Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Edição 2023 da 8 ½ Festa do Cinema Italiano se despede nesta quarta-feira

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Este ano, a Festa do Cinema Italiano trouxe ao Brasil a atriz e diretora Jasmine Trinca e o cineasta Francesco Zippel

Patrícia Cassese | Editora Assistente

Iniciada no último dia 20 – em BH, com uma sessão para convidados, ocorrida no Una Belas Artes – a edição 2023 da 8 ½ Festa do Cinema Italiano coloca um ponto final em sua maratona nesta quarta-feira. Este ano, a iniciativa chegou a 18 cidades: além de BH, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília, Vitória, Salvador, Fortaleza, Aracaju, Recife, Maceió, Natal, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Campinas, Niterói, Búzios e Volta Redonda.

Alba Rohrwacher em cena do filme "Marcel!", de Jasmine Trinca (Festa do Cinema Italiano)
Alba Rohrwacher em cena do filme "Marcel!", de Jasmine Trinca (Festa do Cinema Italiano)

A Festa do Cinema Italiano comemora 10 edições no Brasil. Assim, para celebrar, trouxe ao país a atriz e diretora Jasmine Trinca e, tal e qual, o cineasta Francesco Zippel, diretor do longa-metragem “Sergio Leone – O Italiano que Inventou a América”, um potente documentário com depoimentos de gente como Quentin Tarantino, Clint Eastwood e Steven Spielberg, para citar alguns.

Francesco Zippel, diretor do doc “Sergio Leone”, foi um dos convidados que vieram ao Brasil pela Festa do Cinema Italiano 2023

Entre outros destaques da programação em BH, estão, ainda, “Nostalgia”, de Mario Martone, com Pierfrancesco Favino. Primeiramente, é preciso dizer que o título foi um dos que concorrerram à Palma de Ouro em Cannes 2022. Não bastasse, temos “A Viagem do Papa Francisco”, documentário do premiado Gianfranco Rosi. Infelizmente (ou, purtroppo), nem todos os filmes da Festa do Cinema Italiano puderam ser exibidos em BH.

“A Viagem do Papa Francisco”

Nós, do Culturadoria, conferimos alguns dos filmes, caso de “A Viagem do Papa Francisco”, um dos destaques da Festa do Cinema Italiano. Curiosamente, o longa acaba estabelecendo, já em seu ponto de partida, uma conexão fortíssima com o momento atual.

É que o filme se inicia com mais um episódio dos vários tristíssimos que circundam as zilhões de tentativas de pessoas de países em guerra ou assolados por outros flagelos dos mais variados teores de darem continuidade à vida em outro continente. Para tal, como todos sabemos, se arriscam a atravessar mares/oceanos em embarcações extremamente frágeis, que, não raro, sucumbem, resultando em mortes a mancheias.

Frame de “A Viagem do Papa Francisco”, filme do Festival de Cinema Italiano que pode ser conferido em BH

Com o advento recente da explosão do submersível Titan no Oceano Atlântico, no início da expedição que levava cinco exploradores para vislumbrar as ruínas do transatlântico Titanic, não foram poucos a questionar a comoção gerada pelo episódio. No caso, as críticas relacionam o fato de as milhares de vidas perdidas de refugiados (incluindo crianças e, não raro, bebês) não suscitasse tanta perplexidade.

O filme sobre Francisco é muito bem construído e mostra, por meio de várias das viagens feitas pelo pontífice argentino (inclusive ao Brasil), assuntos delicados que a ele são confrontados por ativistas e jornalistas, como os abusos de religiosos. Interessante o ponto em que o próprio Francisco pede desculpas pela maneira como se expressou (no caso, diante de uma suposta ausência de provas contra um membro da Igreja Católica).

A bellissima (e talentosa) Jasmine Trinca

A equipe do Culturadoria teve, ainda, a oportunidade rara de entrevistas os dois convidados para a Festa do Cinema Italiano 2023. Vamos começar com Jasmine Trinca, rosto conhecido dos brasileiros em função de muitos de seus filmes terem sido exibidos por aqui. Caso de “O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti, no qual a bella fez a sua estreia no écran.

