Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Filme “Uma Família Feliz”, baseado na obra de Raphael Montes, entra em cartaz

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Dirigido por José Eduardo Belmonte, o thriller psicológico “Uma Família Feliz” traz Grazi Massafera e Reynaldo Gianecchini à frente do elenco

Patrícia Cassese | Editora Assistente

O escritor e roteirista Raphael Montes tem apenas 33 anos – completará 34 em setembro próximo. Apesar da pouca idade, o carioca é um fenômeno literário: basta lembrar que já vendeu mais de 500 mil exemplares dos oito livros que publicou. O mais recente deles é o thriller psicológico “Uma Família Feliz” (Companhia das Letras, 352 páginas, R$ 59,90), que chegou às livrarias no último dia 13 de março. Apenas uma semana depois, o título já constava da lista dos livros mais vendidos.

Os atores Reynaldo Gianecchini, Grazi Massafera, Juliana Bim e Luiza Antunes em cena de "Uma Família Feliz" (Pandora/Sinny/Divulkgação)
Os atores Reynaldo Gianecchini, Grazi Massafera, Juliana Bim e Luiza Antunes em cena de "Uma Família Feliz" (Pandora/Sinny/Divulkgação)

No entanto, o esboço da trama de “Uma Família Feliz” começou a se delinear alguns anos antes, na forma de um roteiro. E ali, naquele estágio inicial, a ideia foi partilhada com o diretor José Eduardo Belmonte (“Billi Pig”, “Se Nada Mais Der Certo”, “Carcereiros – O Filme”), em uma conversa que acabou desaguando na proposta de transformá-la em filme. Ou seja, só numa segunda etapa a história foi adaptada para o formato livro.

Reviravolta

Protagonizado por Grazi Massafera (que já havia trabalhado com Belmonte) e Reynaldo Gianecchini, o longa “Uma Família Feliz” chega aos cinemas nesta quinta-feira, 4 de abril, prometendo atrair os fãs do gênero – e entregar um bom produto. Com quase duas horas de duração, “Uma Família Feliz” de fato prende a atenção do início ao fim, com um plot twist de tirar o fôlego. Mas é preciso deixar de pronto um aviso: não saia do cinema assim que o filme acabar. É preciso esperar os créditos iniciais para, aí, sim, conferir o surpreendente desenlace.

Certo, no curso da narrativa do filme de Belmonte, há algumas decisões que soam pouco críveis se o parâmetro fosse um comparativo com a realidade, mas, obviamente, todas estão ali a serviço do enredo. Ou seja, não se trata de uma desatenção ou equívoco, mas, sim, comportamentos que, mesmo descolados do plano do real, fazem sentido dentro da condução da história. Um exemplo é uma criança preparando um café da manhã, com o fogão aceso, sem nenhum adulto por perto. Mas, bem, são detalhes, e, ao fim, o espectador de “Uma Família Feliz” chega à conclusão que tudo faz sentido.

Prólogo

O começo do filme é aterrorizante. Nele, a personagem Eva (Grazi Massafera) – o nome não foi escolhido aleatoriamente – está sepultando um corpo. Pelos calçados, é possível deduzir que se trata de uma criança, uma menina. No curso desse processo, o celular de Eva toca sem parar, e o espectador vê, na tela, a imagem de Vicente, o personagem vivido por Gianecchini. Na sequência, Eva, visivelmente transtornada, arrasta uma garota para dentro do carro e sai a mil, invadindo a contramão.

No banco do carona, a menina aparece tensa e assustada, batendo no vidro. Alguns carros se desviam bruscamente, não sem acionar os faróis e buzinar ferozmente. A cena inicial de “Uma Família Feliz” se encerra com a colisão do carro com um caminhão.

Comercial de margarina

Finda essa espécie de prólogo, a narrativa volta no tempo para mostrar a família comercial de margarina formada pelo casal Eva e Vicente. Ali, Eva está grávida, e realiza os exames habituais (como ultrassom) enquanto cuida, na própria casa, do seu inusual ofício, a confecção de bonecas hiperrealistas. Ele, por sua vez, é advogado e, nas palavras dela, está em ascensão na carreira.

Neste ponto, já se percebe que a escolha de dois atores conhecidos também pela beleza se justifica justamente pelo propósito de criar uma atmosfera idílica. Assim, o casal mora em um condomínio (desses, com guarita e controle de entrada), em uma casa sem muros, nitidamente decorada por um profissional (ou seja, belíssima, mas sem toques pessoais, padronizada). Tal qual, há duas garotas, que na história são gêmeas. As meninas se destacam por, fenotipicamente, endossarem o perfil “família de propaganda” (dentro, claro, do ainda dominante padrão eurocêntrico). De pronto, o cabelo de uma das garotas chama certa atenção por soar artificial, mas logo tudo isso é esclarecido.

