Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Afeto e Luta – Bruna Caram Canta Gonzaguinha” chega às plataformas

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Em seu sétimo álbum, Bruna Caram presta uma bela contribuição à memória de Luiz Gonzaga Jr, o Gonzaguinha

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Em julho do ano passado, a cantora Bruna Caram ocupou o palco da charmosérrima Casa Outono, no bairro do Carmo, para mostrar ao público belo-horizontino um aperitivo do projeto ao qual estava se dedicando de corpo e alma: um disco dedicado ao repertório de Luiz Gonzaga Jr., o Gonzaguinha.

A cantora Bruna Caram, em foto de Rodolfo Magalhães
A cantora Bruna Caram, em foto de Rodolfo Magalhães

A Casa Outono, quem conhece sabe, propõe eventos de viés mais intimista, até pela sua própria capacidade de lotação – mas, principalmente, pelo seu perfil. Assim, o show de Bruna Caram ficou lotado, mas foram poucos os que tiveram o privilégio de assistir a uma performance belíssima e apaixonada.

A partir desta sexta-feira, a voz de Bruna a serviço do cancioneiro de Gonzaguinha ganha potente amplificação com a chegada, às plataformas de streaming, do disco “Afeto e Luta – Bruna Caram canta Gonzaguinha”, seu sétimo de carreira.

Na expectativa de que a cantora volte logo à capital mineira, o Culturadoria conversou com Bruna sobre o novo projeto.

Bem, de início, como se deu o início desta empreitada?
Este projeto surgiu muito naturalmente, durante o período da pandemia, quando cantar, mesmo que à distância, virtualmente, era uma maneira de a gente se sentir vivo ainda e criativo. Fiz uma série de lives comemorativas e de homenagens, e dediquei algumas a determinados compositores. Um deles foi Gonzaguinha.

E quando cantei esse repertório, que há muitos anos não visitava, senti uma coisa diferente mesmo. Senti que as canções eram muito pertinentes para o momento histórico que a gente estava vivendo. Estava muito emocionada também, então, senti que ali havia alguma coisa de especial.

Na verdade, depois, fiz uma votação sobre qual projeto feito durante a pandemia o público queria ver mais. E foram os meus seguidores que pediram para eu cantar mais Gonzaguinha.

Você esperava este resultado?
Bem, na verdade, fiquei surpresa e muito feliz, ainda mais ao pesquisar e ver que não estava acontecendo nenhum projeto em homenagem a ele. Conheço muito a obra do Gonzaguinha, foi um compositor muito presente na minha vida desde a adolescência, e acho que é um prato cheio para qualquer intérprete.

Logo que houve a votação e os fãs pediram para que eu continuasse, fui direto falar com o Norberto Vinhas (que assina os arranjos), violonista que me acompanha há muitos anos. Ele é um músico sensacional, dos melhores do Brasil, e é também produtor musical. Então, propus de a gente ir gravando aos poucos o disco. Talvez tenha sido a gravação de disco mais longa da minha carreira toda.

E por qual motivo?
Eu quis fazer com mais calma mesmo. Até porque, a gente não sabia quando a pandemia, aquela reclusão, acabariam. Além disso, as músicas tinham uma profundidade tão grande… E eu queria alcançar uma interpretação tão difícil pra mim no estúdio e sem plateia que resolvi ir para a estrada, para melhorar a minha maneira de cantar aos olhos do público. E acho que foi uma escolha maravilhosa.

O que motivou o convite para que o Jean Wyllys assinasse a pesquisa de repertório?
O Jean é uma figura que eu acompanho há muito anos. Já era fã, admirava. A gente se conheceu pelas redes sociais. Ele curtiu algo meu, eu mandei uma mensagem, a gente acabou se falando bastante. Eu não sabia que ele era diretor de projetos, inclusive, já dirigiu shows de cantoras de música brasileira. Ele adora, é um conhecedor. E conforme a gente foi conversando, eu tive essa ideia de perguntar para ele se conhecia a obra do Gonzaguinha, que eu ia fazer um disco em homenagem a ele, se gostaria de trabalhar de alguma forma no projeto. E fiquei surpresa quando ele respondeu que se considerava um dos maiores fãs de Gonzaguinha do Brasil.

