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11º Fliaraxá: Lucrecia Zappi lança seu novo romance, “Degelo”. Confira a entrevista.

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“Eu tento ouvir instintivamente o que me chama atenção, o que eu não esqueço, o que me obceca”, destaca Lucrecia Zappi sobre seu processo de escrita.

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Ao visitar um museu em Praga, Ana, de repente, se vê encarando o próprio passado. Em sua frente, uma tela retrata Eleonora di Toledo, duquesa de Florença, nascida em 1522. Apesar de retratar a monarca, é outra mulher que ela vê espelhada ali. Assim, numa espiral de coincidências, essa mulher também se chama Eleonora, uma espécie de duplo, de doppelgänger da monarca, de mesmo nome e olhar. Ana encara um passado que preferiria esquecer. 

Foto digital colorida Lucrecia Zappi é branca, tem cabelos castanhos, usa um suéter listrado e tênis amarelo, está sentada e divide o palco com o curador do evento. Muitas luzes azuis são vistas ao fundo.
Lucrecia Zappi na Fliaraxá. Foto Gabriel Pinheiro

Filhas de certa elite paulista, Ana e Eleonora cometeram um crime bárbaro, que chocou a opinião pública brasileira. Ao lado de um terceiro personagem, elo que as uniu, ateiam fogo no corpo de um líder indígena que dormia nas ruas de São Paulo. “Degelo” é o novo romance de Lucrecia Zappi, lançado pela Todavia Livros.

Assim, após o cumprimento das respectivas penas e das tentativas de seguirem num presente frequentemente assombrado pelo passado, as duas mulheres se reencontram nos Estados Unidos, país onde Ana se exila pouco depois de sua saída da Fundação Casa. Enquanto Ana era menor de idade e permaneceu por três anos naquele espaço, Eleonora já havia completado a maioridade, sendo encarcerada na Penitenciária de Santana. 

Inverno

A partir do momento em que as duas mulheres se reencontram, no frio do inverno norte-americano, uma memória compartilhada, congelada no tempo, parece entrar num processo lento, mas constante, de derretimento. Neste degelo que o título do romance carrega, questões e lembranças reprimidas parecem reencontrar a superfície. 

Ao lidar com um acontecimento tão brutal, Lucrecia Zappi parece mergulhar e carregar ecos de uma realidade muito próxima. “Degelo” não é um livro que busca respostas fáceis. Dessa forma, ao acompanharmos suas duas personagens após o cumprimento das respectivas penas, uma série de questões parecem florescer. Qual o papel da memória? O direito ao esquecimento é legítimo? O esquecimento abre caminho para que situações bárbaras sigam acontecimento repetidamente ao longo dos tempos?

Por fim, “Degelo” talvez nos deixe com muito mais perguntas do que respostas. E é essa, afinal, uma das forças da ficção. A de nos colocar no, por vezes, desconfortável e incômodo lugar do questionamento. Das perguntas, talvez, sem respostas. Lucrecia Zappi constrói um romance denso, permeado de camadas, a partir  de personagens complexos. São muitas as portas que “Degelo” nos instiga a abrir, nos obrigando a encarar aquilo que se esconde do outro lado

Conversei com Lucrecia Zappi durante sua participação no 11º Fliaraxá, o Festival Literário de Araxá. Confira abaixo nosso papo sobre “Degelo”:

A trama de “Degelo” parece se conectar  com um crime real e brutal da história brasileira recente. O assassinato do líder indígena pataxó Galdino Jesus dos Anjos. Como surgiu a ideia pro romance? Essa história te acompanha, te assombra desde o acontecido, em 1997?

Eu diria que essa foi uma das das histórias que me levaram a “Degelo”. Essa não é a única, não é uma tradução direta do episódio brutal, muito triste, que a gente viveu em 1997. Infelizmente, esse acontecimento não foi uma exceção. Para onde você olhar, você pode encontrar um crime semelhante. Não sei se você se lembra, houve um momento em que um deles, um dos jovens, disse algo como: “Eu achei que fosse morador de rua, não sabia que era um indígena”. Quando você mergulha nas ruas do Brasil, isso acontece por toda a parte. 

