Curadoria de informação sobre artes e espetáculos, por Carolina Braga

Livro repassa vida e trajetória artística de Leny Eversong

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A biografia “A incrível história de Leny Eversong – ou A cantora que o Brasil esqueceu” leva a assinatura do pesquisador e jornalista Rodrigo Faour

Patrícia Cassese | Editora Assistente

O Brasil não é propriamente um país conhecido pela memória. Não por outro motivo, o fato de o nome de Leny Eversong (1920 – 1984) ser, nos dias atuais, mais lembrado por pesquisadores e fãs da música brasileira do que pelo público em geral não causa, de modo algum, estranheza. A boa notícia é que não só a trajetória artística, como também a vida (sofrida e intensa) da cantora nascida em Santos e batizada como Hilda Campos Soares da Silva, ganham, agora, um registro digno de aplausos. A biografia “A Incrível História de Leny Eversong – ou A Cantora que o Brasil Esqueceu” (Edições Sesc SP) leva a assinatura de um pesquisador que tem dedicado incontáveis horas àquela palavra citada no início desta matéria: memória.

A cantora Leny Eversong, que acabou caindo no ostracismo, tem vida esquadrinhada em livro (Sesc Edições/Divulgação)
A cantora Leny Eversong, que acabou caindo no ostracismo, tem vida esquadrinhada em livro (Sesc Edições/Divulgação)

O pesquisador em questão é o jornalista Rodrigo Faour, autor de biografias de nomes como Dolores Duran, Cauby Peixoto e Angela Maria. Tal qual, dos dois volumes de “A História da Música Brasileira (Sem Preconceitos)”, lançados pela Editora Record. No caso, o interesse por Leny Eversong despontou há três décadas. Precisamente, nos tempos em que ainda cursava Jornalismo, na PUC Rio. À época, Faour tinha apenas 19 anos. “Um dia, um amigo me emprestou uma fita cassete, para gravar um trabalho por cima. Nela, estava escrito ‘Leny Eversong – Sereno’. E fiquei curioso”.

Paixão instantânea

Instigado, o estudante tratou de ouvir o conteúdo. “Inclusive porque já tinha visto o nome dela em uma enciclopédia de Música Popular Brasileira que a minha mãe tinha em casa, em dois volumes”, conta, lembrando que a genitora é professora de música. “Na verdade, eu sempre folheava essa enciclopédia e via o verbete: ‘Eversong, Leny’. Achava curioso, por ser um nome estrangeiro. Assim, fiquei motivado a ouvir (a fita)”, rememora. E foi paixão à primeira audição.

“Fiquei imediatamente encantado com a voz. Assim, liguei para o (produtor, historiador e pesquisador) Jairo Severiano – que, aliás, faleceu em 2022, aos 95 anos. Naquela época, ele já era meu amigo. E me falou: ‘Ela é uma grande cantora paulista, de fato é muito boa’. Então, pedi se ele porventura poderia gravar alguma coisa da Leny Eversong pra mim. E ele acabou registrando o conteúdo dos dois LPs dela que tinha. Aí, fiquei doido”, confessa. Foi tão avassalador que toda vez que Rodrigo porventura viajava para São Paulo e encontrava alguma coisa da intérprete, tratava de levar para casa. “Isso porque aqui, no Rio, eu não achava praticamente nada. Só o LP de dez polegadas”.

“A Voz Poderosa de Leny Eversong”

Daí, o tempo foi passando. “E eu cada vez mais empenhado em encontrar coisas sobre a Leny. Quando a minha carreira de jornalista efetivamente começou, fiz uma matéria sobre ela no ‘Tribuna da Imprensa’, primeiro veículo no qual trabalhei. Depois, no site Cliquemusic”. Aliás, Rodrigo lembra que, quando saiu dele, em 2001, já estava preparando o livro sobre Cauby Peixoto – lançado com o título “Bastidores – Cauby Peixoto – 50 Anos da Voz e do Mito”. “E, aí, (no bojo do lançamento) veio uma entrevista para o caderno Ela, do jornal O Globo. Em certo ponto, eu falava que ninguém cantava ‘Granada’ (de Agustín Lara) como Leny Eversong. E a matéria era uma página inteira. Então, ao fim, peguei esse material e mandei para o João Araújo (1935-2013), que, à época, era o diretor artístico da Som Livre”.