Daí, a gente começou a se falar virtualmente, né, por vídeo. E ele acabou trazendo, para o repertório, canções que eu não conhecia do Gonzaguinha, por isso assina a pesquisa de repertório. Depois, fez o primeiro roteiro do show. Assim, à distância, mas lindamente.

Aliás, imagino que deva ter sido uma tarefa hercúlea, a seleção de repertório….
Todo mundo pergunta muito do repertório, das escolhas. É claro que é muito difícil escolher entre a obra inteira de um artista maravilhoso quais as canções que a gente vai gravar, mas a primeira coisa que prometi para mim mesma é que eu não ia sofrer. Que o disco era o disco, o show era o show, e a obra do Gonzaguinha com certeza é maior que ambos.

Mas eu tinha que fazer um recorte da minha história e do que eu sinto que quero dizer, então, a primeira coisa que escolhi foram as canções que, na minha visão, não podiam faltar de jeito algum. Foram elas: “Sangrando” (que acho que é a canção hino de qualquer grande intérprete, de qualquer pessoa que ama cantar com o coração, é uma música que eu tenho medo de cantar até hoje, embora ame muito) e “Não dá mais pra Segurar (Explode Coração)”.

São duas canções, assim, tão intensas pra mim, que eu tive receio. Tive que estudar muito, tive que procurar muito a própria interpretação, porque a gravação do Gonzaguinha me pega demais. E aí foram vindo outras canções, como, por exemplo, “Eu Nem Ligo”, que fez muito parte da minha adolescência. Me curou de muitas situações difíceis.

Já “Com a Perna no Mundo”, samba-enredo no qual ele conta a própria história, tinha certeza que teria que existir no repertório. O Jean trouxe “Viver, Amar, Valeu”, que eu não conhecia, o Gonzaguinha não chegou a gravar. E que, para mim, fala de maternidade, e eu tendo me tornado mãe na pandemia, foi super importante cantá-la. Então, cada uma foi sendo um motivo novo, diferente e muito especial. O show tem canções que não estão no disco e eu tenho vontade de ainda gravar um desdobramento do álbum. E que bom, isso.

Me lembro de você falar, no show da Casa Outono, que “Lingo Lago do Amor” não estava no disco, mas você acabou dando uma palinha…
Realmente, em BH foi o primeiro show no qual pediram “Lindo Lago do Amor”, e, a partir daí, a música entrou de vez no set list. Houve canções as quais fui visitando ao longo da turnê e que foram me marcando de uma nova maneira. “Lindo Lago do Amor”, não tinha pensando em gravar antes. De repente, achamos uma maneira de fazê-la no frevo. E ao encontrar a minha maneira como intérprete, já passo a ter vontade de gravar.

Aliás, uma das minhas canções favoritas do Gonzaguinha não está no disco nem no show, de tão forte que é pra mim, e pelo fato de não ter achado uma maneira de cantar diferente da dele. Estou falando de “De Volta ao Começo”, uma música que gosto de ouvir ele cantando para mim. Preciso encontrar a minha maneira de cantar pra ele ainda (ri).

Outra música que gostaria de gravar é “Começaria Tudo Outra vez”. Na verdade, são muitas as faixas que gostaria de gravar num desdobramento deste disco, mas, primeiro, vamos lançar esse e ver o que acontece. A plateia também me ajudará a escolher os próximos passos.

Como foi, para você, ter o aval da família de Gonzaguinha?
Sim, foi muito especial ter a própria filha do Gonzaguinha, a Nana Gonzaga, neste processo, e, aqui, agora na reestreia da turnê, o Daniel Gonzaga. Conversei também com a Amora Pêra. Tudo isso, ter contato, conseguir falar com os filhos do Gonzaguinha, pessoas que conviveram tão de perto com ele e ainda por cima que foram os grandes amores da vida dele… Só de falar, me dá vontade de chorar (Bruna faz uma pausa, perceptivelmente emocionada).

Porque eu sei, por estudar a obra do Gonzaguinha e a vida dele, sei a paixão que ele tinha pelos filhos. E sei a paixão que tenho pelo meu (filho). É um sonho realmente, ter a família dele por perto. Eu não esperava esse reconhecimento, essa proximidade. Nem no maior dos meus sonhos, eu imaginei isso.