Então, o livro se inspira na lembrança do crime contra Galdino e também numa sensação de que a gente tava perdendo o controle das ruas em São Paulo anos depois. Eu estava saindo do Brasil em 2006 e naquele período houve uma série de questões a respeito de facções que estavam saindo das prisões e as ruas se tornaram um campo de batalha. Isso me chamou muito a atenção e eu acho que foi um momento dramático. As pessoas se deram conta de que as ruas ficaram descarrilhadas, digamos. Viraram “terra de ninguém”. Eu estava estudando as ruas, tentando compreender o que estava acontecendo e esse tipo de crime que era banalizado. Eu queria contar algo nessa direção.

“Degelo” lida, assim, com a questão da memória, do direito ao esquecimento e o gesto de esquecer passados recentes que parece nos tornar vulneráveis a cometer novamente esses crimes.

Capa de Degelo. Editora Todavia

O que te motiva a escrever?

Eu tento ouvir instintivamente o que me chama atenção, o que eu não esqueço, o que me obceca, sabe? Questões que me assombram e que muitas vezes se interconectam. Neste livro, temas como a rua, esses crimes bárbaros e o descaso em relação à memória. Acho que tudo isso está interligado. Mas eu também acredito que a literatura, a ficção, é feita dentro de um mistério. É um pouco como a vida. As coisas vão ramificando e se interconectando ou não. 

Queria te ouvir falar sobre a paisagem urbana nesse romance. São Paulo, Nova York, uma viagem de trem pelos Estados Unidos. A cidade parece um personagem importante aqui. 

Sim, as cidades aqui são importantes. Os lugares por onde esses personagens circulam. É um olhar pro cotidiano. Acho que essa presença das cidades é algo que eu trago desde o meu livro anterior, “Acre”. No processo de escrita dele, eu andei pela por certas ruas de São Paulo, pelo centro onde cresci. Então, eu andava por ali, medindo a respiração do meu protagonista. Eu andava e pensava, “Será que ele pararia nesse instante? Será que ele ignoraria esse semáforo? Ele passaria reto ou pararia aqui e observaria alguma outra esquina?”. Em “Degelo” tem esse momento em que as paisagens estão passando rápido, aquelas cidadezinhas do interior dos Estados Unidos. A personagem as observa através da janela do trem. Essa janela, esse vidro que a separa do exterior, não deixa de ser uma espécie de metáfora da distância dela com as coisas. Da distância dela com as ruas.

Ao longo da leitura, tive a impressão de que foi feito um longo processo de pesquisa pro livro. Em pontos como o assassinado de Galdino Jesus dos Santos, o cotidiano e as histórias de jovens encarceradas na Fundação Casa e o universo da música clássica. Como foi esse processo de pesquisa pro livro?

Eu estava lidando com temas tão específicos e delicados. Bom, eu não sou um antropóloga

criminalista ou uma psiquiatra forense, não conhecia em profundidade esses assuntos. Mas eu gostaria de falar sobre eles. E para isso eu precisei mergulhar numa pesquisa e conversar com gente que conhece essas questões e esses sistemas em profundidade. 

Com relação à Fundação Casa, eu tive a sorte de ter meu romance anterior, “Acre”, selecionado para ser um dos livros de um projeto piloto que tinha como objetivo a remissão da pena por meio da leitura. Isso me levou ao mundo das penitenciárias. Fui conversar com a turma que estava lendo meu livro. Isso me permitiu escutar. Ouvir aquele mundo muito particular. Digamos que são vidas interrompidas.

A partir disso, uma das coisas que eu trago neste novo livro é a questão da educação dentro destes espaços. Essa personagem que decide voltar a estudar dentro de uma penitenciária. E tudo aquilo que cerca uma decisão como essa. Uma mulher de família abastada, presa pelo assassinato de um homem indígena, que decide estudar antropologia em uma universidade pública. Há um embate de discursos a respeito de decisões como essa. Um dos pactos do cárcere deveria ser a educação, levá-la aos apenados. Afinal, ali também pode ser um espaço de reinvenção.

Tem ainda a música clássica, né? Na infância, eu morei ao lado do Sesc Anchieta e eles tinham um programa de música, uma pequena orquestra de cordas para jovens e crianças. Tive contato com violino, viola e piano. Acabei desenvolvendo um ouvido para a música, essa arte tão abstrata. Tenho dois filhos e uma irmã musicista. Conversei muito com um pianista que conheci que tem um programa de música apenas para piano. Assim, fui colecionando os pequenos trejeitos e pensamentos de um pianista. Como ele pensa?

Serviço:

Encontre “Degelo” aqui.

Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural. Escreve sobre literatura aqui no Culturadoria e também em seu Instagram: @tgpgabriel.

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