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Exposição sobre mulheres com deficiência inaugura em Belo Horizonte no fim de semana

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Exposição “Corpos Sem Filtro” traz autorretratos de mulheres com deficiência ao Memorial Minas Gerais

Por Helena Tomaz | Assistente de Conteúdo

A partir de um edital direcionado a novos pesquisadores, a publicitária e mestre em comunicação Fatine Oliveira acabou conseguindo expandir o objeto de sua pesquisa de mestrado para uma exposição, que terá início neste sábado, dia 17, nas dependências do Memorial Minas Gerais Vale. Com entrada franca, a mostra poderá ser conferida até o dia 3 de setembro no equipamento, que integra o Circuito Cultural e Turístico Liberdade.

Fotografia digital de Fatine Oliveira. Ela tem a pele clara, cabelos escuros e lisos, usa uma blusa amarela estampada, brincos, maquiagem, e sorri.
Fatine Oliveira, idealizadora da exposição. Foto: acervo pessoal.

A iniciativa, que apresenta autorretratos de mulheres com algum tipo de deficiência, aborda temáticas como capacitismo, identidade e gênero. “Eu nunca vi uma exposição que abordasse a vida da pessoa com deficiência por meio de um olhar que não fosse medicalizado”, comenta Fatine, que conversou sobre a mostra com a reportagem do Culturadoria.

Confira, a seguir, alguns trechos:

Como funcionou essa parceria, entre você e o museu, ao longo do desenvolvimento da exposição?

Assim que a minha pesquisa foi aprovada, eles (a organização do equipamento) entraram em contato comigo. Foi uma grata surpresa, porque eu sequer imaginava que conseguiria passar. Logo, começamos a ter reuniões constantes, para alinhar como seria a exposição. Até então, eu nunca tinha tido contato com esse tipo de projeto, assim, para mim, foi muito válido ver como funciona, quais são os elementos necessários para pensar uma exposição. Uma experiência bem interessante.

E o que as pessoas que visitarem a exposição vão encontrar? (Em termos de fotografia, de temática, de experiências)?

Uma das coisas que, para mim, é essencial, e que inclusive está presente na minha pesquisa, é a experiência afetiva. Então, a proposta é que as pessoas, ao irem à exposição, possam fazer uma imersão no que é a deficiência a partir de um olhar mais social da deficiência.

Ali, a gente vai confrontar esses olhares médicos, que são muito institucionais, que consideram apenas o impedimento no corpo, em oposição a um olhar mais humanizado, mais pessoal. Um olhar mais individual da mulher com deficiência. Então, vamos, sim, ter as fotografias, mas também o audiovisual, para ecoar esse conhecimento que está presente na pesquisa em forma de texto.

As fotos que integram a exposição em cartaz no Memorial Vale são as mesmas da sua pesquisa? Aliás, como foi feita a seleção?

Na verdade, eu convidei novamente as mulheres que estavam presentes na pesquisa. Uma coisa que é essencial, para nós, é a autoria, ou seja, você é uma mulher com deficiência e você produz a sua própria fotografia. Então, entrei novamente em contato com elas e expliquei o projeto do Memorial. E, assim como foi na pesquisa, elas participaram de todo o processo. Era muito importante que fosse assim. Nesse caso, elas enviaram as fotos que tiraram de si mesmas e eu as incorporei à exposição.

Quais são as reflexões que você propõe às pessoas que vão visitar a exposição?

Eu gostaria muito que as pessoas saíssem de lá entendendo que a deficiência não é uma tragédia que acontece na vida de alguém. Ela é apenas uma coisa que acontece – e que pode acontecer a qualquer um.

E, ainda, gostaria que entendessem que as mulheres com deficiência têm os mesmos prazeres e as mesmas dores que qualquer outra mulher. Só que, ao contrário daquelas que não têm qualquer tipo de deficiência, têm que lidar com a questão do capacitismo (que é o preconceito em relação às pessoas com deficiência), que atua em seus corpos e mentes.

Então, à medida em que essas mulheres passam a ser invisibilizadas, inicia-se um ciclo de violência que vai se perpetuando vida afora. Desta forma, a minha ideia, com esta iniciativa, da pesquisa e da exposição, é tentar fazer com que as pessoas comecem a repensar e, assim, modificar esse olhar em relação à deficiência e, mais que isso, à vida de pessoas com deficiência.

Hoje em dia, fala-se cada vez mais sobre representatividade. Sendo assim, acredito ser muito importante que haja uma exposição com essa temática em um espaço expositivo desta relevância. Em um aspecto mais pessoal, como mulher com deficiência, você via questões que cercam seu dia a dia reverberadas em espaços artístico-culturais? Isso mudou ao longo dos anos?

Apesar de algumas iniciativas, eu nunca havia visto uma exposição que abordasse a vida da pessoa com deficiência  a partir de um olhar que não fosse “medicalizado”, voltado para a superação. Eu, particularmente, nunca tinha visto algo parecido aqui, em Belo Horizonte, então, poder levar este universo para uma exposição é muito potente.

Primeiramente, porque é uma iniciativa tocada por uma mulher com deficiência. E, em segundo lugar, porque é um desdobramento de uma pesquisa acadêmica, então, tem um saber por trás de tudo aquilo que está sendo exposto. E, em terceiro lugar, pela presença de mulheres com deficiência na iniciativa, sabendo que elas estão ali como protagonistas, não apenas como objetos em exposição. Também compõem o fazer da exposição. Assim, é uma exposição feita a muitas mãos. Para mim, está sendo uma experiência muito emocionante, muito tocante.

E em relação à acessibilidade, como é frequentar esses espaços voltados à cultura, como museus, teatros, galerias e cinemas, aqui, em BH? O que pode ser melhorado para que esses ambientes se tornem cada vez mais acessíveis?

Aqui,  em BH, a gente até tem uma acessibilidade interessante nos museus, mas o maior problema está na cidade em si (em um espectro mais amplo). A verdade é que a gente não vive em uma cidade inclusiva. Um exemplo é a oferta de estacionamento para pessoas com deficiência.

Eu, por exemplo, sou uma pessoa com deficiência que precisa de muito suporte para me deslocar. Eu preciso ter alguém me acompanhando, me levando aos lugares. Quando chego a um lugar em que não posso estacionar o meu carro, aquilo, para mim, é um obstáculo. Como vou fazer? Como vou chegar até o meu lugar de destino? Isso ainda é um grande problema no que diz respeito ao acesso aos museus de Belo Horizonte. Na verdade, sempre há algo que poderia ser melhorado.

Tem algo que você gostaria de acrescentar?

Sim, gostaria de lembrar que o acesso à exposição no Memorial Vale é gratuito. Isso é muito importante frisar. Tem acessibilidade. Porque a gente tentou pensar em todas as possibilidades de acessibilidade. Assim, pessoas surdas ou cegas, por exemplo, poderão conferir a mostra, assim como as escolas que se interessarem, podem marcar visitas guiadas.

E gostaria, ainda, de pedir ao público que visite a exposição com o coração aberto, para realmente aprender mais com os trabalhos dessas mulheres que estão representadas nesta exposição.  

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