Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

FIT BH 2024: a magia do Giramundo em “Os Orixás”

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No FIT BH, o Giramundo apresentou “Os Orixás”, que mostra a gênese do mundo, da terra e do mundo sob a ótica do panteão africano

Patrícia Cassese | Editora Assistente

A gênese do mundo, da terra e do homem, sob a ótica do panteão africano. Esta é, sinteticamente, a proposta de “Orixás”, montagem do grupo Giramundo que veio à luz em 2001. À época, o criador do grupo mineiro de bonecos, Alvaro Apocalypse, ainda era vivo – ele faleceu em 2003, aos 66 anos. Passados 18 anos, veio a vontade de atualizá-la, uma decisão sem dúvida prudente.

Cena do espetáculo "Os Orixás", do grupo de teatro de bonecos Giramundo (Marcelo Gandra/Divulgação)
Cena do espetáculo "Os Orixás", do grupo de teatro de bonecos Giramundo (Marcelo Gandra/Divulgação)

Assim, em “Orixás”, a trilha sonora foi refeita pelo mineiro Sérgio Pererê. Desse modo, as vozes foram regravadas por cantores e atores negros, entre os quais, Maurício Tizumba, Djonga, Fabiana Cozza e Júlia Tizumba, além do próprio Pererê. E foi justamente esta a montagem do icônico`grupo Giramundo a ser incluída na grade do FIT 2024.

Sessão

A sessão acompanhada pelo Culturadoria foi a da terça-feira, 25 de junho, no Cine Theatro Brasil Vallourec. Uma primeira foi realizada no dia 24, no mesmo local. Bem, o horário não era dos mais convencionais para uma sessão de teatro em um dia útil: 15h. Assim, os assentos foram preenchidos majoritariamente por alunos da rede pública. E de faixas etárias bem distintas. Todavia, o público espontâneo também assentiu ao convite de modo razoável, numericamente falando. Ao final, os aplausos vieram fortes.

A companhia

Analisar a competência do que está se desenrolando no palco, no caso de um propositor da envergadura do Giramundo, é quase um acinte, dada a excelência do trabalho que o grupo desenvolve há mais de 50 anos. Criado por Terezinha Veloso, Maria Antonieta Martins (Madu) e pelo já citado Apocalypse, no inicinho dos anos 1970, o Giramundo segue encantando gerações com o seu teatro de bonecos que coloca a competência dos titereiros a serviço de boa dramaturgia (com muitas adaptações de clássicos). Tal qual, com elementos cênicos (como a iluminação ou, no caso de “Orixás”, as projeções, de cair o queixo, como no caso da floresta) oriundos de decisões acertadas.

Bonecos

Não fossem já elementos suficientes para garantir uma fruição memorável – e não só para crianças -, há que se falar dos protagonistas. Ou seja, os bonecos. Basta entrar no site oficial do Giramundo para se constar. O Museu Giramundo é, hoje, guardião do maior acervo de teatro de bonecos do Brasil. De acordo com o próprio grupo, cerca de 1500 bonecos já ganharam vida no curso da trajetória. Títeres criados com as mais variadas técnicas de construção de marionetes, e que já atuaram em 38 montagens. 

No caso de “Orixás”, espetáculo que tem direção geral de Beatriz Apocalypse, os bonecos são deslumbrantes. Imponentes, no caso de algumas das entidades representadas, cativantes, no caso de outras, como os erês.

No FIT BH

Dito tudo isso, cabe apenas, e (muito, muito, muito) respeitosamente, deixar registrada, aqui, uma argumentação. Vamos lá. O texto de “Orixás” não é, assim, tão decodificável para todas as faixas etárias. A começar pelo fato de serem vários, os orixás arrolados na dramaturgia: Olodumaré, Oxalá, Nanã, Exú, Obaluaê, Iemanjá, Ogum e Oxossi.

Sendo assim, talvez uma montagem que se revela tão pertinente aos dias atuais (onde se vê registros de reações absurdas acionadas pela intolerância religiosa) e tão potente como tal tivesse uma recepção mais assertiva se apresentada para um público formado por uma faixa etária talvez, mais próxima da pré-adolescência. Não sei se crianças de faixas etárias mais baixas (como muitas das que estavam lá, na apresentação do FIT BH) têm, ainda, o repertório necessário para apreender e decodificar o que estava sendo falado no palco.

Ulisses Tavares, do Grupo Giramundo, e um dos bonecos de "Os Orixás" (Patrícia Cassese)
Ulisses Tavares, do Grupo Giramundo, e um dos bonecos de “Os Orixás” (Patrícia Cassese)

E, talvez, até mesmo por se tratar de um festival que certamente visa também a formação do público, não é de todo impertinente aventar que um outro espetáculo do fabuloso Giramundo talvez fosse escolha mais acertada. Repetimos: neste caso em particular. Mais uma vez, pois, que fique claro, claríssimo: o espetáculo “Orixás” é não menos que deslumbrante. A trilha é maravilhosa, os bonecos são incríveis e as projeções, fantásticas. Portanto, é uma pontuação feita pisando em ovos, pois se destina única e exclusivamente a especular o quanto uma criança da dita segunda infância, por exemplo, tem instrumental para elaborar tanta informação.

Por último, mas não menos importante, parabéns aos manipuladores, que, simpáticos e atenciosos que só, ao fim da apresentação se dirigiram ao saguão do Cine Theatro Brasil Vallourec portando os bonecos, a fim de um contato mais próximo com o público (abaixo, os fofos Erês).

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