A capa do livro que o pesquisador e jornalista Rodrigo Faour dedicou a Leny Eversong (Sesc Edições SP/Divulgação)
A capa do livro que o pesquisador e jornalista Rodrigo Faour dedicou a Leny Eversong (Sesc Edições SP/Divulgação)

Na verdade, Rodrigo Faour já estava tentando esse contato há algum tempo, porque a Som Livre tinha os direitos sobre um catálogo da RGE, gravadora pela qual Leny registrou muita coisa. “Aí, com aquela chancela do (jornal) O Globo, eu consegui falar com ele. E o João logo me respondeu. Assim, pediu que gravasse uma fita com o repertório que, na minha opinião, teria que estar em um eventual disco. Desse modo, me deixou fazer aquele que foi o primeiro CD de mais de 300 que fiz na minha vida: ‘A Voz Poderosa de Leny Eversong'”.

Superdiva

O disco contemplava 20 canções do repertório da cantora paulista. “Composições incríveis. E, em meio esse processo, eu também aproveitei para coletar vários depoimentos de cantores e maestros que trabalharam com Eversong, assim como de contemporâneos”. Este material, então, ficou guardado. Passados cinco anos, Rodrigo Faour teve a oportunidade de fazer a coletânea “Grandes Vozes”. “A Som Livre me chamou para fazer essa série e, assim, incluí outras 14 músicas da Leny”.

Passado mais um tempo, o pesquisador e jornalista criou, na gravadora EMI, a série “Superdivas” (2012). Assim, voltou a incluir Leny Eversong, mas com outro repertório – precisamente, o da fase que a cantora gravou pela Copacabana Discos. “Desse modo, quando lancei esse CD, o filho dela, Álvaro (Augusto de Campos Figueiras), com o qual eu não conseguia contato (já tinha tentado, por mil maneiras, descobrir o paradeiro dele), criou, com a ajuda do filho dele, um perfil no Facebook, só para me encontrar. E, por meio dele (do perfil), me mandou uma mensagem, dizendo que gostaria muito de falar comigo”.

Mestrado

O conteúdo da mensagem de pronto emocionou o jornalista: “Se você for o Rodrigo Faour, eu gostaria muito de falar contigo, porque foi a única pessoa que se lembrou da minha mãe esses anos todos”. Faour disse que, a princípio, achou que era trote. “Então, liguei para ele, me certifiquei (da veracidade) e, daí, ficamos amigos”. Desse modo, quando o escritor foi lançar um outro título da trajetória como biógrafo – “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” -, também em 2012, foi, enfim, possível, o encontro entre os dois. “Fui até Mairiporã, interior de São Paulo. Ele não só me recebeu, como acabou me doando várias fotos de Leny e os troféus dela. Na verdade, tudo que tinha da mãe, pilhas de fotos. Só queria ficar com a cópia. E acabei levando tudo aquilo para casa!”.

A partir daí, as conversas entre os dois se tornaram constantes, inclusive quando Faour queria dissipar alguma dúvida. “Até que, quando fui fazer mestrado na PUC, com uma bolsa da Capes – o que é muito importante frisar, pois foi graças a ela que consegui fazer esse trabalho -, pude, enfim, resgatar a Leny. Quer dizer, concluí esses 30 anos de pesquisas sobre ela”. E a defesa, conta ele, já foi uma comoção. “Me refiro à banca, aos meus professores, aos meus colegas de turma… Porque todos eles ficaram encantados em ouvir sobre uma figura tão interessante, uma mulher tão incrível, aquela força do canto, que ia do mais grave ao mais agudo”.

De Las Vegas ao Olympia

Não só. Uma mulher que cantava em vários idiomas mesmo sem saber falar nenhum e, que, mesmo assim, conseguiu triunfar em várias partes do mundo. Aliás, inclusive no mercado norte-americano, o que, como todos sabem, não é tarefa das mais fáceis. “Para citar um exemplo, Eversong fez três turnês em Las Vegas. Também conquistou Paris, fazendo uma temporada no Olympia, algo também muito raro, quase impossível de acontecer”. A brasileira chegou a conhecer Elvis Presley.

Mais recentemente, a Edições Sesc SP comprou a ideia e resolveu editar o material. “Desse modo, sou muito grato à PUC, a CAPES e à Edições Sesc São Paulo, que toparam viabilizar esse trabalho”.

