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Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Globo de Ouro 2020: mais uma derrota do streaming?

Premiação foi entregue na noite do dia 05 de janeiro e confirmou que a indústria do cinema ainda é mais tradicional do que parece

Por Carol Braga

06/01/2020 às 10:10

Publicidade - Portal UAI
Foto: HFPA Photographer/ Divulgação

A lista de indicados do Globo de Ouro estava bem generosa para quem gosta de ver os filmes em casa. O Irlandês, que Martin Scorsese fez diretamente para a Netflix, aparecia como um dos favoritos nas bolsas de apostas. Além dele, somente entre os indicados a melhor filme de drama, havia outros três na mesma plataforma: o excelente Dois Papas, de Fernando Meirelles e História de um Casamento. E o que deu?

Mais do mesmo. Pelo menos nas categorias principais, a vitória de 1917, de Sam Mendes e Era uma vez em … Hollywood, de Quentin Tarantino, mostra o quão apegados os jornalistas estrangeiros que cobrem a indústria do cinema em Los Angeles ainda estão à tradição.

Veja bem: por mais inovador que seja na linguagem, 1917 é um filme de guerra. Era uma vez em … Hollywood é uma ode à la Tarantino à história do cinema. Ambos foram feitos para a tela grande, nada de streaming. Inclusive, 1917, como nos velhos tempos, só estreia no Brasil no dia 23 de janeiro.

Em 1917, Sam Mendes usou uma técnica que faz parecer que o longa foi todo feito em um plano sequência. Nesse sentido, foi inovador. Mas foi elegantemente conservador no discurso de agradecimento. “Eu realmente espero que isso signifique que as pessoas apareçam e vejam na tela grande, da maneira como foi planejado”, disse Mendes que também faturou a estatueta de melhor diretor. Bem, mais uma vez, está dado o recado.

SURPRESAS

É fato que o resultado deste Globo de Ouro foi peculiar. Especialmente em duas categorias. Entre as animações, surpresa total Link Perdido ter desbancado grandes produções como O Rei Leão, Frozen II, Como Treinar Seu Dragão 3 e Toy Story 4. Um ótimo sinal de renovação já que todos os outros são continuações ou refilmagem, no caso de O Rei Leão.

Outra surpresa foi a vitória da atriz chinesa Awkwafina de The Farewell. Ela desbancou grandes atrizes como Cate Blanchet e Emma Thomspson.

 

Michelle Williams recebe o Globo de Ouro. Foto: HFPA Photographer

 

TOM POLÍTICO

Se, como sempre, os convidados do Globo de Ouro enfiaram o pé na jaca das comidas e bebidas durante a cerimônia, em 2020 o cardápio era vegano. Joaquin Phoenix, o merecido vencedor do prêmio de melhor ator de drama, entendeu isso como um silencioso posicionamento em relação ao meio ambiente. Os incêndios na Austrália, a preocupação sobre a alteração climática, tiveram mais vez nos discursos do que o conflito bélico entre EUA e Irã.

Na categoria discurso, Michelle Williams (melhor atriz telefilme/limitada por Fosse/Verdon) e Patrícia Arquette (Melhor Atriz Coadjuvante Série/Telefilme por The Act (Hulu) chamaram atenção. A primeira falou sobre escolhas e fez um chamado às mulheres. “Então, mulheres de 18 a 118 anos, quando for a hora de votar, faça-o por seu interesse. É o que os homens fazem há anos, e é por isso que o mundo se parece muito com eles, mas não se esqueça de que somos a maioria neste país. Vamos fazer com que pareça mais com a gente “.

Arquette, veterana no prêmio, também chamou a atenção para o voto e deixou claro o medo da guerra. “Estou muito grata por estar aqui e celebrar isso, mas também sei que hoje à noite, 5 de janeiro de 2020, não vamos olhar para trás nesta noite … nos livros de história, veremos um país à beira da guerra.”

Aliás, uma crítica contundente ao Globo de Ouro 2020 foi quanto à diversidade dos indicados. Não teve mesmo. O emburrado apresentador Ricky Gervais até fez “piada” com isso antes de chamar a dupla que anunciaria o prêmio de melhor diretor para Sam Mendes. O que muitas mulheres celebraram foi a vitória de Hildur Guðnadóttir como criadora da trilha Sonora de Coringa.

SÉRIES

Se na parte dos filmes o resultado do Globo de Ouro foi bem tradicionalzão, o que foi um pouco diferente nas séries foi o reconhecimento de atores/produtores. Phoebe Waller-Bridge e Ramy Youssef, respectivamente vencedores dos prêmios atriz e ator em comédia, são também os produtores de Fleabag e Ramy. E mais: eles são jovens e sinalizam uma mudança importante. O protagonismo não depende somente do tamanho do estúdio mas está funcionando também para quem teve a ideia.

No resultado geral, embora os troféus tenham sido bem distribuídos, HBO saiu como vencedora. Foram dois prêmios para Sucession e a mesma quantidade para Chernobyl.

E O OSCAR?

Melhor não criar grandes expectativas. Estes prêmios ainda são feitos para contemplar uma indústria que não reconhece o streaming como cinema. Igual criança mimada: empresta a bola, mas na hora do vamos ver, emburra e diz que a bola é dela.

 

Quentin Tarantino. Foto: HFPA Photographer/Divulgação

CINEMA Globo de Ouro 2020:

Filme Drama: 1917

Filme – Comédia/Musical: Era uma Vez em… Hollywood

Direção: Sam Mendes, 1917

Ator – Drama: Joaquin Phoenix, Coringa

Atriz – Drama: Renée Zellweger, Judy

Ator – Comédia/Musical: Taron Egerton, Rocketman

Atriz – Comédia/Musical: Awkwafina, The Farewell

Ator Coadjuvante – Brad Pitt, Era uma Vez em… Hollywood

Atriz Coadjuvante – Laura Dern, História de um Casamento

Roteiro – Quentin Tarantino, Era uma Vez em… Hollywood

Animação – Link Perdido

Filme Estrangeiro – Parasita, de Bong Joon Ho

Trilha Sonora – Hildur Guðnadóttir, Coringa

Canção Original – (I’m Gonna) Love Me Again (Elton John), Rocketman

 

TELEVISÃO:

Série – Drama – Succession (HBO)

Série – Comédia Fleabag (Amazon)

Ator – Drama – Brian Cox, Succession

Atriz – Drama – Olivia Colman, The Crown (Netflix)

Ator – Comédia – Ramy Youssef, Ramy(Hulu)

Atriz – Comédia – Phoebe Waller-Bridge, Fleabag

Ator Coadjuvante – Série/Telefilme – Stellan Skarsgard, Chernobyl

Atriz Coadjuvante – Série/Telefilme – Patricia Arquette, The Act (Hulu)

Telefilme/Série limitada – Chernobyl (HBO)

Ator – Telefilme/Série limitada – Russell Crowe, The Loudest Voice

Atriz – Telefilme/Série limitada – Michelle Williams, Fosse/Verdon

 

Prêmio Cecil B. DeMille – Tom Hanks

Prêmio Carol Burnett – Ellen Degeneres

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