o que falar sobre Como os ciganos fazem as malas. Talvez porque este trabalho exista para ser vivenciado e não analisado. Nasceu em momento oportuno para nos tirar de lugares comuns. Para ampliar as nossas percepções. Também para mostrar o quanto o teatro permanece em mutação.

Das arenas gregas ao Telegram, essa expressão artística secular sempre mostrou que pode mais. Ainda bem que o Galpão nunca se esquece disso.

Serviço Grupo Galpão

TEMPORADA: 5 a 13 de junho de 2021 (aos sábados e domingos)

HORÁRIOS:
Experiência estendida – sábados e domingos – de 11h às 19h
Experiência compacta – sábados e domingos – 20h às 21h30

Retirada de Ingressos

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