Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Cine Humberto Mauro apresenta o universo de Federico Fellini

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Por meio dos 20 longas, com cópias restauradas, a “Retrospectiva Fellini” revisita a carreira do regista italiano

O cinema singular de Federico Fellini (1920 – 1993) é alvo de nova retrospectiva proposta pelo Cine Humberto Mauro. Assim, de quarta-feira, 5 de junho, a 3 de julho (também uma quarta-feira), serão exibidos todos os 20 longas-metragens do diretor. Do mesmo modo, três curtas de antologias e um média-metragem para a televisão, além de filmes em diálogo. A sessão de abertura trará ao público uma cópia restaurada em DCP do filme “8½” (1963), com comentários de Raphael Camacho, do portal Guia do Cinéfilo. A obra é um dos quatro longas do cineasta a ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Outro dos filmes de Fellini a ganhar a mesma distinção, “Noites de Cabíria” (1957) será a inspiração para uma montagem cine-teatral inédita. Ela vai ocupar o palco do Grande Teatro Cemig Palácio das Artes no último dia da programação. O espetáculo, estrelado pela atriz Rejane Faria, conjuga as linguagens diversas do cinema, do teatro e de outras expressões artísticas, com dramaturgia de Ricardo Alves Júnior e participação do grupo Quatroloscinco. Todas as sessões no Cine Humberto Mauro são gratuitas, incluindo o espetáculo multimídia.

Giulietta Masina em cena de "Noites de Cabíria" (Frame/FCS Divulgação)
Giulietta Masina em cena de "Noites de Cabíria" (Frame/FCS Divulgação)

Intervenções artísticas

A mostra Fellini também abarca filmes restaurados, vindos de acervos na Itália, França e Estados Unidos. Outros destaques são as intervenções artísticas criadas por artistas da Cia de Dança Palácio das Artes e do Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart, da Fundação Clóvis Salgado. Elas serão apresentadas antes e depois das sessões de cinema, em variados lugares do Palácio das Artes. 

Ações formativas

Como parte das ações formativas, a programação inclui, ainda, um curso inédito, ministrado pela prefessora-doutora Ana Lúcia Andrade, da Escola de Belas-Artes da UFMG, nos dias 13 (quinta) e 14 de junho (sexta). O público também poderá conferir um dossiê de críticas e ensaios inéditos publicados de forma gratuita na plataforma CineHumbertoMauroMAIS. Aliás, no período de realização da mostra, alguns dos principais filmes de Fellini estarão disponíveis para espectadores de todo o Brasil. 

Marcello e Giulietta

O material do Cine Humberto Mauro lembra que este ano de 2024 marca o centenário de nascimento do ator Marcello Mastroianni, um dos mais célebres atores italianos de cinema, e falecido em 1996. Tal qual, também os 30 anos da morte de Giulietta Masina, companheira de vida de Fellini. Marcello e Giulietta contracenaram em apenas um filme: “Ginger e Fred” (1986), de Fellini, que será exibido. Mas Giulietta foi musa do realizador em diversos filmes, como “A Estrada da Vida” (1954) e “Noites de Cabíria” (1957).

Cena de "Ginger e Fred", com Marcello Mastroianni e Giulietta Masina (Frame)
Cena de “Ginger e Fred”, com Marcello Mastroianni e Giulietta Masina (Frame)

Já Mastroianni foi imortalizado como alter-ego do próprio realizador em longas-metragens como “A Doce Vida” (1960) e “8½” (1963). Estes e outros astros e estrelas foram capturados pelo olhar surrealista de Fellini em cenas icônicas. Entre elas, a dança de Anita Ekberg na Fontana de Trevi, enquanto Marcello Mastroianni vai procurar leite para o gatinho encontrado pela personagem dela. São cenas que povoam o imaginário de várias gerações – mesmo aquelas que não associam tais imagens ao diretor.

Filmes

A “Retrospectiva Fellini” percorrerá tanto os filmes já citados quanto outros, igualmente significativos para a carreira do artista. Entre eles, “Mulheres e Luzes” (1950), primeiro filme em que Fellini assina a direção, com Alberto Lattuada. Do mesmo modo, “Abismo de um Sonho” (1952), primeira direção solo do cineasta; bem como “A Voz da Lua”, seu último trabalho. Os cultuados “Julieta dos Espíritos” (1965) e “Amarcord” (1973) também marcam presença.

