Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

O Culturadoria foi à mostra de Walter Firmo e conversou com o fotógrafo

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Em cartaz no CCBB BH, a exposição “No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito” traz retratos memoráveis tirados por Walter Firmo

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Simpático e autêntico até não poder mais, na hora agendada para a entrevista com a equipe do Culturadoria, o fotógrafo Walter Firmo não se furtou a admitir que estava cansado. Assim, no hall do CCBB BH, o carioca se deu o direito de sentar-se na primeira cadeira que encontrou pela frente. Na verdade, embora naquele momento estivesse desocupada, o assento era o destinado à funcionária encarregada dos boxes nos quais bolsas e mochilas ficam acondicionadas durante a visitação ao equipamento.

Walter Firmo presta reverência a Clementina de Jesus no CCBB BH (Patrícia Cassese)
Walter Firmo presta reverência a Clementina de Jesus no CCBB BH (Patrícia Cassese)

Vale lembrar que, neste momento, além da mostra “No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito”, o CCBB BH abriga a mostra “Portinari Raros”, com obras de Candido Portinari. Portanto, o prédio anda ficando cheio.

Sim, quando a funcionária retornou, foi preciso que Firmo se deslocasse para outro assento, para, assim, dar prosseguimento à conversa com a reportagem. Curiosamente, desta vez, o banco que ele escolheu estava localizado justamente em frente à obra que se configura como a “menina dos olhos” de Firmo. Trata-se de um clique feito em 1985, que retrata seus pais (José Baptista e Maria de Lourdes) em primeiro plano, tendo, atrás, os dois filhos do fotojornalista, Eduardo e Aloísio Firmo.

A foto preferida de Walter Firmo foi feita em 1985 (Acervo IMS)

“Essa foto, fiz a convite de uma jornalista do Jornal do Brasil, para um ensaio que seria publicado na revista de domingo. A inspiração veio de uma tela do (Alberto da Veiga) Guignard”, conta Walter Firmo, entusiasmado. À época, os filhos ainda saiam da adolescência para a juventude. “Hoje, o Aloísio está com 60 anos. O Duda, é um pouco mais novo. Me lembro que ele queria matar um leão por dia, assim como o pai. Até hoje mata”.

Pixinguinha

“Toda a sociedade acha que a do Pixinguinha (1897-1973) é foto a da minha vida”, diz Walter Firmo, sobre o famoso retrato que fez de Alfredo da Rocha Vianna Filho, compositor de obras emblemáticas, como “Carinhoso”. “Talvez pela dimensão dele, por ser reconhecidamente o grande mestre do chorinho”, pondera.

No dia da entrevista ao ícone da MPB, Firmo foi o fotógrafo escolhido para acompanhar o jornalista e sociólogo Muniz Sodré, autor do texto da matéria. “Na época, nas redações, o setor de fotografia funcionava meio como um fast-food”, diz Firmo, lembrando que, dependendo da urgência, o profissional que estava ali, no setor, tinha que acompanhar o repórter. “Então, naquele dia, eu fui como o fotógrafo da vez. E essa foto acabou sendo uma das minhas mais conhecidas. Mas a verdade é que a gente não tem ‘a melhor’, tem fotos interessantes”, entende ele.

A icônica foto do mestre Pixinguinha, tirada por Walter Firmo no final dos anos 1960

Firmo conta que, certa vez, movido pela curiosidade, chegou até mesmo a fazer uma espécie de enquete com algumas amigas (“e digo no feminino porque as mulheres são sempre mais gentis, por isso, as procurei para tal”). Eu queria compreender o motivo de todos se maravilharem tanto pela foto de Pixinguinha. E me responderam: ‘Ah, talvez seja porque ali (na imagem) reside a felicidade! Pano extremamente rápido”, brinca o fotógrafo.

Assim, a foto de Pixinguinha foi tirada em 1967. Após a conversa com Muniz Sodré, Firmo pegou uma cadeira de balanço, que ficava na sala da residência. Primeiramente, a colocou no quintal, ao lado de uma mangueira. Daí, propôs que Pixinguinha se sentasse nela com o saxofone no colo.  

Reconhecimento

Walter Firmo entende a exposição “No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito”, que, vale dizer, já foi montada e exibida em outras praças, como uma espécie de grand finale de sua carreira profissional. “Digo assim por conta da minha idade (ele está com 86 anos)”, diz, sobre usar a palavra “finale”.

Firmo diz que, quando começou a fotografar, não acalentava grandes ambições. No entanto, já sonhava em ter um trabalho com identidade. “Que as fotos não ficassem só no registro do factual. Mas, sim, que provocassem. É por aí”, emenda ele.

Público confere uma das salas do Centro Cultural Banco do Brasil que abrigam fotos de Firmo

O fotojornalista revela que, no caso desta mostra, não quis participar da escolha das obras que a compõem. “Acho que toda exposição, se existe uma curadoria estabelecida… A não ser que o próprio curador pedisse, no caso de ter uma dúvida, ou se quisesse uma opinião. Acredito nas pessoas que estão trabalhando neste projeto”, diz Firmo, citando o reconhecimento que os curadores registram no campo artístico. “Acho que os dois, eles foram felizes, captaram a essência do meu trabalho”. No caso, o curador Sergio Burgi, coordenador de fotografia do IMS, trabalhou junto a Janaina Damaceno Gomes. Ela é professora da UERJ e coordenadora do grupo de pesquisa Afrovisualidades: Estéticas e Políticas da Imagem Negra. 