Em cena de “O Quarto do Filho”, de Nanni Moretti, Jasmine aparece no banco de trás do carro

Hoje aos 43 anos, a moça nascida em Roma sustenta um rol de prêmios que impacta: já arrebanhou um David di Donatello, quatro Nastro d’Argento, dois Globos de Ouro, dois Ciak d’Oro, o Premio Marcello Mastroianni no Festival Internacional de Cinema de Veneza, o Prêmio Gian Maria Volonté e o prêmio Un certain regard como melhor atriz. Em 2020, integrou o júri do Festival de Cannes.

Como já assinalado, foi exatamente no dramático “O Quarto do Filho”, vencedor da Palma de Ouro em 2001, que ela começou a dar o ar da graça, no papel de Irene. Jasmine já comentou, em outras entrevistas, que foi descoberta por acaso por Moretti, quando o diretor visitou o liceu em que estudava, interessado em escolher uma atriz não professional. Ela tinha apenas 18 anos e, à época, motivada pela saga “Indiana Jones”, pensava em ser arqueologista.

Fortunata

A comédia “Manual do Amor” foi outro filme do qual ela participou e que chegou a ser exibido por aqui, no Brasil, indo também para as locadoras.

A Festa do Cinema Italiano já havia exibido, anteriormente, o filme “Fortunata”, na qual Jasmine dá vida a uma mulher pra lá de batalhadora, cabelereira. Fortunata, a personagem, tem uma filha de oito anos (Nicole Centanni) e é perseguida pelo ex, um abusador policial. 

Dando o ar da graça em “Fortunata” (2017), filme de Sergio Castellitto, sobre uma mãe pra lá de batalhadora (Frame)

Na entrevista, Jasmine contou que a chama para se enveredar pela direção se acendeu por meio da colega Valeria Golino (outro rosto bem conhecido do cinema italiano, e também no Brasil), com quem trabalhou em “Miele”.

Jasmine Trinca em cena de “Miele”, dirigido pela também atriz Valeria Golino

O filme, de 2013, trazia um tema polêmico, como se lê na premissa: “Uma mulher que ajuda secretamente pacientes em estado terminal a acabar com suas vidas encontra um homem que deseja morrer porque está cansado”. O longa foi dirigido por Golino, que também vem exercitando seu talento na direção. Já Jasmine iniciou sua carreira como regista com um curta-metragem, “Being My Mom” (“Sendo Minha Mãe”), de 2020.

Por trás das câmaras

“Depois de 20 anos de cinema como atriz, comecei a pensar que talvez pudesse ser interessante tentar passar para o outro lado, ou seja, dirigir”, conta Jasmine, ao Culturadoria. “Assim, lançar o meu olhar (em direção a uma história), em vez de ser olhada”. No entanto, ela reconheceu que não é um caminho fácil. “Inclusive isso é uma coisa que acaba acontecendo com muito as mulheres: pensar que não estamos autorizadas a fazer ainda, porque pensava que eu não era capaz, que não tinha talento, que não tinha técnica”.

No entanto, ao trabalhar com Valeria Golino (“que é muito talentosa, e que me dirigiu”), Jasmine entendeu que a direção não era, definitivamente, algo intrinsecamente ligado à capacidade técnica. Ou apenas a isso. “É sempre o olhar que se lança sobre as coisas e, assim, o modo sobre o qual se olha. Desta forma, disse, a mim mesma: Quero tentar. E comecei por uma história que conheço muito bem, que era sobre a relação com a minha mãe”, pontua.

Valeria Golino, atriz italiana que se tornou amiga de Jasmine, aqui, em cena da série “A Vida Mentirosa dos Adultos” (Frame)

Tom fabular, com certo toque ácido

No caso, uma história à qual foram adicionados elementos ficcionais. “Naturalmente, uma história que acabei transformando. Não digo que adquiriu aspectos fantásticos, mas, digamos, de fábula, da contação de fábula, no caso, uma fábula ácida. Na verdade, para dizer a verdade, são tantas coisas pra dizer do filme… Mas devo confessar que estou muito, muito feliz. Plena de entusiasmo em me lançar nesta nova experiência”.

