Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Exposição reflete sobre a solidão de mulheres negras em espaços de poder

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“Quero Amar Quem Acenda uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã” é o nome da nova exposição da FCS, que reúne obras de artistas mineiras

Patrícia Cassese | Editora Assistente

São vários, os intentos de “Quero Amar Quem Acenda uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã”, exposição que será inaugurada nesta sexta-feira, na Fundação Clóvis Salgado. Precisamente, na Galeria Arlinda Corrêa Lima. Um dos principais objetivos é apontado pela curadora da iniciativa, a artista e pesquisadora Flaviana Lasan. “Provocar o público a observar as mulheres negras que estão ao entorno e, do mesmo modo, o desconforto em certas ocasiões… Assim, nos lugares que frequentamos, (observar) onde elas estão e com quem. (Tal qual) os empregos destinados a elas, como estão nas universidades, qual comportamento das crianças mulheres e negras nas escolas, nos consultórios psicológicos, nos espaços que trabalham… Geralmente temos poucos semelhantes em volta, e isso perpetua o racismo, bem como delimita a forma como estamos presentes, a solidão em se sentir pertencente”, observa Flaviana.

Obra "O Cuidado", de Danielle dos Anjos, que está na exposição na Arlinda Corrêa (Danielle dos Anjos/Divulgação)
Obra "O Cuidado", de Danielle dos Anjos, que está na exposição na Arlinda Corrêa (Danielle dos Anjos/Divulgação)

Assim, prossegue Flaviana, a exposição em si entrega arte. “E, nela, estão obras que trazem mulheres negras em diferentes perspectivas. Desse modo, o público terá a experiência dessa comunidade e de como ela tem vivido, pensado e refletido a si mesma no mundo”. A ideia, comenta a curadora, a partir das relações afetivas sexuais que ela própria estabeleceu com homens brancos. “Veja, não foram totalmente ruins, mas eles não estão preparados para uma condição interracial e naturalizaram a sexualização da mulher negra… Tem sempre um fetiche por trás”.

Pesquisa literária

Na sequência, ainda no âmbito do estágio inicial do projeto que desaguaria na exposição, Flaviana colocou em repasse toda a trajetória dela também como criança e adolescente. “E, por fim, procurei entender as mulheres da minha família. Depois, comecei a pesquisar as literaturas sobre (o tema) e, assim, acessei o trabalho de Claudete Alves, Lélia González e Djamila Ribeiro. Foram mais de dez leituras sobre o tema, incluindo bell hooks, em ‘Irmãs de Inhame: Mulheres negras e autorrecuperação'”.

Obra de Daiely Gonçalves, “No imaginário é onde nada é estrangeiro” (Foto: Daiely Gonçalves/Divulgação)

Outras inspirações vieram a partir dos encontros com o disco “Bom mesmo é estar debaixo d’água”, da cantora baiana Luedji Luna e com a escrita da mineira Conceição Evaristo. O título da exposição, conforme assinala o material de divulgação, evoca questões como os anseios das mulheres, liberdade de escolha, as dinâmicas de trabalho e também a luta conjunta contra o racismo – aqui simbolizada pela fogueira. Tal qual, presente na expografia, que trará indícios de carbonização. Com quase 50 obras de 11 artistas contemporâneas, a exposição tematiza a solidão afetiva, social e na ascendência das mulheres negras, através de pinturas, gravuras (algumas com materiais e suportes como água de feijão, nódia de banana, terra e papelão), peças de cerâmica, registros audiovisuais e outros recursos.

Detalhe de obra da série “Decantações, Fervuras e Temperamentos”, de Josiane Souza (Foto: Divulgação da artista)

Artistas

Assim, a exposição traz obras de Ana Elisa Gonçalves, Ana Paula Sirino, Danielle dos Anjos, Daiely Gonçalves, Desirée dos Santos, Elizabeth Ramos, Josiane Souza, Maria Auxiliadora, Mônica Maria, Rebeca Amaral e Andréa Rodrigues. O processo de seleção das artistas participantes, destrincha Flaviana, foi pensado em três esferas. Primeiramente, tentando abarcar o estado de Minas Gerais. “Ou seja, como a gente poderia refletir o trabalho de artistas de outros lugares que não a capital, Belo Horizonte”.

A curadora da exposição “Quero Amar Quem Acenda uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã” , Flaviana Lasan (Foto: Fernanda Lider/Divulgação)

Então, adiciona ela, foi um trajeto na região metropolitana e no interior. “Também conversando territorialmente com oportunidades e acessos para discutir esse estado de solidão nos espaços. Porque o território é um deles. A própria família, também. Logo, culturalmente, como essas mulheres se veem?”. Assim, a exposição, salienta Flaviana, traz obras de mulheres quilombolas, por exemplo. Do mesmo modo, de vários pontos de Minas. “Seja do sul, do norte, da capital ou da região metropolitana, como Ribeirão das Neves. Diante dessa diversidade que o estado compreende, a gente já pode concluir e delinear algumas questões”.