Incômodos

Sim, há uma menção a uma certa instabilidade financeira pela qual a família estaria passando, já que, em um ponto, Vicente critica a esposa pela resistência em vender o imóvel que pertencia à mãe dela. Por outro lado, o espectador vai aos poucos percebendo os vários descontentamentos que assomam Eva, como a ausência de representação nos desenhos feitos pelas supostas filhas. Quando o filho do casal nasce, ele não “pega” o peito da mãe, no entanto, acalma o choro com a intervenção do pai.

Não bastasse, há um diálogo no qual Vicente explicita o menosprezo pelo trabalho da esposa, dizendo que alguém da casa precisa trabalhar para garantir o sustento da família, já que Eva prefere “brincar de boneca”. O personagem de Vicente, aliás, é muito representativo do estereótipo do homem de classe média alta que, mesmo demonstrando amor à família, se mantém ausente da práxis. Ou seja, se esquivando de tarefas cotidianas, como dar remédio à filha que enfrenta um problema de saúde ou participar de reuniões na escola das duas. Ele também não aparece junto a Eva no dia do ultrassom.

Hematomas

A “atmosfera Raphael Montes” entra com tudo em cena a partir do parto. Em um momento de tensão, por exemplo, Eva sai à rua com o carrinho e o bebê, e leva um susto com um carro, que “tira um fino” dos dois. Logo depois, o menino aparece com uma estranha marca vermelha no corpo. A seguir, são as meninas, a apresentar hematomas misteriosos em regiões que geralmente ficam encobertas.

As suspeitas recaem sobre Eva, que, assim, em pouco tempo, passa a ser cancelada. Apesar de negar veementemente, as atitudes da personagem parecem corroborar com a tese. Ao mesmo tempo, o espectador fica sabendo que a formação daquele núcleo registra, lá atrás, uma tragédia, de final não resolvido.

Atuações e abordagens

Obviamente, não dá para avançar mais no desenrolar da trama. Resta falar sobre as performances dos atores. E sim, ambos defendem bem os papéis, com atuações que correspondem à temperatura que cada fase da narrativa demanda, da discrição ao desespero. Do mesmo modo, as meninas, que, caso optem por dar seguimento à carreira, se mostram bem promissoras. Assim, os rumos que a trama toma têm uma resposta à altura no que tange a interpretação.

No quesito abordagens, é interessante pontuar alguns temas que são tratados no desenrolar da história, sendo a ausência paterna no dia a dia da família, já citada. Tal qual, o menosprezo do marido pelo trabalho de cunho artístico escolhido pela esposa. Há, ainda, outras nuances. Como por exemplo, o marido que sai à noite, para um compromisso particular, e retorna para casa mais “altinho”, sem se importar em perturbar o sono da companheira – pior, querendo satisfazer as necessidades que ali irrompem.

Caça às bruxas

Não bastasse, há a imputação da chancela “louca” à mulher, um clássico das sociedades estruturalmente machistas. E, na esteira, a caça às bruxas, o linchamento – que, na vida real, na contemporaneidade, no Brasil, pode chegar às últimas consequências, vide o exemplo da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, ocorrido em 2014, no Guarujá.

Mas, no frigir dos ovos, o mais provável é que essas questões passem a largo, posto que o caráter thriller certamente terá a hegemonia. Ou seja, a atenção do espectador deve se concentrar mais em tentar descobrir quem é o real responsável pelas agressões às crianças. Neste ponto, pode-se dizer que o filme de Belmonte é bem sucedido.

Ao fim, fica um incômodo – particular, ressalte-se; ou seja, não significa que será necessariamente compartilhado por todos que assistirem a “Uma Família Feliz” – em relação ao envolvimento de crianças em cenas assim, tão fortes.

Confira, abaixo, o trailer

Confira, a seguir, a capa do livro, lançado pela Companhia das Letras

Serviço

“Uma Família Feliz”

Sessões em BH (*)

Una Cine Belas Artes – 16h10 e 20h30
Cineart Shopping Contagem – 16h25 e 18h45
Cineart Shopping Del Rey – 20h45

Cinemark Pátio Savassi – 19h e 21h40

*Estes horários são válidos até quarta-feira, 10 de abril de 2024, já que a programação dos cinemas se renova a cada quinta-feira. No entanto, ainda assim, é aconselhável que o interessado em assistir à sessão confirme os horários no site oficial do cinema escolhido (ou da rede), pois algumas salas podem suspender a sessão em função de outros eventos, como pré-estreias.


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