Extremamente expressiva, Maayane Conti divide com Alba Rohrwacher o protagonismo no belíssimo “Marcel!” (Frame)

Perguntada se não teve vontade de, além de dirigir, também estar em cena, ela comenta: “Acima de tudo, a minha vontade, desta vez, realmente não era de estar diante da câmera, mas, sim, de priorizar o olhar com os meus olhos. Mas devo dizer também que deve ser muito desgastante estar, em uma mesma empreitada, tanto à frente quanto por trás da câmera. Não sei como alguém consegue (risos). E, além disso, Alba (Rohrwacher, protagonista do filme) é uma atriz a qual estimo muito. E me diverti bastante”.

A história acompanha uma excêntrica artista de rua (Rohrwacher) que procura o seu amado cão Marcel, que desapareceu. Nesta busca, a artista acaba por se reconectar com a sua filha (Conti), que se vê negligenciada pela mãe há tempos. É praticamente ela quem cuida da casa – e da própria genitora.

Vivendo Maria Montessori

Já sobre futuras outras iniciativas atrás da câmera, Jasmine contemporiza: “Então, para mim, ter feito a direção desse filme foi de fato muito prazeroso, mas, ao mesmo tempo, entendi que, na Itália, neste momento, interessa mais se estou como atriz (risos). Assim, quando achar que tenho em mãos alguma história interessante a recontar, retornarei (à direção)”, entende.

Do mesmo modo, a musa acaba de concluir as filmagens de uma produção franco-italiana sobre a vida de Maria Montessori. A direção de “La Nouvelle Femme” (título em francês) é de Léa Todorov. Maria Montessori (1870 – 1952), como se sabe, foi uma grande médica e pedagoga italiana. Em cena, é Jasmine a interpreta.

Cena de “La Nouvelle Femme”, sobre a vida de Maria Montessori (na foto, a atriz que aparece é Leila Bekhti)

“Também fiz um série muito longa, e bela, baseada em romances de grandes autores italianas. No caso, em ‘La Storiaa’, de Elsa Morante”. Jasmine se refere à produção de oito capítulos da história escrita por Elsa Morante (1912 – 1985). A narrativa é ambientada nos anos finais da Segunda Guerra Mundial, mostrando suas consequências imediatas. Jasmine interpreta Ida, uma mãe solteira de dois filhos, que esconde sua identidade judaica. Em cena, ela luta contra a pobreza e a perseguição. O elenco também traz Asia Argento, Elio Germano e Valerio Mastandrea.

Jasmine Trinca, que veio para o Brasil na Festa do Cinema Italiano, em “La Storia”, dirigida por Francesca Archibugi

A Arte da Alegria

E, ainda, na adaptação de “A Arte da Alegria” (“L’Art de La Joie”, ou “L’Arte della Gioia”), para a tela. Estamos falando do romance histórico italiano escrito no curso de nove anos, e finalizado em 1976, pela atriz, poeta e escritora Goliarda Sapienza (1924 – 1996). No entanto, a primeira parte foi publicada apenas em 1994. É que, à época, os originais foram rejeitados por vários editoras. De acordo com a nossa checagem, devido ao fato de retratar uma mulher (Modesta), na Sicília do início do século 20, livre da moralidade convencional e dos papéis femininos tradicionais.

“O livro foi descoberto mais recentemente na Itália (N.R: na verdade, agora transformou-se em objeto de culto). Neste caso, mais uma vez estou sob a direção de Valeria Golino”, informa Jasmine. No caso, é uma produção da Sky e de Viola Prestieri por HT Film. Jasmine interpreta Leonora, madre superiora do convento no qual Modesta se vê acolhida ainda criança. No elenco, também estão Valeria Bruni Tedeschi e Guido Caprino. 

Em imagem da Sky, Valeria Golino dirige atores no set de “L’Art du Joie”, minissérie

Supersex

Também para a TV, Jasmine Trinca fez, recentemente, uma série sobre o pornô, que se chama Supersex. A produção é inspirada na vida do astro pornô italiano Rocco Siffredi, sendo uma iniciativa da Netflix, dividida em sete episódios. Assim, a sinopse adianta:  “serão abordados aspectos inéditos da estrela pornô, em uma história profunda que percorre a vida de Rocco desde a sua infância”. Assim, serão mostradas a família dele, a relação com o amor, o ponto de partida e o contexto que o levou a se enveredar pela pornografia. Alessandro Borghi interpreta Rocco Siffredi.