Então, eu fico muito feliz, muito honrada, e foi de uma forma muito natural e espontânea que eles chegaram perto, isso me deixou muito tocada. E me possibilita também cantar ainda mais a obra conhecendo a vida, e isso é muito especial. Nem sempre a gente tem essa oportunidade, de contar também a história de quem teve aqueles sentimentos, aquelas ideias que viraram música e que transformaram a vida das pessoas. É maravilhoso.

Que palavras você usaria para descrever a obra de Gonzaguinha?
A obra dele, pra mim, é visceral, é apaixonante e é repleta de gritos de libertação. Mas, mais que isso, escolhi o “Afeto e Luta” (como nome do projeto) porque eu percebo, na obra dele, mesmo nas canções de luta, uma alegria de viver grande. Acho muito bonito, ao mesmo tempo essa profundidade de algumas canções e essa leveza e alegria de viver, quase um elogio à infância, ou às vezes o próprio elogio à infância.

Eu acho importante que em momentos sombrios como o que a gente viveu – e a gente ainda não saiu completamente… Acho importante que a gente cante a bandeira da alegria, acho importante que a gente saiba fazer críticas de forma não amargurada, não ‘vencida’ mesmo. A música dele, pra mim, é uma música de esperança, libertação, em todos os seus momentos. Mesmo nas letras mais densas e também nas mais alegres. E eu queria levar ao mundo a imagem da bandeira da alegria da música de Gonzaguinha.

Eu sei, eu li, que, no começo da carreira, ele foi chamado por parte da imprensa de “o cantor rancor”, e isso marcou muito. Mas, pra mim, ele não é nada disso, e queria mostrar a minha visão.

Antes de terminar, gostaria de acrescentar algo?
Queria contar que, além de ser o disco com o processo mais longo da minha carreira, ele já é o mais emocionante pra mim, por tudo que carrega de história. E também que, embora seja um disco meu, é também de muitas pessoas.

Durante o processo dele, aprendi com quem eu posso contar, e nunca vou me esquecer disso, de quantas pessoas me ajudaram, de quantas coisas foram difíceis, de quantas vezes eu duvidei e de quantos foram os braços que me abraçaram para eu estar aqui, agora. É tão bonito quando a gente sente que nunca está sozinho, por mais que pense estar, como diz a canção do Gonzaguinha,

Ah, sim. Já tem data para voltar a BH?
Pretendo muito voltar a BH, foi um dos lugares mais emocionantes em que eu estive. O lugar que fiz o show, a Casa Outono, é apaixonante. Me aguardem. Eu tenho uma grande paixão pelo show desta turnê, por várias questões.

Primeiro, por estar finalmente lançando um álbum durante a turnê, um sonho para qualquer pessoa que ama estar no palco. Segundo, porque eu consegui fazer uma preparação de corpo muito especial durante a produção do disco, com a Letícia Doretto. E essa preparação de corpo modificou até os arranjos do show, foi trazendo ideias para a produção do disco. Isso é muito incrível pra mim. Gosto de pensar na arte como um todo, na música como dança, movimento, interpretação, cinema, figurino… Tudo.

O figurino da Bia Rivato também foi muito especial. Ele foi se modificando ao longo da turnê, isso pra mim também foi importante. Fiz sempre questão que o figurino me permitisse movimento para eu dançar, já que fiz essa preparação de um ano de danças brasileiras.

No mais, eu trouxe canções que marcaram a minha vida e que sei que também marcaram a vida de muitos fãs do Gonzaguinha. E o repertório vai se modificando ao longo da turnê, o que é muito saudável. Eu acho saboroso (risos) para uma cantora. A mais recente que entrou é “Pequena Memória para um Tempo sem Memória”. E, veja, só sou capaz de cantar essa música agora porque a gente está em um momento melhor da pandemia. Praticamente, o pior já passou. E falo no show que canto essa música para que a gente não se esqueça do que aconteceu.

A gente tem uma vocação para ser feliz, isso é da nossa cultura, do nosso brasil. E ainda bem. Mas não quero que a gente se esqueça das 700 mil pessoas que se foram por causa de um abandono total. E essa música do Gonzaguinha tem tudo a ver com isso.

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