"A Estrada da Vida" - "La Strada", outro filme protagonizado por Giulietta Masina (como a inesquecível Gelsomina) (Frame)
“A Estrada da Vida” – “La Strada”, outro filme protagonizado por Giulietta Masina (como a inesquecível Gelsomina) (Frame)

A programação conta ainda com obras que dialogam com a curadoria principal, como “Roma, Cidade Aberta” (1945) e “Paisà” (1946), ambos dirigidos por Roberto Rossellini, e roteirizados por Fellini. São títulos definidores do chamado neorrealismo italiano. Já as antologias “Amores na Cidade” (1953), “Boccaccio ’70” (1962) e “Histórias Extraordinárias” (1968), que também constam da programação, incluem segmentos dirigidos por Fellini. 

Documentários

Destaque também para os documentários “NBC Experiment in Television – Episódio 6 ‘Fellini: A Director’s Notebook’” (1969), feito para a televisão estadunidense, e “Ciao, Federico!” (1970), que acompanha os bastidores das filmagens de “Satyricon de Fellini” (1969). Tal qual, “Marcello Mastroianni: mi ricordo, sì, io mi ricordo” (1997), no qual o mais felliniano dos atores rememora sua própria vida e carreira. Do mesmo modo, “Fellini, Confidências Revisitadas” (2023), que estreia em Belo Horizonte durante a mostra. A produção narra a vida e a obra do cineasta através de suas próprias palavras.

A curadoria traz, ainda, o último filme do diretor italiano Ettore Scola, “Que Estranho Chamar-se Federico” (2013), no qual o cineasta presta uma homenagem ao compatriota. 

Um diretor icônico

Federico Fellini iniciou a carreira em meio ao movimento neorrealista italiano, que propunha um cinema menos calcado na fantasia e mais apegado às urgências sociopolíticas da Itália pós-Segunda Guerra Mundial. No entanto, ao longo das décadas, direcionou sua filmografia para um estilo muito norteado pela lógica circense. Vitor Miranda, gerente de Cinema da Fundação Clóvis Salgado e curador da mostra, explica que o sonho e a realidade se entrelaçam na carreira de Fellini de um modo único. “Ele é, provavelmente, o cineasta mais influente da Itália”, afiança.

"Amarcord", um dos filmes mais aclamados do diretor italiano (frame)
“Amarcord”, um dos filmes mais aclamados do diretor italiano (frame)

Assim, prossegue Vitor, a força (e a magia) da obra do italiano reside não apenas em uma habilidade técnica específica, em um traço peculiar, mas na profundidade de sua visão artística. “Visão esta que desafia as convenções do cinema tradicional e até mesmo do movimento neorrealista, ampliando limites no que se entende da narrativa e da estética do cinema. Sua habilidade em capturar a essência da condição humana transcende o mero entretenimento, levando-nos a um reino no qual as emoções se desdobram em imagens vivas, marcantes e poéticas. Nas terras dramatúrgicas de Fellini, a vida cotidiana se transforma em um espetáculo”, aponta Miranda.

Serviço

Retrospectiva Fellini 

Sessões dos filmes

Quando. 5/6 (quarta-feira) a 30/6 (domingo)

Horários: Variáveis

Onde. Cine Humberto Mauro – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1537, Centro)

Classificações indicativas: Variáveis

Quanto. Entrada gratuita. Os ingressos poderão ser retirados a partir de 1 hora antes de cada sessão, na bilheteria do cinema

Montagem teatral multimídia inspirada em “Noites de Cabíria”

Quando. Quarta-feira, 3 de julho, às 19h30 

Onde. Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro)

Ingressos gratuitos, disponíveis tanto na plataforma Eventim quanto na bilheteria do Palácio das Artes

Informações para o público: (31) 3236-7400

Programação inicial (quarta e quinta)

Quarta, 5 de junho

17h “Abismo De Um Sonho” (Lo Sceicco Bianco, Federico Fellini, ITA, 1952) | Livre | DCP restaurado | 1h25
19h “8½” (Federico Fellini, ITA-FRA, 1963) | 12 anos | DCP restaurado | 2h18 | Sessão comentada por Raphael Camacho (Guia do Cinéfilo)

Quinta, 6 de junho

15h “Amores na Cidade” (L’amore in città, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Alberto Lattuada, Carlo Lizzani, Francesco Maselli, Dino Risi e Cesare Zavattini, ITA, 1953) | 16 anos | DCP restaurado | 1h45
17h “Roma”, Cidade Aberta (Roma, Città Aperta, Roberto Rossellini, ITA, 1945) | 14 anos | 1h45
19h “Paisà” (Roberto Rossellini, ITA, 1946) | 14 anos | DCP restaurado | 2h

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