Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

FLIP encerra a edição 2023, que este ano homenageou Pagu

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Apesar do forte calor e de um apagão, a FLIP trouxe debates potentes e lotou as ruas da cidade fluminense de Paraty

Patrícia Casseses | Editora Assistente

Desta vez, não teve a presença de uma Nobel de Literatura, como no ano passado, com a francesa Annie Ernaux, mas a 21ª Festa Literária de Paraty, encerrada neste domingo, deixou a impressão de ter atraído ainda mais gente que a edição anterior. Pelo menos, as ruas, pousadas e restaurantes estavam lotados. Inclusive, alguns estabelecimentos estenderam o horário de funcionamento de olho no público em potencial. O grande problema, pelo menos nos dois dias iniciais, foi mesmo o forte calor. A temperatura estava tão alta que as pessoas suavam em bicas.

No caso específico da quinta-feira, teve, ainda, o apagão, que deixou o centro histórico às escuras. Na verdade, desde a quarta, o que mais se ouvia era que a cidade estava operando com meia fase. Assim, em muitos cafés e restaurantes, não era possível ligar o ar condicionado ou mesmo os ventiladores. Com o ocorrido, não foram poucos os que foram às redes socias clamar para que, a partir do próximo ano, o evento voltasse a ser realizado em julho (ao que consta, em 2024 será em setembro), quando as temperaturas costumam ser mais amenas.

Entre chuva, sol forte e um belo arco-íris, Paraty mais uma vez atraiu dezenas de pessoas para a FLIP (Foto: Patrícia Cassese)
Entre chuva, sol forte e um belo arco-íris, Paraty mais uma vez atraiu dezenas de pessoas para a FLIP (Foto: Patrícia Cassese)

Um apagão

Fato, os jornais nacionais deram muita repercussão ao apagão, mesmo porque, a companhia responsável pela distribuição de energia é Enel, a mesma concessionária que administra o serviço em São Paulo, que recentemente também registrou um apagão. “Informamos que um raio atingiu a linha de distribuição Mambucaba-Paraty e causou oscilação de tensão no sistema elétrico que atende a cidade”, disse um post da Enel, no X, na quinta-feira. A reportagem do Culturadoria encontrou pelo menos duas pessoas – uma delas, uma escritora mineira – que decidiram antecipar o retorno por conta do apagão. Em tempo: a luz voltou por volta das 23h.

A filósofa italiana Silvia Federici (Sara de Santis/FLIP)
A filósofa italiana Silvia Federici (Sara de Santis/FLIP)

No entanto, na sexta-feira, o forte calor deu uma trégua e, embora as ruas estivessem com água empoçada, a vida voltou ao normal. Assim, a primeira mesa do dia, que reuniu Joice Berth, Manuela D’Ávila e Denise Carrascosa, lotou. As três contaram com a excelente mediação de Adriana Ferreira Silva – segura, precisa, com perguntas mais objetivas. Ao final, os aplausos entusiasmados comprovaram que a fala das três impactaram a plateia.

As casas literárias

O público presente à cidade para FLIP também prestigiou as casas ocupadas por outras editoras, que fazem uma programação associada concorrida e muito rica. Na Casa Folha, por exemplo, um grande número de pessoas do lado de fora tentando ouvir o que está sendo dito nas mesas lá dentro já é uma constante. A Casa Paratodos, como de praxe, trouxe ótimos debates, como o que reuniu Carola Saavedra e a portuguesa Joana Bértholo, que desenvolveram o tema “Literatura, Natureza e Transformação”, mediado pela jornalista Paula Jacob. O charmoso espaço abrigou editoras como a mineira Relicário, assim como a Nós, a Tabla, a Dublinense e a Roça Nova.

Ali perto, na Casa Janela + MapaLab, vários cômodos ficaram lotados com leituras, lançamentos e debates.

