Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

“Falso espelho”, de Jia Tolentino: um olhar agudo sobre o mundo contemporâneo

“Falso espelho: Reflexões sobre a autoilusão tem humor, tem lá seu pessimismo para alguns aspectos da contemporaneidade, tem acidez na medida, mas é também propositivo”
Por Carol Braga
Jia Tolentino, autora de Falso Espelho. Foto: Elena Mudd
Jia Tolentino, autora de Falso Espelho. Foto: Elena Mudd

Por Gabriel Pinheiro | Colunista de Literatura

Jia Tolentino é articulista da revista “New Yorker”, tendo passado anteriormente pelo site Jezebel, onde foi editora. Também esteve em veículos como a New York Times Magazine e o Pitchfork. Em Falso espelho: Reflexões sobre a autoilusão, que saiu pela Todavia com tradução da Carol Bensimon, Jia lança um olhar bastante atento, agudo sobre a contemporaneidade, sobre a geração millennial, seus desafios e contradições.

Internet, redes sociais, corpo, feminino, produtividade, religião, drogas, otimização e eficiência são algumas palavras-chaves que vão se destacando ao longo da leitura dos nove ensaios que compõem a publicação. Jia tem uma escrita fluida, com uma construção cuidadosa de seus argumentos e uma análise da sociedade muito potente. Acho especialmente interessante o quanto ela coloca de si nestes artigos – sendo ela mesma, assim como eu e você que está aqui me lendo, parte desta engrenagem que não pára de girar do capitalismo contemporâneo -, se abrindo à vulnerabilidade e à autoironia.

Eucentrismo em Falso Espelho

Tudo caminha para uma cada vez maior exacerbação do “eu”, seja culturalmente, seja economicamente: “não há mais terras para o capitalismo cultivar, a não ser o eu”, ela diz. Um abismo pode separar o “parecer ser” do “ser”, sendo as redes sociais e os reality shows, por exemplo, vitrines de performances muito bem pensadas, programadas neste sentido. E nisto reside uma dificuldade em enxergar a si mesmo neste espelho que constitui a sociedade hoje: sou eu realmente neste reflexo?

Jia Tolentino discorre sobre assuntos que são intrínsecos à geração millennial, marcada por uma hiper-conectividade crescente. Sua experiência na internet: desde seus primórdios até hoje – espaço que passou do “refletir” a sociedade, para o “moldar” a sociedade. Ela revela já ter feito parte de um reality show na adolescência, em um texto que analisa a evolução do formato e como a sua lógica da auto-performance e a busca pela exposição adentrou também outros territórios, inclusive o cotidiano. Ou também como, o que antes era uma cerimônia íntima, passou por uma série de transformações ao final do século 20 e ao longo do atual – com supostas tradições sendo criadas -, culminando no ideal de espetáculo que carrega hoje: o casamento.

A autora traz uma visão bem crítica ao sistema político-social-cultural norte-americano, sobretudo durante o governo de Donald Trump, em textos que trazem importantes pontos de contato com a realidade brasileira – onde o governo atual sempre se mostrou alinhado ao ex-presidente norte-americano -, numa política marcada pelo sexismo, constantes ataques à imprensa e um caráter selvagem de seus apoiadores. Numa análise da campanha do republicano em 2016, ela comenta: “Trump fez tudo isso com um instinto maníaco e demente de comerciante, agarrando com força punhados de coisas que, em segredo, empolgavam sua base – violência, domínio, o repúdio ao contrato social – e então as jogando para as multidões que rugiam e rugiam”.

Falso espelho: Reflexões sobre a autoilusão tem humor, tem lá seu pessimismo para alguns aspectos da contemporaneidade, tem acidez na medida, mas é também propositivo, pensa alternativas nestas nossas relações com o “eu” – ou com os nossos diferentes “eus”, no trabalho, na rua, nos perfis em redes sociais.

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Gabriel Pinheiro é jornalista e produtor cultural, sempre gasta metade do seu horário de almoço lendo um livro.

A autora de Falso Espelho, Jia Tolentino. Foto: Elena Mudd
A autora de Falso Espelho, Jia Tolentino

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