Detalhe de uma das peças de cerâmica de Josiane Souza que integram a iniciativa (Foto: Josiane Souza/Divulgação)

Técnicas

O segundo momento se relacionava às técnicas utilizadas pelas artistas. “A gente trabalha com mulheres da escultura, do audiovisual, mulheres pintoras… Aliás, a pintura nas várias facetas que abarca. Acrílica, tinta a óleo, aquarela, pigmentos naturais, técnicas de texturização…”, lista. Sendo que, por vezes, a técnica também ecoa uma questão geracional. “São mulheres de várias gerações (com obras na exposição). Tem, por exemplo, uma pintura da década de 1970, da Maria Auxiliadora (1935-1974), do mesmo modo como há obras de agora, de 2023, que foram feitas especificamente para a mostra”.

Esculturas da série Ori, da artista Elizabeth Ramos (Foto: Elizabeth Ramos/Divulgação)

E um terceiro momento, complementa a curadora, foi identificar a diferença dessas mulheres nas suas variações de corpo, de estrutura social e dinâmicas do próprio trabalho. “Tem mulheres que são da literatura (referindo-se a Andréa Rodrigues), mulheres que são artistas visuais, mulheres que têm outros empregos além da arte. A Maria Auxiliadora, por exemplo, já não está entre nós, mas foi uma artista bastante profícua. Nasceu em Minas (em Campo Belo), mas foi se estabelecer em São Paulo”. Então, a exposição contempla uma série de diversidades também para que o público tenha acesso à pluralidade desse recorte, de mulheres negras artistas. “Porque um dos efeitos do racismo é considerar uma igualdade a falta de autonomia e individualidade do próprio ser. Então, ali, é gritar também um pouco a individualidade, as diferentes formas de expressão e de estar presente no mundo”.

Tela da série Mãos que Descansam, de Rebeca Miguel Amaral (Foto: Rebeca Miguel Amaral/Divulgação)

Obras

Entre as obras, está, por exemplo, “Lambendo Minhas Feridas”, de Desirée dos Santos, artista e tradutora de Lavras. “É um trabalho audiovisual, um vídeo-poema. Nela, a artista está falando de amor. Ela evoca uma condição de trânsito por uma cidade na qual, sozinha, vai observando e, ao mesmo tempo, sendo observada. É um poema feito em duas línguas, no qual ela questiona também como o próprio idioma define questões, a partir do sotaque, de acessibilidade, de aprovação social. Assim, ela carrega bastante no sotaque inglês, tentando comprovar como está inserida em espaços legitimizados a partir da dominação de uma língua”.

Desirée, lembra Flaviana, é tradutora de várias poetas negras que, na produção literária, tratam das questões raciais. “Assim, ‘Lambendo Minhas Feridas’ é uma obra que me interessa muito. O áudio dela vai ressoar por toda a exposição”.

Andréa Rodrigues

Outra obra instigante na exposição da Galeria Arlinda Corrêa é “Paixão Triste” (2020), de Andréa Rodrigues, atriz, dramaturga, produtora e escritora. Aliás, um dos nomes do coletivo Segunda Preta. Na trajetória artística, Andréa, pontua Flaviana, eventualmente traz à tona a questão da solidão da mulher negra. “E ‘Paixão Triste’ fala sobre a invenção da paixão. Nela, Andréa faz pontuações da imaginação dessas mulheres. Como lidam com a privação de alguns relacionamentos, tanto afetivos quanto sociais”.

Não por outro motivo, prossegue a curadora da exposição “Quero Amar Quem Acenda Uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã”, é um texto que debate questões que perpassam o pensamento da mulher negra. “E também como é que isso pode ser recebido socialmente, já que há uma grande tensão. Afinal, estamos falando da nossa individualidade. E a potência também de colocar um texto enquanto obra de arte. Levar a literatura, a qual a gente está perdendo o diagnóstico a partir das redes sociais, para dentro de uma galeria, como um movimento mesmo”.

Sobre a curadora

Curadora da exposição “Quero Amar Quem Acenda Uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã”, Flaviana Lasan é educadora, artista visual e produtora de campo. Licenciada em artes visuais (UEMG) e pós-graduada em Ensino de História e América Latina (UNILA), investiga a história da arte produzida por mulheres e metodologias do ensino de arte nos movimentos sociais, atravessados pelo mercado. Trabalhou em diversas iniciativas independentes com curadoria e produção; em aparelhos artísticos públicos e privados na condição de produtora e educadora pelo Brasil, por mais de uma década.

Foi curadora do MAM (Movimento Arte na Maternidade), e está curadora do JUNTA, Cura (Circuito Urbano de Arte) e FAC (Festival Audiovisual de Cultura).

Serviço

Exposição “Quero Amar Quem Acenda Uma Fogueira Comigo às 7 da Manhã”

Data: Abertura no dia 6 de outubro, às 19h;

Período expositivo: 7/10/2023 (sábado) a 14/1/2024 (domingo)

Horário: De terça a sábado, das 9h30 às 21h, e domingo das 17h às 21h

Local: Galeria Arlinda Corrêa Lima – Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro)

Classificação Indicativa: Livre

Entrada gratuita

Informações para o público: (31) 3236-7400

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