Confira, a seguir, outros trechos da entrevista

O singular em Leny Eversong

Primeiramente, Rodrigo Faour descobriu a Leny Eversong cantora. Em particular, por meio das gravações de standards norte-americanos. “Mas também por meio de músicas que ela cantava em outras línguas. Realmente, a gravação de ‘Granada’ é tão boa que até o autor, Agustín Lara, quando a viu cantar em Las Vegas, ficou com lágrimas nos olhos. ‘Mack the Knife’, ‘Au Bleu Du Ciel Bleu’, versão em francês de ‘Volare’ (Domenico Modugno), ‘Jalousie’, ‘Summertime’, ‘Saint Louis Blue’… De fato, coisas dignas das maiores intérpretes do mundo. Fiquei encantado quando descobri essa potência da Leny”.

Tal qual, Faour também ficou seduzido pelo canto de Eversong a serviço do que ele chama de “canções mais singelas”, como “Jangada”, de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. “Uma toada na qual ela quase não coloca a voz pra fora. Porque, quando cantava um samba jazz tipo ‘Aleluia’, do repertório da Elis Regina, tudo era muito forte, tudo era muito bonito’. Verdade é que, ao fim, era tanto material de calibre que Rodrigo Faour passou a querer tentar entender o motivo do apagamento. E foi essa a espinha dorsal do mestrado, que acabou abarcando também a vida pessoal.

Instigado

O pesquisador enfatiza que, entre o sucesso de Carmen Miranda (1909 – 1955) lá fora e a explosão da Bossa Nova no mundo, Leny foi a artista brasileira mais famosa internacionalmente. “Todavia, ela nunca entrava nos livros de história da música, eu não conseguia entender. Quando se falava nos cantores do rádio, todo mundo vai se lembrar de Orlando Silva, Angela Maria, Marlene, Emilinha, mas ninguém se recorda de Eversong. Ficava encasquetado, porque, além de tudo, ela teve uma projeção internacional! Então, fui cavar as razões desse apagamento”.

Vida pessoal

Mas antes de falar do apagamento, Rodrigo Faour acentua que a vida pessoal de Leny foi tão marcante quanto o canto dela. “Ela era uma menina pobre, que só tinha um vestido para trabalhar. Começou como garota prodígio, aos 12 anos, na Rádio Atlântica, de Santos, como Hildinha, a princesa do Fox Trot. Depois, um diretor a rebatizou como Leny Eversong, sempre canção. Ali, ela já tinha facilidade de cantar em outros idiomas, principalmente em inglês”.

Ressalte-se que cedo Hilda ficou órfã de mãe e de pai. Assim, acabou se casando precocemente, na fase de completar 15 anos. No entanto, descobriu que o marido tinha outra família e resolveu sair de casa. Desse modo, perdeu a guarda do filho único. “Depois, conheceu outro homem, que gostava muito dela. Quando o primeiro marido morreu, ela enfim conseguiu reaver a guarda o filho, e, a partir daí, ficou muito próxima dele. Aí, Leny já tinha quase 35 anos de idade e, profissionalmente, não acontecia. Até que veio ao Rio para inaugurar a Rádio Mundial, que pertencia a um grupo do Victor Costa. E triunfou. Foi aí que todo mundo começou a descobrir a Leny”.

Conquistas

O autor comenta que já naquela época o Rio era o epicentro cultural e artístico do Brasil. “Assim, era muito difícil, para um artista que não fosse daqui, conseguir alguma coisa. Na verdade, a Leny Eversong ainda conseguiu muito. Porque, como cantava bem em outros idiomas, e, à época, as músicas estrangeiras demoravam muito para chegar no Brasil, a Continental ‘vendia’ os discos dela como se fossem de uma cantora gringa. Ela gravava muito tema de filme famoso, por exemplo”. No caso, o nome artístico facilitava a impressão de ser uma intérprete “de fora”.

Quando estourou no Rio, prossegue Faour, o magnata das comunicações Assis Chateaubriand viu em Eversong um potencial muito grande, e, assim, a contratou para os Associados. Em pouco menos de um ano e meio, Chateaubriand a convidou para uma festa, na verdade, um evento beneficente no Waldorf Astoria de Nova York. “Ali foi o pontapé para a carreira internacional dela”.