Na foto, Alessandro Borghi, que vive Rocco, na série que vai estrear na plataforma Netflix

Perguntada sobre séries, Jasmine comenta: “Gosto bastante, mas devo dizer que, até mesmo pelo fato de ser de uma outra geração, geralmente ainda prefiro ver filmes em salas de exibição. Mas as séries, penso, permitem uma forma de recontar (histórias) importante. Assim, gostei de fazer”.

Experiências no Brasil

Há pouco mais de dez anos, Jasmine Trinca esteve na Amazônia, onde rodou “Chegará o Dia”, de Giorgio Diritti. “Fiquei no país por uns três meses”, recorda.

A atriz italiana, durante viagens na Amazônia, para o filme “Chegará o Dia” (FilmItalia/Divulgação)

O filme citado narrava a história de Augusta, uma jovem italiana que vai à Amazônia para lidar com uma situação particularmente dolorosa eventos pessoais. Assim, ela auxilia uma freira em seu trabalho com as comunidades indígenas do Alto Rio Andirà.

Em outro momento das filmagens na Amazônia (FilmItalia/Divulgação)

A partir daí, Augusta passa a ter vontade de transformar sua vida e encontrar um propósito. Em um espectro mais amplo, busca a reconciliação consigo mesma, com o mundo e com Deus.

Público entusiasmado

“Voltei ao país em outra ocasião, mas, no caso, fui para o Rio de Janeiro, também para um evento de cinema. No entanto, visitar São Paulo, está sendo a primeira vez. Logo, estou bem feliz de estar na Festa do Cinema Italiano, me dá muito prazer encontrar um público apaixonado, que participa, que aguarda a projeção com entusiasmo”, brinda.

Jasmine Trinca em cena do filme “Profete”, de Alessio Cremonini, que está na grade da Festa do Cinema Italiano

Cumpre frisar que, na Festa do Cinema Italiano, o nome de Jasmine Trinca também aparece – como atriz no segundo filme de Alessio Cremonini, “Profetas”. “E é, assim, o segundo que faço com ele, já que também estive no primeiro, ‘Na Própria Pele’. O longa ‘Profetas’ conta a história do sequestro de uma jornalista italiana independente (Sara) por parte do Estado Islâmico, na Síria (a captura se dá enquanto trabalhava numa reportagem de guerra em 2015)”.

Dilemas culturais

A personagem de Jasmine acaba ficando sob os cuidados de uma outra mulher, Nur (Isabella Nefar, jovem atriz filha de mãe iraniana e pai italiano), uma guerrilheira estrangeira, nascida em Londres, que casou com um guerreiro do ISIS e vive no Califado. É que, como as leis do Estado Islâmico são muito rígidas, Sara não poderia dividir a sela com outros homens prisioneiros. Assim, Nur se torna sua carcereira, vigiando a jornalista em sua própria casa.

“Assim, é uma situação que, no filme, permite a troca de opiniões entre as duas, sobre as coisas do mundo, por exemplo. “Logo, os conceitos formados que essa jornalista italiana traz, acima de tudo, sobre o mundo oriental, são questionados. Para além de outras coisas, inclusive, como o terrorismo. Assim, coloca muito em discussão a questão ‘pontos de vista'”.

Em frame de “Profetas”, as atrizes Isabella Nefar e Jasmine Trinca (Festa do Cinema Italiano)

Nur tenta converter Sara ao extremismo do ISIS, mas a jornalista, por outro lado, tenta contrapor suas ideias de liberdade e emancipação para Nur. De acordo com a sinopse, é do confronto entre duas mulheres aparentemente tão diferentes que surge o entendimento sobre a condição da mulher no mundo contemporâneo, seja ela de que origem, cultura e religião for.

Sobre o Festival

Em tempo: O Festival do Cinema Italiano é realizado pela Associação Il Sorpasso / Risi Film Brasil com o apoio dos Institutos Italianos de Cultura de São Paulo e Rio de Janeiro e da Embaixada da Itália, do Ministero della Cultura e da Cinecittà, com organização logística – Bonfilm. Desde 2020, a Generali Seguros é a patrocinadora principal da iniciativa.

Serviço

8 ½ Festa do Cinema Italiano em BH

Até 28 de junho
Onde UNA Cine Belas Artes (Rua Gonçalves Dias, 1581, Lourdes)

A programação pode ser acessada no site oficial do evento (www.festadocinemaitaliano.com.br).

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