Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

5 razões para não deixar de visitar a obra O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim

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O Barco, de Grada Kilomba, é uma das novidades apresentadas por Inhotim em 2024. A obra fica em exposição no museu até 2026

Por Carol Braga

A multi-artista Grada Kilomba é uma mulher de voz grave e baixa. Tem um sorriso discreto e muita firmeza no falar. É aquele tipo de pessoa que, enquanto se pronuncia, provoca uma atmosfera de silêncio ao redor. O que ela diz, o que ela faz, o que ela representa, precisa ser ouvido, visto, lido. Por isso, na sua próxima visita ao Inhotim, considere fortemente uma passagem pela Galeria Galpão, onde está O Barco (2021). 

Grada Kilomba. Performance Inhotim. Foto: Daniela Paoliello
Grada Kilomba. Performance Inhotim. Foto: Daniela Paoliello

Trata-se da primeira vez que esta obra escultórica atravessa o Oceano Atlântico e é apresentada em um país colonizado por portugueses cuja história também é marcada pela exploração da mão de obra de pessoas escravizadas. 

Com uma abordagem inovadora e engajada, Grada Kilomba (1968) combina em sua obra arte, teoria e ativismo. De maneira interdisciplinar, ela tece críticas contundentes ao racismo, sexismo e colonialismo.

Instalação

O Barco é uma obra escultórica com 134 blocos de madeira queimada que desenham a silhueta de um navio. É a representação das embarcações usadas para acomodar pessoas africanas escravizadas na travessia do Atlântico. Em 18 blocos tem uma poesia, gravada em dourado, à mão, pela própria artista.

“É um objetivo vivo”, como Grada define. Segundo ela, não é uma peça que possa ser mandada e instalada. “É um objeto que começa pela própria matéria”. No caso, a madeira. Todo o processo de criação da instalação é repleto de artesanias, poesia e curiosidades. O Barco é uma obra que aborda temas importantes como a escravidão, o racismo e a violência colonial. 

A seguir, listamos algumas razões para você não deixar de conhecer.

Valorização do processo artesanal

Grada Kilomba contou que começou a elaborar O Barco em 2018 e pesquisou outras matérias primas até chegar à madeira, que, segundo a artista, se revelou um material muito interessante. “Passa por um processo de queima que também é quase performativo”, conta. A lenta combustão faz com que os blocos que, inicialmente pareciam iguais, revelem suas particularidades. “A madeira revela sua singularidade e lembra-nos que todas nós, as entidades humanas e não humanas, materiais e imateriais, são simulados nessa constelação”. 

A etapa seguinte é a organização da disposição dos blocos. De acordo com Grada Kilomba, é um processo detalhado e que envolve muita matemática. “Temos que calcular todos os ângulos ideais, a geometria universal que o olho humano consiga captar a grandeza do barco”, conta. O passo seguinte é gravar a poesia. “Acho que todas as minhas obras demandam trabalhos físicos, muita atenção e dedicação”, resume. 

O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação
O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação

Uma experiência sensorial única

Apesar de estática, a instalação “O Barco” é uma experiência imersiva que convida o público a refletir sobre a diáspora africana e o colonialismo. 

O poema de O Barco tem cada verso em um pedaço de maneira e em quatro idiomas diferentes: iorubá, kimbundu, crioulo cabo-verdiano, português, inglês e árabe da Síria. O trabalho de Grada Kilomba sempre envolve o máximo de comunidades possíveis. “Imigrantes e refugiados são as pessoas que vão trazer a dimensão não só do passado, das línguas que atravessavam os oceanos, mas também do presente. Os mesmos barcos, as mesmas pessoas continuam a atravessar águas e a cair no fundo dos oceanos. É interessante explorar esta arquivologia da nossa existência”, ressalta.

Além da poesia, a música é outra camada que carrega importantes significados na obra de Grada Kilomba. A artista sempre trabalha com composições próprias, edição e repetição de sons na trilha sonora. O Barco também é, ocasionalmente, uma performance encenada por um grupo de cantores de gospel, ópera, bailarinos clássicos e percussionistas. 

No fim de semana de estreia a performance foi apresentada por artistas de diversas nacionalidades africanas, mas radicados em Lisboa. A atriz e dançarina brasileira Camila Damião fez parte do elenco. Nas demais apresentações, Grada vai dirigir um grupo de artistas locais de Brumadinho. “É uma peça que habita corpos, memórias e biografias”. 

Temas sempre urgentes

“Quais são as histórias que nós nos lembramos? Quais histórias não esquecemos? Que corpos lembramos? Que corpos apagamos?”. Estas são algumas perguntas que nortearam o desenvolvimento da obra e surgiram de uma inquietação da artista. “Como pudemos apagar uma das histórias mais longas e horrendas da humanidade, a da escravatura, não está representada na arte pública, no espaço público?”, diz.

Para ela, uma das funções de uma artista é justamente dar visibilidade para temas como estes. Por isso, a obra também carrega reflexões sobre a colonização. “O barco parece um pouco como uma conversa com esses movimentos que usam o barco como uma metáfora de glória, aventura, de força e com terminologias infantis como ‘descobrimento’. Como continentes com milhões de pessoas podem ser descobertos?”, questiona.

Segundo Grada Kilomba, são narrativas perpetuadas e que ela, como artista, entende que tem o dever de provocar reflexões daquilo que habita o inconsciente coletivo.  “E perguntar o que é que estes barcos traziam no seu fundo? Quem ia lá dentro? Por que e para que? Isso é o que a obra revela”, diz. Assim, O Barco faz uma radiografia, uma arqueologia da nossa existência. 

O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação
O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação

Prestar atenção nos traumas históricos 

Por isso é tão forte caminhar entre as toras de madeira que formam o barco. Grada Kilomba conta que a arquitetura da instalação é muito minuciosa pois pretende reproduzir exatamente a acomodação das pessoas africanas no fundo dos barcos. Ou seja, seres humanos eram transportados como aquelas madeiras: na horizontal, sem qualquer possibilidade de movimento. Cada pessoa tinha apenas cerca de 20 centímetros de espaço entre o rosto e o teto do do porão do navio. 

“É quase incompreensível que durante centenas de anos esse método foi existente e legal nos impérios europeus”. Então, as peças representam, de fato, corpos. Por isso, segundo Grada, a madeira é uma matéria prima tão importante. “Pois revela realmente um corpo, uma pessoa única. Mas a dimensão também revela o espaço que as pessoas tinham”. 

O significado de estar em Inhotim

A estreia de O barco foi no MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, um museu dedicado às artes contemporâneas em Lisboa. Depois disso, esteve em Berlim e também em Londres. No caso da Inglaterra, ocupou o centro de um palácio do século XVIII, a Somerset House, hoje uma instituição dedicada às artes. Ou seja, é a primeira vez que o barco, literalmente, cruza o oceano. 

O Barco em Minas Gerais convida a refletir não apenas sobre a beleza estética da obra, mas também sobre as camadas profundas de significado que ela carrega. Em um estado marcado pela história da colonização portuguesa, da exploração da mão de obra escrava e da economia baseada na extração de recursos naturais, a obra emerge como um testemunho silencioso das complexidades do passado e do presente.

O barco confronta narrativas hegemônicas e, assim, questiona os legados persistentes do colonialismo e da escravidão. Visitar essa simbólica embarcação em Inhotim é um convite  a mergulhar nas águas turbulentas da história, a reconhecer as injustiças do passado e a buscar caminhos para uma transformação mais justa e igualitária no presente.

O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação
O Barco, de Grada Kilomba, no Inhotim. Foto: Icaro Moreno/Divulgação

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