Cinema

Dali pra frente, Leny Eversong foi o Ed Sullivan Show, o célebre programa de variedades estadunidense. Tal qual, gravou com o maestro de Frank Sinatra. “Enfim, foi tanta coisa incrível! Fez temporadas também no Caribe, na América do Sul, na Europa. Depois, nos anos 1960, resolveu ficar mais no Brasil, porque não queria estar longe do filho, que já estava namorando. Mesmo ela o colocando como baterista da banda que a acompanhava. E ele era, digamos assim, um pouco um enfant terrible, tinha se envolvido com drogas. Na verdade, chegou a ser preso, então, ela não queria desgrudar o olho dele”.

Ainda assim, Leny Eversong seguiu trabalhando como cantora. E também como atriz, caso da “Ópera dos Três Vinténs”, numa montagem do texto de Bertold Brecht em São Paulo. Do mesmo modo, chegou a fazer novela. “E, ainda, um filme que poderia ter sido um grande sucesso, porque eram os mesmos produtores de ‘Orfeu do Carnaval’. Aliás, eles a convidaram não por acaso, mas porque já era uma figura internacionalmente famosa na época. No entanto, a produtora faliu no meio dessa história, porque a empreitada era muito grandiosa. O filme era ‘O Santo Módico’, de Robert Mazoyer, em coprodução com a Paris”.

Os anos 1970

Mesmo com o obstáculo, Leny seguiu tentando. Assim, participou de um festival da canção e renovou o repertório. “Desse modo, nos anos 1960, ainda fez sucesso no Brasil, bem como uma nova turnê em Nova York. Os anos 1970 é que foram dramáticos, porque o estilo dela já começa a ficar um pouco ultrapassado em meio a tantos modismos, tantas novidades na música brasileira”. Houve, ainda, um baque na vida pessoal. “O marido dela desapareceu, em circunstâncias misteriosas. A versão mais aceita é a de que ele provavelmente foi confundido com um sindicalista e morto pela ditadura. Então, isso acabou com ela. Ao mesmo tempo, acabou sendo diagnosticada com diabetes. Assim, desgostosa da vida, morreu aos 63 anos, em um hospital público em Mairiporã”.

Antes de partir, Leny Eversong enfrentou dificuldades financeiras. “Quando o marido dela desapareceu, o dinheiro ficou preso na conta dele. Assim, ela acabou ficando pobre. Ou seja, é uma história – tanto de vida quanto de obra – muito forte. Então, tudo isso me fascinou. Por isso também achei que era uma personagem que merecia registros. Além dos discos que fiz, reinserindo-a na nossa cultura midiática, e que agora já estão disponíveis no Spotify, achava importante o registro em livro para que as pessoas possam conhecer mais sobre a vida riquíssima dessa mulher”.

Nacionalismo

Outra questão enfrentada por Leny Eversong, lembra Rodrigo, foi o nacionalismo. “Que, até os anos 1980, era muito forte na imprensa e na intelectualidade brasileira. Então, como ela não conseguiu emplacar um grande sucesso em português, talvez não tenha sido considerada uma artista assim, tão brasileira, para estar nos livros de história da música. Pelo menos, essa foi a minha conclusão”.

Gordofobia

Rodrigo Faour também se espantou com inúmeros registros da gordofobia que recaiu sobre Leny Eversong. “Todas vez que a imprensa falava dela, era sempre como ‘a gorda que canta bem’. Coisa que nos Estados Unidos não acontecia. Lá, valorizavam realmente mais o talento artístico, tal como na Europa. Já aqui, foi algo chocante para mim (ao se defrontar com tais registros na pesquisa). Veja, ela acabava entrando na brincadeira – a meu ver, porque devia achar que não ia ter outro jeito. Mas era bem cruel”.

Para trazer a gordofobia sofrida por Leny Eversong para as discussões atuais ligadas a padrões de beleza, Rodrigo Faour achou importante entrevistar várias cantoras consideradas como “fora dos padrões”. “Para mostrar como o preconceito) interfere na carreira artística de nossas cantoras. Por isso, eu escolhi a Cida Moreira para escrever a orelha do livro. Entrevistei também a Fafá de Belém, a MC Carol, bem como várias outras artistas que, ao fim, mostraram que o quê aconteceu com a Leny não foi um fato isolado. Assim, você ser uma mulher artista, fora dos padrões, sempre foi muito difícil no Brasil”, lamenta.

Serviço

“A incrível história de Leny Eversong ou A cantora que o Brasil esqueceu” 

Autor: Rodrigo Faour

Edições Sesc SP, 2023, 284 páginas. Preço: R$ 70.

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