Pela Relicário, a escritora Carola Saavedra se juntou à portuguesa Joana Bértholo, da Dublinense, na Casa Paratodos (Patrícia Cassese)
Pela Relicário, a escritora Carola Saavedra se juntou à portuguesa Joana Bértholo, da Dublinense, na Casa Paratodos (Patrícia Cassese)

Às 19h, o mineiro Ronaldo Fraga adentrou o espaço para lançar o livro “Memórias de um Estilista Coração de Galinha”, chancelado pela Editora Autêntica (também mineira), e que assina junto à jornalista e escritora Sabrina Abreu. O evento teve a mediação de Bianca Ramoneda. Na foto abaixo (Núdia Fusco/Divulgação), os três, falando à plateia.

Carla, Eliane, Lubi…

Enquanto isso, na tenda principal, o debate das 17h, trouxe Carla Akotirene (que foi ovacionada), junto à escritora e videoartista nigeriana Akwaeke Emezi. Na sequência, outra conversa potente até a medula reuniu Eliane Marques, Lubi Prates e a argentina Laura Wittner, com mediação da portuguesa Patrícia Lino. Eliane Marques, vale dizer, teve lançado, pela editora mineira Autêntica, o livro “Louças de Família”, que autografou na FLIP.

Carla Akotirene,  militante, pesquisadora, autora e colunista no tema feminismo negro no Brasil (Flickr/FLIP)
Carla Akotirene, militante, pesquisadora, autora e colunista no tema feminismo negro no Brasil (Flickr/FLIP)

No sábado, o mineiro Ricardo Aleixo foi um dos destaques da programação, com a mesa sobre Augusto de Campos, na Tenda Principal.

O escritor mineiro Ricardo Aleixo, que participou de concorrida mesa (Flick FLIP)
O escritor mineiro Ricardo Aleixo, que participou de concorrida mesa (Flick FLIP)

Outros escritores mineiros que circularam por lá foram Marcela Dantés, Erika Toledo e a poeta e slammer Nívea Sabino. A cantora Juliana Perdigão escolheu um ótimo repertório para o show que apresentou na quinta-feira, na Tenda, mas foi prejudicada pelo horário ingrato: 13h15, já que o sol estava a pino, e o calor, insuportável.

A cantora mineira Juliana Perdigão, que fez show na programação oficial: excelente repertório (Foto: Patrícia Cassese)
A cantora mineira Juliana Perdigão, que fez show na programação oficial: excelente repertório (Foto: Patrícia Cassese)

Impressões gerais

Vivenciar a FLIP é, sem dúvida, uma experiência única. A cidade de fato respira literatura, fica cheia, vibrante, alegre. É empolgante andar pelas ruas e topar com aqueles autores favoritos ali, na sua frente, ou sentados na mesa ao lado da que você escolheu, nos restaurantes. Mas, como todo evento a partir de agora, é hora de a festa literária efetivamente se preparar para as temperaturas intensas que fazem parte da nova realidade, as tais mudanças climáticas para as quais, como bem diz Eliane Brum, já deveríamos estar atentos há muito tempo. Assim, valeria, por exemplo, disponibilizar uma espécie de “ponto de encontro”, com bancos, poltronas e mesmo almofadões no chão, para que as pessoas pudessem descansar entre um debate e outro, ou para se proteger da chuva e do calorão.

Em frente à Casa Folha, sempre uma multidão para tentar ver as conversas (Sara de Santis/Divulgação)
Em frente à Casa Folha, sempre uma multidão para tentar captar um pouco das conversas que se desenovelam no interior (Sara de Santis/Divulgação)

Um espaço com banheiros, com distribuição de água, com ventiladores ou ar condicionado. Neste ano, em um momento de chuva intensa, muita gente acorreu para o espaço central onde a Livraria Cultura fica instalada. No entanto, o espaço tem apenas um pequeno espaço livre em frente, que comporta pouquíssimas pessoas, e em pé. Não bastasse, parte dele é reservado para as sessões de autógrafos que sucedem cada debate – os autores saem imediatamente da Tenda Principal e se dirigem para lá, para fotos e dedicatórias. Em coletiva, Mauro Munhoz, diretor artístico do evento, adiantou, à imprensa, que a próxima edição deve acontecer em setembro – certamente será muito melhor. No mais, salvas à FLIP, por seguir empunhando a bandeira da literatura em tempos de tanto obscurantismo.


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