Expografia

“Walter Firmo: No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito” está dividida em cinco núcleos. Primeiramente, o público encontra cerca de 20 imagens em cores, de grande formato. São cliques feitos ao longo de toda a sua carreira. Assim, há fotos feitas como o retrato da Mãe Filhinha (1904-2014), que fez parte da Irmandade da Boa Morte durante 70 anos.

Um dos ambientes da mostra que pode ser vista no térreo do prédio do CCBB BH (foto: Patrícia Cassese)

O segundo núcleo, Encantamentos e Experimentações, apresenta a biografia do artista, abordando os seus primeiros anos de atuação na imprensa. O conjunto inclui uma fotografia do jogador Garrincha, feita em 1957. Do mesmo modo, imagens de políticos como Jânio Quadros e Juscelino Kubitschek; além de fotografias feitas para a reportagem “100 Dias na Amazônia de Ninguém”. Essa foi publicada em 1964, no Jornal do Brasil. Em razão dela, Firmo recebeu um Prêmio Esso de Reportagem. 

Caminhos

Nas seções seguintes, comprova-se que, paulatinamente, Firmo foi se distanciando do fotojornalismo documental. Logo, sua opção recaiu sobre a fotografia “como encantamento, encenação e teatralidade, em diálogo com a pintura e o cinema”, informa o material de divulgação.

Fotos em P&B são outros destaques na exposição que prossegue até setembro, no equipamento (Patrícia Cassese)

Caso da foto por ele mencionada ao Culturadoria, a de seus pais e filhos. No caso, José, pai de Walter Firmo, aparece vestindo seu traje de fuzileiro naval, função que desempenhou. Já a mãe, Maria de Lourdes, usa um vestido longo. As obras de Guignard que o inspiraram, é preciso citar, são “Os Noivos” (1937) e “Família do Fuzileiro Naval” (1935).

Artistas

Além do já citado Pixinguinha, entre os artistas que Firmo clicou estão Dona Ivone Lara, Cartola, Clementina de Jesus e Paulinho da Viola, para ficarmos no universo do samba. Do mesmo modo, Gilberto Gil, Martinho da Vila, Maria Bethânia e Caetano Veloso. E, ainda, Milton Nascimento, Djavan e Chico Buarque.

A exposição traz também um ensaio com fotografias de Arthur Bispo do Rosário (falecido em 1989), feitos para a revista “IstoÉ”, em 1985. Os cliques aconteceram na antiga Colônia Juliano Moreira, onde Bispo ficou confinado, e onde criou seu acervo no curso de duas décadas e meia. 

Detalhe da foto de Arthur Bispo do Rosário feita por Walter Firmo (Acervo IMS)

E mais

A retrospectiva “No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito” traz, ainda, registros produzidos por Walter Firmo durante celebrações de cunhos distintos, como a Festa de Bom Jesus da Lapa, a Festa de Iemanjá e, claro, o Carnaval. E há, também, um núcleo com fotos de personagens da diáspora, feitas em países como Cuba, Jamaica e Cabo Verde. 

Na mostra, está sendo exibido, ainda, o curta-metragem “Pequena África” (2002), do cineasta Zózimo Bulbul. Nele, Firmo trabalhou como diretor de fotografia. O trabalho trata da história da região que recebeu milhões de africanos escravizados. Também há um núcleo dedicado à fotografia em preto e branco, em grande parte inédita. Assim, um destaque é a série feita na praia de Piatã (Salvador), entre o final dos 1990 e o início dos 2000. 

Relação com Minas

Ao Culturadoria, Firmo recordou que, por conta de seu ofício, já esteve em Minas Gerais muitas vezes. “Umas 30 vezes. Passei muito por aqui, como jornalista, né? Mas o que gosto mais é do entorno da capital mineira, das alterosas”, assegura.

E por um motivo dos mais simples. Para Firmo, é lá que a poesia resiste. “Nos dias atuais, ela não existe mais nas grandes cidades. E quando falo isso, incluo também outras capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador. Assim, se você me convidar para fazer um trabalho sobre o Barroco nas cidades mineiras, eu vou te dizer que até moraria (nelas)”, ri. “Ah! E gosto quando me convidam para tomar umas branquinhas cheirosas e líquidas – ou seja, estou falando da boa cachaça mineira”, diverte-se.

Serviço

Walter Firmo: No Verbo do Silêncio a Síntese do Grito

Onde. CCBB BH – Térreo (Praça da Liberdade, 450).

Visitação: de quarta a segunda, das 10h às 22h. Até 18 de setembro

Ingressos gratuitos, retirados pelo site bb.com.br/cultura ou na bilheteria física do CCBB.

Classificação Indicativa: Livre

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